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ATUALIDADES

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Mais uma vez, líderes árabes e muçulmanos são chamados para se juntar à América no massacre de muçulmanos e outros.

Por Mohamed Khodr

"Ó humanos, em verdade, Nós vos criamos de macho e fêmea e vos dividimos em povos e tribos, para reconhecerdes uns aos outros. Sabei que o mais honrado, dentre vós, ante Deus, é o mais temente. Sabei que Deus é Sapientíssimo e está bem inteirado." (49:13)

Há 10 anos atrás, o presidente George Bush (pai) convocou os mundos árabe e muçulmano para se juntarem numa coalizão contra o Iraque, a fim de libertar o Kuaite, uma nação do deserto que possui petróleo. O presidente Bush foi enfático quando disse "A agressão não permanecerá" e desenhou uma linha na areia. Apesar das mentiras e da propaganda de iraquianos matando bebês kuaitianos nas incubadoras, apesar das falsas lágrimas da jovem em frente ao Congresso americano repetindo esta história (mais tarde descobriu-se que ela era a filha do embaixador do Kuaite em Washington), apesar dos altos custos da contratação pelo Kuaite da firma americana Hill and Knowlton de relações públicas, para convencer o povo americano de que se tratava de uma ataque do Iraque a uma pequena nação pacífica e que não podia ser tolerada, a maioria da massa muçulmana e árabe foi contrária à invasão de uma nação  muçulmana  por outra, com o saque de suas riquezas e a morte, prisão, tortura e estupro de seus cidadãos. Em um mês, o Conselho de Segurança da ONU baixou uma dezena de resoluções autorizando a coalizão a agir com força se o Iraque não se retirasse do Kuaite. Em sua arrogância, Saddam Hussein atirou seu povo e os mundos árabe e muçulmano nas mãos dos Estados Unidos. Até hoje o homem não se desculpa pela tragédia e sofrimento que ele infligiu a seu povo, ao Kuaite e ao mundo árabe, que continuam a pagar o preço por seu egoísmo cretino. Os árabes perderam a moral e o argumento justo para criticar a agressão e a ocupação da Palestina por Israel. Parece que as resoluções da ONU só serão efetivadas  se forem contra os muçulmanos, com a única exceção de Kosovo.

Portanto, por que as nações árabes se juntaram naquela coalizão contra uma outra nação árabe? Os argumentos convincentes de Bush, pai, foram os seguintes:

1. Os árabes não podem condenar a invasão de terras árabes por Israel e não fazer o mesmo em relação ao Kuaite.

2. Bush, pai, prometeu tratar do conflito israelo-palestino chamando uma conferência de paz que iniciaria um processo de paz baseado nas resoluções 242 e 338, da ONU. Este seria um poderoso incentivo para as nações árabes, uma vez que os Estados Unidos queriam resolver o conflito. Síria e Líbano também teriam a oportunidade de retomar suas terras ocupadas.

3. A coalizão provocaria muitos prejuízos ao Iraque, servindo, portanto, aos interesses egoístas da Síria, Arábia Saudita e dos estados do Golfo, países que temiam o exército iraquiano e o sentimento de poder de Saddam, que já tinham abalado a região com a sua guerra contra o Irã. Assim, os países árabes poderiam acertar velhas contas com o maníaco Saddam.

4.Bush, pai, também prometeu ajuda militar e econômica aos países árabes depois da guerra e como um corolário do processo de paz entre israelenses e palestinos, e desse modo subornar os regimes árabes incompetentes.

5. O Castigo: Se as nações árabes não se juntassem à coalizão ou se se opusessem à política americana, então os Estados Unidos e seus aliados europeus imporiam sanções militares e econômicas e cortariam toda e qualquer ajuda àquelas nações. Este foi o caso da Jordânia e do Iêmen, cujas economias sofreram bastante.

Finalmente, o Iraque foi derrotado e as sanções foram impostas e continuam até hoje sem qualquer esperança de que possam vir a ser suspensas. Por causa da guerra de Saddam (embora os Estados Unidos o tenham encorajado deliberadamente), mais de 1.5 milhão de iraquianos morreram e mais de 5.000 crianças morrem a cada mês. Nenhum outro povo na terra sofreu tanto sem conseguir derrubar aquele regime, com exceção dos povos árabes iletrados, indomáveis, manipulados emocionalmente do Iraque.

A Conferência de Madri aconteceu na Espanha, sem Israel sequer aceitar uma delegação palestina formal. Isto aconteceu há dez anos atrás. O que a América fez pelo mundo árabe desde então? Espalhou bilhões de dólares, mais sofisticação militar e armas teconólogicas, promoveu mais vetos para proteger os israelenses e permitiu que Israel confiscasse mais terra, matasse mais palestinos, demolisse mais casas, roubasse mais água e criasse mais refugiados. Esta foi a recompensa americana para os mais egoístas e incompetentes líderes do mundo pela sua submissão à coalizão da América contra uma outra nação árabe e muçulmana. Concedido o apoio a estes regimes autocráticos nos mundos árabe e muçulmano, foi a população muçulmana quem sofreu a opressão e violação dos direitos humanos. A América nunca aceitou ou aceitará verdadeiros governos islâmicos democráticos que se oponham a décadas de hegemonia americana e israelense na região, que mata e oprime não só os palestinos, mas cristãos e muçulmanos.

O Islam ensina que os muçulmanos devem lutar contra a injustiça em qualquer lugar, talvez devêssemos começar em nosso próprio quintal,   retomando nossa fé, cultura, história e auto-estima. A palavra "árabe" é desrespeitada e desprezada no mundo, no entanto Allah nos deu Sua palavra sagrada, o Alcorão, em árabe. Ele deu o Alcorão para "aqueles que raciocinam". Durante o império otomano, e mais tarde durante o governo colonial europeu, as instituições islâmicas e a língua árabe foram atacadas. Mais importante, hoje nenhum árabe/muçulmano serve verdadeiramente ao Islam ou aos seus povos, senão como instrumento de seus próprios interesses. Suas prioridades têm sido o controle da mídia e o aplauso, oprimindo a liberdade de expressão e o pluralismo político, novos palácios, carros, abrindo espaço aos hipócritas que os aplaudem. As receitas e o orçamento do país vão para as suas  contas bancárias pessoais.

Depois do trágico e doloroso ataque terrorista não islâmico contra os Estados Unidos, que matou perto de 6.000 de meus companheiros americanos, as organizações muçulmanas do mundo todo condenaram o ataque por ser contrário à santidade da vida, à proibição de se prejudicar civis inocentes e ao suicídio, a América está clamando por guerra e vingança. A suspeita primeira, culpado ou não, é Osama bin Laden e, por consequência, o Afeganistão. Mas, muitas pessoas do governo Bush estão estimulando um ataque maciço mais amplo contra toda nação árabe e muçulmana que de alguma forma se oponha a Israel. Isto pode incluir Iraque, Irã, Síria, Líbano, Sudão e Iêmen. Bush desenhou uma linha na areia, da mesma forma que seu pai. Com relação ao mundo árabe e muçulmano ele disse: "façam a escolha, ou estão conosco ou estão com o terrorismo. Qualquer regime que apoie ou abrigue o terrorismo será considerado um regime hostil aos Estados Unidos." A Liga Árabe e a Organização da Conferência Islâmica estão vacilantes. Esses fantoches americanos sabem que não têm escolha senão se juntar á matança de muçulmanos inocentes ou se arriscam a perder o dinheiro, as armas, o apoio americanos, e até se arriscam a ser eliminados ou pela América ou por suas próprias populações, na medida em que o número de mortos muçulmanos cresça. Não há espaço para neutralidade, não há espaço para rejeitar o imperialismo e dominação americanos, não há espaço para a negociação ou a lógica, não há espaço para a justiça.

Como todos os americanos, senti esta tragédia e a perda de vidas. Eu morava em Beirute em 1982 quando Sharon dizimou centenas de prédios com civis dentro (a América se calou quando Israel cometeu o massacre). Sei o que é tirar pessoas dos escombros, vivas, mortas ou só algumas de suas partes. Mas, uma tragédia maior para nossa nação é se estes terroristas sequestrarem nossa sanidade, valores, sentido de justiça, norma legal e poder de raciocínio. Devemos defender nossa nação e perseguir os responsáveis diretos ou indiretos, mas não devemos nos render ao massacre de inocentes por causa dos terroristas e começar um ciclo de violência indigna de nossa nação e que pode voltar-se contra nós mesmos.

Assim, Bush espera a resposta dos árabes. Eles têm qualquer outra opção que não seja mais uma vez, dez anos mais tarde, se juntar à coalizão do jovem Bush e assistirem à matança de muçulmanos inocentes juntamente com os prováveis terroristas culpados? SIM, ELES TÊM. Desta vez, esses líderes devem estabelecer um preço pela cooperação com os Estados Unidos. Sem essa cooperação americana, esses líderes devem abster-se de se juntarem aos americanos e prepararem suas respectivas populações para duros sacrifícios tais como perda de ajuda econômica e sanções. Eles encontrarão os povos muçulmano e árabe dispostos a suportar tais sacrifícios que os revigorarão em sua auto-estima, dignidade, fé e na pobreza que já existe.

Mas, infelizmente estamos lhes pedindo que tenham coragem e que sacrifiquem alguns de seus bilhões e talvez até  suas vidas, uma vez que Bush ordenou que a CIA retome sua antiga forma israelense de lidar com os povos que não cooperam - os assassinatos.

1.A Liga Árabe e a Organização da Conferência Islâmica devem enviar imediatamente uma delegação de alto nível a Washington para avaliar as provas contra Bin Laden ou qualquer outro.

2. Se ficarem convencidos, devem retornar à Liga Árabe/OCI e apresentar as provas. Então, ambas as organizações (com o Afeganistão presente) devem tomar uma posição firme e definitiva de que se juntarão à coalizão e combaterão o terrorismo nas seguintes condições:

a) Que a coalizão só se refira às partes responsáveis.

b) Que seja realizada uma Conferência Internacional sobre o "Terrorismo", sem direito a veto por parte das nações, a fim de que o prazo seja definido e que  todas as nações que cometem ou apoiam o terrorismo sejam identificadas e punidas e que o terrorismo seja erradicado do país.

c) Que esta conferência discuta as causas do "Terrorismo" no mundo.

d) Que esta conferência crie estratégias que tratem das causas do terrorismo.

e) Que resoluções adequadas baixadas pelo Conselho de Segurança da ONU sejam adotadas para fazer cumprir tais estratégias.

f) Que todas as resoluções da ONU sejam implementadas em um determinado prazo, principalmente no Oriente Médio, como estratégia mais eficaz para tratar das causas do terrorismo. O mundo muçulmano não mais tolerará padrões duplos.

g) Que as negociações de paz sob os auspícios da ONU tratem dos conflitos na Chechênia e Caxemira, uma vez que ambos os conflitos envolvem nações com poder nuclear.

h) Que o Oriente Médio seja declarado zona livre de armas nucleares.

i) Que as mortais sanções econômicas contra o Iraque sejam levantadas.

j) Que seja implementado pelo mundo inteiro um plano econômico, do tipo Plano Marshall, para tirar as economias dos mundos árabe e muçulmano de suas privações e desesperança e que permita que eles sejam introduzidos no campo da recuperação econômica.

k) Que reformas democráticas verdadeiras sejam implementadas nos mundos árabe e muçulmano, que permitam que suas populações tenham liberdade de expressão, de religião e de movimento. Muitos dos movimentos fundamentalistas são direcionados para seus líderes e não para os Estados Unidos.

l) Que Estados Unidos, Europa e mundo árabo/muçulmano desenvolvam seus meios de comunicação uns com os outros, onde suas culturas e fés sejam respeitadas. Ambos os mundos são arrogantes e se ignoram mutuamente.

Sei que estou sonhando com o impossível, mas é o único sonho que tenho que me dá esperança de que nosso mundo pode encontrar a paz e a justiça entre as nações. O mundo ocidental é um mundo de arrogância, de poder e de riqueza, combinado com um total desinteresse e ignorância do Terceiro Mundo. Para o ocidente somente o branco cristão tem importância, valor e credibilidade. Enquanto isso, no mundo muçulmano existe uma ignorância do ocidente combinada com um total desespero e frustração em relação à  condição imposta por seus líderes, e uma cultura que culpa o ocidente pelas doenças que eles mesmos se infligem. Ambos os mundos temem o que   não conhecem e não se esforçam para buscar a compreensão e o respeito mútuo. Ambos os mundos têm mais em comum um com o outro em sua fé e aspirações do que eles imaginam.

Viver na América, apesar da escalada de crimes contra árabes e muçulmanos, nos dá uma perspectiva de liberdade de religião e expressão que não existe no mundo muçulmano, ainda que o Islam seja a mais verdadeira fé democrática. É reconfortante que apesar dos ataques e das perdas na América tantos judeus e cristãos americanos estejam buscando americanos árabes e muçulmanos para prestar-lhes confiança, proteção e assistência. Ouso dizer que a este respeito, há mais compaixão entre os americanos do que encontramos no mundo árabe. Os americanos, quando esclarecidos sobre uma questão, como, por exemplo o regime assassino e devastador de Israel, que leva o horror aos palestinos, tornam-se mais ativos na causa dos palestinos do que a maioria dos muçulmanos americanos que se contentam com seu silêncio e ausência de um discurso político. Tragicamente, nossos líderes estão usando este evento terrível para atacar sua oposição e prender qualquer um sob o pretexto do "terrorismo".

Mas, esperem um minuto, acabei de ouvir que, desta vez,  a Liga Árabe tomou uma atitude séria. Eles se reuniram e decidiram que se Israel matar mais palestinos   convocarão um outro encontro.
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Mohamed Khodr é um médico muçulmano americano, natural do Oriente Médio. Ele trabalhou na Academia de Medicina e Saúde Pública e tem experiência nacional e internacional. Ele é um escritor free-lance que escreve frequentemente artigos sobre a causa palestina, o Islam e a política externa americana para o Oriente Médio. Ele mora em Washington.

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