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ATUALIDADES

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ONDE EDWARD SAID ESTÁ ERRADO

Khalid Amayreh(*)

Em seu artigo, em O Panorama da Oposição (Al-Ahram, 8-14.06.2000), Edward Said diz estar convencido de que a oposição secular no mundo árabe vem obtendo sucesso entre os seus oponentes islâmicos. E o seu raciocínio é o de que o Oriente Médio é uma região muito heterogênea, modernizada e estimulada politicamente para se submeter ao que são aspectos retrógrados, visões absurdamente anacrônicas, que almejam ao estabelecimento de teocracias muçulmanas e judaicas.

A posição de Said é bem conhecida, é claro, e é justificada pela defesa de suas convicções. No entanto, sua condenação indiscriminada aos movimentos islâmicos, demonstra a ausência visível de uma análise mais objetiva de um fenômeno tão profundamente enraizado na sociedade árabe, como o de que trata do ressurgimento islâmico, do qual o Islam político é simplesmente uma parte de sua estrutura multifacetada e diversa.

É lamentável que Said, que sempre esteve na vanguarda ao expor e refutar as maliciosas interpretações ocidentais referentes à questão da Palestina e a outras causas árabes, parece, neste caso, estar repetindo interpretação semelhante sobre os movimentos islâmicos, que no ocidente, e principalmente nos Estados Unidos, têm sido pintados como um novo império do mal, em substituição à antiga União Soviética.

Como um intelectual de grande envergadura, Said devia ter feito um diagnóstico mais objetivo dos movimentos islâmicos que aspiram ao restabelecimento da shariah, inclusive sua postura em relação à sociedade civil e seus pilares, tais como os direitos humanos e as liberdades civis.

Hoje, o grosso dos movimentos islâmicos no mundo árabe, desde a Fraternidade Muçulmana, no Egito, até Al-Nahdha, na Tunísia, aceitam, sem maiores questionamentos, os princípios da sociedade civil. Na verdade, em alguns países árabes, os muçulmanos estão na vanguarda das forças sociais e políticas, exigindo um pluralismo político.

Em muitos casos, os islâmicos também cooperam com os segmentos não islâmicos na promoção dos direitos humanos e liberdades civis, onde quer que sejam permitidos pelos respectivos regimes. Na última semana, por exemplo,  muçulmanos e manifestantes de esquerda protestaram em Nablus, na margem ocidental, exigindo a libertação do professor ativista, Omar Assaf, que é filiado à Frente Democrática para a Libertação da Palestina, que é um grupo marxista de linha dura. O protesto deu resultado e Assaf foi libertado em poucos dias.

É verdade que muito ainda precisa ser feito a esse respeito, mas o simples fato de que os muçulmanos, ou muitos deles, estejam querendo colaborar com grupos não muçulmanos para a busca do bem comum da sociedade deveria ser louvado.

Na verdade, são os muçulmanos, e não os secularistas, que estão pagando o preço mais pesado pela tolerância com o despotismo e a estrutura do estado policial dos regimes árabes contemporâneos. Por consequência, eles têm o maior interesse em apressar reformas democráticas e ser o instrumento na promoção de um novo ambiente político, baseado na sociedade civil.

Said está certo quando diz que o Oriente Médio é heterogêneo. No entanto, também é igualmente verdadeiro que a grande marioria das populações do mundo árabe gostaria de ver uma democracia islâmica igualitária e   democrática, onde as pessoas pudessem  usufruir dos frutos da liberdade sem abandonar os princípios islâmicos ou sacrificar seus valores.

Em outras palavras, as massas não querem uma democracia sem o Islam nem um Islam sem democracia, elas querem ter um sistema que seja a síntese de ambos os princípios. Esta tendência que está latente, e as manifestações ativas dependentes da margem de democracia disponível, parece ser extremamente desconfortável para o ocidente, principalmente os Estados Unidos, o que explica a oposição americana e ocidental a uma democratização verdadeira do mundo árabe.

Os movimentos islâmicos são retrógrados e sua visão é anacrônica? Na verdade, o que significa ser retrógrado? O que é anacronismo? Em nosso mundo existem valores constantes que transcendem espaço e tempo. Por exemplo, o fato de os Dez Mandamentos terem sido transmitidos a Moisés no Monte Sinai há três séculos e meio atrás, não os tornam menos importantes hoje do que o foram no passado.

Da mesma forma, os sublimes princípios islâmicos, muitos dos quais são universais, não podem ser relegados a segundo plano, sob a alegação de serem anacrônicos ou retrógrados, pelo simples fato de que têm 1500 anos! Dentro desse raciocínio, então, ironicamente, a democracia, que é mais velha do que o Islam, deveria ser condenada por ser muito mais anacrônica e retrógrada.

Além do mais, juntar as teocracias muçulmana e judaica em uma mesma classificação, como fez Said, é inaceitável, principalmente por se tratar de um intelectual de correção inquestionável.

Para começo de conversa, não existe essa coisa de teocracia islâmica. Uma teocracia é um governo exercido por um clero ou que se diz exercido por uma lei divina. No Islam, no entanto, a diferença entre clero e leigo não existe, e os governados têm a autoridade final sobre os governantes, que são responsáveis perante o povo.

Além disso, há uma diferença fundamental entre a percepção islâmica dos não muçulmanos sob um governo islâmico e a percepção judaica dos não judeus sob um governo judaico. No primeiro caso, os não muçulmanos são cidadãos que gozam de direitos iguais e no segundo os não judeus   são virtualmente escravos. O Dr.Said provavelmente ficaria surpreso em saber que as últimas palavras proferidas pelo Profeta Mohammad foram istawsu be-ahli al-Kitabi Khayran (seja gentil com o povo do livro). Portanto, colocar no mesmo saco Islam e judaísmo ou fazer a analogia entre ambos é extremamente tendencioso e perverso.

Afora isso, é muito claro que, na essência, o secularismo é incompatível com os pilares básicos da cultura arabo-muçulmana contemporânea. Na verdade, foi esta dicotomia intrínseca que possibilitou ao povo turco resistir a 80 anos de secularização agressiva e compulsiva,   sustentada unicamente através de uma ditadura militar. É esta contradição que causou até os regimes árabes mais repudiados para manter um ministro de assuntos religiosos e até ocasionalmente procurar imitar os muçulmanos radicais, fingindo proteger o Islam e seus valores.

Histórica e culturalmente, o secularismo é um conceito exótico e estranho que não pode ser cultivado no mundo arabo-muçulmano. Além do mais, muitos dos fatores que foram instrumento na evolução e consolidação do secularismo europeu há muitos séculos atrás, simplesmente não existem no mundo árabe.

Para que o secularismo se enraíze no mundo árabe, teria que haver uma transformação fundamental na identidade e cultura árabes. Seria necessário o empenho na remoção do Islam dos corações e mentes de árabes e muçulmanos. Isto também acarretaria que todos ou quase todos os valores islâmicos referentes á vida pública fossem abandonados e substituídos por valores importados do ocidente, o que implicaria numa metamorfose abrangente perseguindo a identidade árabe coletiva e individual.

É por isto que o Islam e seus valores preenchem o vácuo do mundo árabe, com foi há 1400 anos atrás, e possivelmente o secularismo não poderá preencher esse vácuo sem remover o Islam e tudo o que ele representa.

Em resumo, numa análise final, a secularização do mundo árabe exigiria um processo de "desislamização" profundo e sustentado, algo que, segundo meu entendimento, a imensa maioria dos muçulmanos árabes rejeitam e resistem por completo.

(*) Khalid Amayreh é o Editor Chefe do Hebron Times.

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