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ATUALIDADES

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APÓS O MASSACRE AMERICANO DOS PRISIONEIROS DE GUERRA DO TALEBAN:  cheiro de morte e mais mentiras da mídia

Por Jerry White
29/11/2001

Na quarta-feira passada, jornalistas e representantes da Cruz Vermelha Internacional relataram uma cena terrível de carnificina assim que entraram na prisão próxima a Mazar-i-Sharif, onde mais de 800 prisioneiros estrangeiros do Taleban foram mortos durante um cerco de três dias à fortaleza, comandado pelas forças especiais americanas e agentes da CIA.

De acordo com fontes da Aliança do Norte citadas na imprensa americana, a maior parte das mortes, foi em decorrência dos ataques aéreos americanos sobre a prisão. Durante os cerco de três dias, pelo menos 30 bombardeios foram realizados pelos aviões de guerra e helicópteros, cujos alvos eram definidos por soldados especiais na prisão.

Testemunhas contaram que viram cadáveres dilacerados de centenas de prisioneiros do Taleban, espalhados entre os escombros e os prédios ainda queimando, as partes destruídas de cavalos mortos e veículos furados de bala. Um cheiro acre de morte enchia o ar assim que o pessoal da Cruz Vermelha começou a carregar os corpos para os trailers, a fim de serem enterrados.

O General Rashid Dostum, da Aliança do Norte, procurou impedir que os repórteres entrassem no setor sul do complexo, alegando que prisioneiros vivos poderiam estar escondidos entre a pilha de cadáveres.

Um fotógrafo da Associated Press que caminhava pela área viu os corpos de 50 prisioneiros mortos, que parecia terem sido executados porque as mãos estavam amarradas às costas com lenços pretos. Os soldados da Aliança estavam ocupados removendo os lenços com facas e tesouras.

A BBC disse que os soldados da Aliança continuaram a atirar nos corpos dos soldados do Taleban para se assegurarem de que nenhum prisioneiro estava vivo. Os mortos eram, em sua maioria, paquistaneses, chechenos, árabes e outros não afegãos, que se renderam no sábado, 24/11, quando o norte de Kunduz, dos Talebans, rendeu-se à Aliança do Norte.

Vários jornais americanos conseguiram filmar algumas destas cenas sangrentas, juntamente com o aviso de que o conteúdo do filme poderia ser perturbador para os espectadores. Mas as redes e jornais se recusaram a dizer o óbvio: que o banho de sangue em Mazar-i-Sharif foi um massacre, foi comandado e praticado principalmente pelos Estados Unidos - um crime que lembra as atrocidades dos assassinos nazistas da II Guerra Mundial e do massacre de My Lai, no Vietnã.

Em lugar de focalizar seu conteúdo nos prisioneiros mortos e na população da Ásia Central em geral - a quem os Estados Unidos dizem estar defendendo dos terroristas da Al Qaida - a mídia chamou a atenção o agente da CIA morto no complexo penitenciário. Eles mostraram esse assassino profissional como um herói nacional, buscando usar sua morte para alimentar os sentimentos a favor da guerra.

A Anistia Internacional pediu, na terça-feira, uma investigação a respeito dos acontecimentos na prisão de Qala-i-Janghi e a "proporcionalidade da resposta" da Aliança do Norte, dos Estados Unidos e dos soldados britânicos. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha declarou que os Estados Unidos tinham a obrigação moral de cumprir fielmente a Convenção de Genebra, que regulamenta o tratamento humanitário dos prisioneiros de guerra.

A maior preocupação da mídia americana, no entanto, tem sido a de encobrir o papel direto da CIA, do exército dos Estados Unidos e da administração Bush na carnificina. A mídia tem repetido acriticamente a afirmação do governo americano de que a morte foi justificada porque os prisioneiros tinham contrabandeado armas na fortaleza e iniciado um ataque contra os carcereiros da Aliança do Norte. Esta versão é contrariada pelos vários testemunhos oculares. Mas, mesmo que fosse verdade, não se justifica, ainda que de um ponto de vista militar, a matança de prisioneiros indefesos.

Há uma evidência crescente de que o chamado levante foi provocado por soldados americanos e seus aliados da Aliança, como um pretexto para o massacre dos prisioneiros estrangeiros do Taleban. De acordo com o Times, de Londres, a resistência generalizada dos prisioneiros do Taleban só começou na manhã de domingo, depois que agentes da CIA, ao interrogarem os prisioneiros de guerra do Taleban, se viram envolvidos num confronto e atiraram e mataram pelo menos 5 prisioneiros desarmados.

O Times contou que a "rebelião pode ter sido também iniciada por causa das tentativas de se amarrar os prisioneiros, muitos dos quais aparentemente achavam que iam ser mortos. De acordo com um relato, cerca de 250 prisioneiros foram confinados pelos guardas antes que o resto se rebelasse."

O artigo observou o estranho fato de que pelo menos dois dos veículos contendo os prisioneiros rendidos não foram examinados, deixando em aberto a possibilidade de que os soldados da Aliança do Norte e seus aliados americanos permitiram deliberadamente que armas fossem trazidas para a prisão, a fim de facilitar um "levante", que então seria esmagado pela superioridade de seu poder de fogo.

O jornal forneceu o seguinte relato do incidente que deu início à rebelião. Uma testemunha disse ao Times: "A luta começou quando os prisioneiros estavam sendo interrogados por dois homens da CIA. Eles queriam saber de onde eles tinham vindo e se eles eram da al-Qaida."

Os dois agentes da CIA estavam vestidos com roupas afegãs, tinham barba cinza e falavam persa. Um deles era conhecido por Michael e o outro por David, disse o Times.

O relato da testemunha ao jornal continuou: "Michael perguntou a um prisioneiro por que ele tinha vindo para o Afeganistão. Ele respondeu: "Estamos aqui para matar vocês" e se jogou de encontro a Michael, que o matou e a três outros com sua pistola antes de ser atirado ao chão."

Vários outros prisioneiros do Taleban responderam batendo, chutando e mordendo até a morte um agente da CIA (agora identificado pela CIA como um funcionário de operações paramilitares, Johnny "Mike" Spann) e depois  se voltando para os guardas da Aliança.

A testemunha do Times disse que o segundo agente, "David", também matou "pelo menos um prisioneiro" e fugiu em seguida do prédio onde os prisioneiros estavam sendo interrogados para o prédio central, onde ele usou um telefone via satélite para chamar a embaixada americana no Usbequistão e pedir helicópteros e soldados para atacar a prisão.

Forças especiais americanas e britânicas, baseadas em um aeroporto militar do lado de fora da prisão, chegaram primeiro e começaram o assalto. O filme da TV alemã mostrou soldados atirando nas paredes onde, do outro lado, estavam os prisioneiros. Outros entraram no forte num aparente esforço para resgatar os agentes ou recuperar seus corpos. Nesse meio tempo, o segundo agente conseguiu pular o muro da fortaleza e se salvou.

Todos os prisioneiros do Taleban que tentaram escapar foram rapidamente mortos pelos soldados americanos, britânicos ou da Aliança do norte. Houve novos relatos de que os cadáveres amontoados numa saída foram abatidos com um únido tiro na cabeça.

O bombardeio americano começou no domingo e se intensificou na segunda-feira. Ao cair da noite do dia 26, o número de sobreviventes era talvez de 100, dos 800 que se encontravam no complexo. O bombardeio continou durante a noite, reduzindo mais ainda o número de sobreviventes.

Ao descrever a terrível cena, o Times de Londres disse: "Os ataques noturnos deixaram muitos corpos meio enterrados no chão. Membros e troncos se levantavam do chão como troncos de árvores depois de um incêndio na floresta."

Na manhã de terça-feira, 27 de novembro, caminhões carregando 200 soldados da Aliança e um canhão anti-aéreo chegaram à fortaleza, enquanto as forças especiais americanas se adiantavam e os aviões de guerra circulavam no céu. Sem tomar prisioneiros, os soldados da Aliança foram de quarto em quarto, matanto quem quer que estivesse vivo, inclusive os feridos, e atirando balas e foguetes nos cadáveres.

A luta terminou na tarde de terça-feira, depois que as forças especiais americanas e britânicas puseram fogo na gasolina jogada dentro de um abrigo, onde três prisioneiros do Taleban ainda permaneciam. Então, um tanque da Aliança do Norte passou pelos corpos de vários voluntários árabes e paquistaneses dos Talebans e atirou três vezes, obstruindo o prédio e matanto os últimos que ainda resistiam.

Subestimando o número de prisioneiros, Abdullah Jan Tawhidi, um representante do Ministério da Segurança e Inteligência da Aliança, disse, "mais de 300 soldados estrangeiros foram mortos. Não foi um grande número.'

Os prisioneiros estrangeiros foram trazidos para a fortaleza amparados por um acordo entre o comandante Taleban em Kunduz e o General Rashid Dostum, da Aliança, para abandonar a cidade. 5.000 soldados afegãos do Taleban tiveram a permissão de desertar ou receberam salvo-conduto para retornarem para suas cidades, enquanto os não afegãos eram presos nos quartéis da fortaleza de Dostum, Qala-i-Janghi. Funcionários de alto escalão, inclusive o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, se opuseram publicamente a qualquer acordo que permitisse salvo-conduto aos soldados estrangeiros do Taleban para o Paquistão em troca de sua rendição, e indicou sua preferência de que eles fossem mortos.

Diante da crescente evidência, Dostum negou quaisquer maus tratos aos prisioneiros de guerra estrangeiros por seus soldados.Mas Dostum já está sob investigação pelo ataque inicial no começo deste mês em Mazar-i-Sharif, onde a Cruz Vermelha descobriu 600 corpos. Além do mais, esta semana relatos trouxeram à tona o massacre praticado por suas tropas nos soldados estrangeiros do Taleban em Kunduz. A Associated Press relatou "Socando os rostos dos soldados capturados e chutando os que caíam feridos ao chão, as forças de oposição seguiram desordenadamente para Kunduz na segunda-feira."

Comenta-se que Dostum retém outros 6.000 prisioneiros Taleban nas proximidades da vila de Sheberghan. Não há dúvidas de que massacres semelhantes estão acontecendo no sul do Afeganistão, onde os fuzileiros americanos começaram uma missão de busca e destruição em Candahar, o último reduto do Taleban. Gul Agha, um antigo comandante étnico das forças pashtun do sul do Afegnistão, disse na quarta-feira que 160 soldados do Taleban  capturados que se recusaram a se render foram executados a tiros diante dos olhos do pessoal militar americano, de acordo com a agência de notícias Reuters.

O encobrimento dos crimes de guerra dos Estados Unidos pela mídia americana incluiu a chamada imprensa liberal, como o New York Times e o Washington Post, que sequer publicaram comentários editoriais sobre o massacre na prisão. Pelo contrário, no covarde editorial de terça-feira, o New York Times apoiou a política de sangue frio do Pentágono e escreveu, "Um problema omitido desde os primeiros combates é o destino dos estrangeiros que lutam ao lado do Taleban no norte do Afeganistão e que agora foram derrotados. O secretário de Defesa, Donald Rumsfeld está certo em pedir que eles não tenham a permissão de fugir..."

World Socialist Web Site [http://www.wsws.org].

 



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