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ATUALIDADES

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O DISCURSO DO ESTADO DA UNIÃO: A FEBRE DE GUERRA DE UMA ELITE GOVERNANTE EM CRISE

Conselho Editorial do WSWS
30/01/2003

O discurso do Estado da União, proferido por George Bush numa sessão conjunta do Congresso, na terça-feira à noite, refletiu um governo mergulhado em profunda crise. A febre de guerra e a ladainha de mentiras e ameaças criaram a impressão de uma elite governante que se sente sitiada e esmagada por contradições econômicas que mal consegue compreender. Bush fala para um regime que está indo à guerra, na esperança de que isso possa, de alguma forma, livrá-lo de sua crise, por meio de uma agressão militar e do confisco do petróleo do Golfo Pérsico.

Foi impossível ficar sentado durante a uma hora que durou o ataque violento de Bush, sem imaginar o que George Orwell teria feito com contribuições assim para o Newspeak, por causa da descrição de Bush da força de invasão reunida nas fronteiras do Iraque como as "que manterão a paz".

Ou então, recados grotescos ao povo iraquiano, de que "o inimigo não se encontra nos arredores do seu país; o inimigo governa o seu país"; e a pretensão de que a ocupação militar americana do Iraque "será o dia de sua libertação".

Essas palavras eram ditas enquanto os relatórios tornavam público que os Estados Unidos atacarão o Iraque com 400 mísseis nas primeiras 24 horas da guerra, no que é descrito como uma estratégia de "ataques surpresa", com o objetivo de levar o país à submissão pelo terror.

Enquanto isso, o secretário de estado, Colin Powell, rejeitou as acusações de que Washington está indo à guerra para controlar as grandes reservas petrolíferas do país, insistindo em que os Estados Unidos somente as ocuparão sob "tutela", um eufemismo para colonialismo que virou moda depois da I Guerra Mundial.

Da mesma forma, do lado doméstico, Bush levantou a questão da pobreza nos Estados Unidos e propôs tratar do problema através de uma política de impostos para o rico. Ele apelou para a grande crise do sistema de saúde e propôs medidas para cortar o programa Medicare, que atende aos cidadãos mais velhos.

Guerra é paz, ocupação é libertação e colonialismo é liberdade. Somente o departamento de propaganda de um regime cada pedaço tão depravado quanto aquele mostrado no livro de Orwell, 1984, poderia ter esculpido as palavras lidas por Bush de seu teleprompter.

A coleção de bandidos e sádicos que ocupa os altos escalões da administração Bush e do Congresso, saltou para saudar com entusiasmo a promessa solene do presidente de desencadear a "força total do exército dos Estados Unidos" contra o empobrecido e oprimido país, já seriamente devastado pela guerra e sanções econômicas.

Deram urros de alegria quando Bush, numa linguagem professoral de mafioso, referiu-se ao sucesso de seu governo em acabar com supostos terroristas. Referindo-se à prisão de mais de 3.000 suspeitos, a maioria imigrantes denunciados por questões com a imigração, Bush se gabou "muitos outros encontraram um destino diferente. Vamos colocar assim, eles não são mais problema para os Estados Unidos."

Dando prosseguimento, Bush anunciou a formação de um "Centro de Integração de Ameaça Terrorista", absorvendo funções da CIA, do FBI, do Pentágono e do novo departamento de Segurança da Pátria. A criação desta nova superagência rasga em pedaços as salvaguardas constitucionais contra a vigilância governamental de residentes e cidadãos americanos.

Houve alegações inconsistentes e politicamente impossíveis sobre os laços iraquianos com a al-Qaeda, um movimento cuja hostilidade islâmica por movimentos nacionalistas seculares como o Baath, no Iraque, é bastante conhecida. Bush, mais uma vez, afirmou que o regime iraquiano comprou tubos de alumínio "próprios para a produção de armas nucleares", uma afirmação já desacreditada pela Agência Internacional de Energia Atômica, com base em suas inspeções no Iraque.

Com um aceno cínico de mão, Bush apresentou as acusações da ONU de que o Iraque não tinha conseguido provar que todas as suas armas não convencionais dos anos 80 tivessem sido destruídas, como prova de que tais armas existem hoje - coisa que até o inspetor de armas, Hans Blix, não sustentou.

Como justificativa "moral" para a guerra, o presidente americano citou relatórios de organizações de direitos humanos, detalhando os métodos selvagens de tortura usados pela polícia secreta do regime iraquiano. "Se isto não representa o mal, então não sei o que é o mal", declarou Bush. Mas a afronta moral da administração dos Estados Unidos a respeito de tortura é relativa. Tudo depende de quem a pratica. Todos os métodos repugnantes mencionados por Bush foram catalogados durante décadas em relatórios de direitos humanos, emitidos sobre as práticas das ditaduras latino-americanas e outras, apoiadas pelos Estados Unidos.

Além do mais, atualmente os Estados Unidos estão   usando técnicas de interrogatório, que são descritas como de tortura, contra seus detidos e enviando alguns supostos terroristas suspeitos para a polícia secreta do Egito, Jordânia, Arábia Saudita e Paquistão, onde métodos semelhantes aos supostamente usados Iraque são empregados. De acordo com alguns relatórios, os agentes de inteligência dos Estados Unidos participam diretamente dessas sessões de tortura.

Finalmente, o discurso incluiu a comparação ritualística de Saddam Hussein a Adolph Hitler. "Por todo o século XX, pequenos grupos de homens assumiram o controle de grandes nações, construíram exércitos e arsenais e partiram para dominar os fracos e intimidar o mundo", declarou Bush, no que serviria como uma descrição pertinente de sua própria trajetória, desde que fraudou a eleição de 2000.

Continuando, ele disse: "Agora, neste século, a ideologia de poder e dominação surgiu de novo... Mais uma vez, somos chamados a defender a segurança de nosso povo e as esperanças de toda a humanidade."

No entanto, pelo que dizem, a grande maioria da humanidade - inclusive muitos americanos - se opõemm uma guerra contra o Iraque. Corretamente, o grosso da humanidade vê as alegações de Bush sobre as armas iraquianas de destruição em massa, como um pretexto cínico para uma guerra de conquista e de pilhagem. A "ideologia de poder e dominação" está amplamente identificada com a própria política de "guerra preventiva" da administração Bush e sua tentativa de usar o poderio militar americano para tomar recursos estratégicos e intimidar potenciais rivais.

Houve uma ressaca por toda a fala do Estado da União de algo próximo à paranóia e uma hostilidade profunda para com o resto do mundo. O discurso não incluiu qualquer tentativa de ganhar os aliados de outrora na Europa e no Japão. As declarações de Bush foram definidas por um senador democrata como "unilateralismo vociferante" que despertou a ovação dos funcionários reunidos.

Bush fala para, e personifica, uma elite governante desafiada por uma  sistemática e desesperada crise econômica, para a qual não há uma resposta verossímil. Ironicamente, enquanto Washington manda o resto do mundo para o inferno, a economia americana se torna cada vez mais dependente de maciças infusões de capital da Europa, Ásia, do petróleo dos emirados do Oriente Médio e outros, por causa de uma base crítica da extravagante acumulação de riqueza pelas campadas mais altas da sociedade americana.

No mês de novembro, os Estados Unidos registraram um déficit comercial recorde, de US$40 bilhões, enquanto projeta-se um aumento do déficit de pelo menos US$ 500 bilhões para este ano. Somente uma orgia de empréstimos de fora - de mais de US$ 2 bilhões por dia - mantém o dólar e a economia americana em circulação. Uma crise de confiança na economia americana já prenunciava o declínio precipitado do dólar nas últimas semanas, ameaça estancar este maciço fluxo de capital e levar a economia a um colapso.

No início do seu discurso, Bush fez uma revisão superficial da agenda doméstica de sua administração. Mesmo nesse discurso, tradicionalmente uma ocasião para a proclamação da força da "união", o presidente dos Estados Unidos foi obrigado a tocar nos cânceres sociais criados pelo capitalismo na América. Entre os sinais de decadência social citados por Bush, estavam o desemprego e moradia, drogas, milhões sem assistência médica, e uma grande população

A guerra intensificará os antagonismos inter-imperialistas que já surgiram no racha  crescente entre Europa e América. Na medida em que Washington tenha êxito no uso de sua força militar para controlar o petróleo do Golfo Pérsico, deve provocar uma luta renovada pelo controle de matéria-prima, mercados e territórios estratégicos no mundo todo, abrindo o caminho para uma nova guerra mundial.

Internamente, a guerra exacerbará a polarização social porque um quinhão cada vez maior da receita nacional transferiu-se para as oligarquia financeira e militar. A grande desigualdade imposta por um governo de ricos - instalado por decisão da Suprema Corte - deve, no final, produzir levantes políticos na América.

Este movimento emergente de oposição política pode se opor, com sucesso, à eclosão do imperialismo americano somente pelo avanço de uma alternativa socialista à guerra, à desigualdade social e enraizado-se na luta unificada da classe trabalhadora internacional. O World Socialist Web Site e o Partido da Igualdade Social estão comprometidos politicamente com a preparação de tal movimento.

 

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