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ATUALIDADES

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SHARON, QUANTAS CRIANÇAS VOCÊ MATOU HOJE?

Abdeljabbar Adwan

Na noite do dia 9/11/1938, o ministro da propaganda alemão, Joseph Goebbels, preparou um ataque às propriedades de judeus em toda a Alemanha, como castigo pela morte de um diplomata alemão, praticada por um judeu contra a deportação de seus pais para a Polônia. Os estilhaços de vidro das janelas de 7.500 casas e lojas de judeus deram a este evento o nome em alemão de "Kristallnacht" ou "A Noite do Vidro Quebrado".

No dia 3 deste mês, na maior parte das aldeias e vilarejos da Faixa de Gaza e Cisjordânia, milhares de lares, escolas e lojas palestinos tiveram suas janelas e vitrines estilhaçadas por causa do impacto dos foguetes e granadas de Israel. Cerca de 600 crianças escaparam milagrosamente da morte naquele dia, quando a escola foi atingida minutos após ter sido evacuada. Milhares de outras crianças esconderam-se em suas casas.

Desde aquele dia, os bombardeios não pararam mais e mísseis, granadas e bombas têm atingido as crianças com frequência. As casas são sistematicamente alvejadas pelas armas israelenses de fabricação americana, seus moradores transformados em sem-teto e suas crianças assassinadas.

Portanto, quantas crianças você matou hoje, sr. Sharon? As crianças da Palestina tornaram-se vítimas da impotência árabe e da subserviência americana à lógica israelense. Será que importa se o presidente George W. Bush pediu ou não ao primeiro-ministro Ariel Sharon para não matar o presidente palestino, Yasser Arafat , porque ele deu sinal verde para matar as crianças palestinas? É como um monstro perguntando para a mãe qual dos filhos deve ser devorado primeiro.

Os Estados Unidos não estavam provando sua neutralidade ao pedir que Sharon poupasse a vida de Arafat e a de sua Autoridade Palestina. Na verdade, os Estados Unidos são cúmplices do terrorismo israelense contra civis inocentes, homens, mulheres e crianças palestinos. As duas últimas semanas demonstraram - ainda que tal prova fosse necessária - que Israel e Washington estão agindo em parceria. Há uma grande diferença entre a meia neutralidade de Bush e de sua administração adotada antes dos ataques de 11 de setembro e a atual posição de total apoio a Sharon e suas ações.

A administração Bush está irritada com os árabes por não apoiarem sua "guerra contra o terror". Portanto, Bush precisa do Congresso e assim tem que prostrar-se a Israel. Mas, porque as crianças palestinas devem ser o preço a ser pago? Por que a administração americana está lançando todo seu peso em apoio ao terror israelense sem ao menos apresentar a desculpa de uma iniciativa de paz baseada nas resoluções da ONU? Palavras vãs sobre um estado palestino não bastam. Os americanos foram muito longe ao apoiar a humilhação deliberada de Arafat por Israel.

O líder palestino está sob prisão domiciliar; ele não pode se mover entre as cidades da Palestina, e muito menos deixar o país. Israel cancelou toda a agenda de Arafat, deixando-o "livre" para combater a oposição palestina.

Esta política - que também tem sido apoiada pela União Européia - não levará à submissão; pelo contrário, só a mais resistência. Matará qualquer oportunidade de entendimento e abrirá o caminho para o extremismo. Em resumo, esta política coloca os Estados Unidos e o ocidente no bolso de Sharon que não quer a paz em absoluto. E nem foi o gênio de Sharon nem a eterna inimizade entre ocidente e oriente que nos levou a esta confusão. Foi por causa do desempenho extremamente pobre de nossa parte - associado ao apoio americano e ocidental ao terrorismo de estado.

O que é esta nova definição de terrorismo que está surgindo entre nós sem que a tivéssemos percebido? Por muitas razões, a administração americana abriu os portões para todos os países participarem da "guerra contra o terror", declarada logo após os ataques de 11 de setembro. Israel ficou excluída de se integrar a esta nova coalizão enquanto os países árabes eram convidados a se juntar a ela. Nenhum país ou organização árabe foi tido como parte hostil. Washington descreveu o terror que ele queria combater como "internacional" - ou seja, atos violentos que atingem países não diretamente envolvidos em conflitos. Isto significava que os movimentos de libertação nacional tinham o direito de resistir enquanto eles não atingissem outras partes.

Esperava-se que esta definição agradasse aos árabes. No entanto, os regimes árabes em lugar de aceitá-la e adotar medidas práticas, insistiram numa definição clara, formalmente aceita a nível internacional. Alguns regimes árabes queriam limitar a definição de terrorismo para que não viesse a criar no futuro situações que pudessem minar seus próprios interesses e ações. Outros regimes árabes estavam interessados em acusar as nações ocidentais de terem dado abrigo a dissidentes políticos acusados de apoiarem o terrorismo.

A agitação oficial árabe, associada à tradicional hostilidade a Washington por parte da opinião pública árabe, e, finalmente a série de bombas suicidas que atingiram civis israelenses, levaram Washington a mudar seu conceito de terrorismo. Agora, terrorismo tornou-se qualquer ato que leve à morte de civis, apesar de sua motivação política.

Esta nova definição se encaixou em Israel - principalmente se a resistência palestina continuar em seus esforços de atingir soldados e colonos israelenses. Ao mesmo tempo, Israel foi absolvido de sua responsabilidade pela morte de civis e crianças inocentes, como temos visto desde 3 de dezembro. - quando Washington começou a apoiar o terrorismo de estado.

Tal política - tal definição - abre a possibilidade para que outros regimes opressivos cometam abusos contra suas respectivas populações e cuja resistência possa ser descrita como terrorismo.

Desde 11 de setembro, muitos países - como a Rússia, Turquia, Filipinas e outros - vêm tentando enquadrar suas minorias oprimidas como terroristas e pedindo a Washington que tolere suas medidas repressivas contra tais minorias como um preço para se aliarem à coalizão anti-terror. As leis foram mudadas e as liberdades civis reduzidas na Europa, e acordos feitos entre nações democráticas e menos democráticas às custas dos dissidentes. A porta agora está escancarada para os regimes repressivos oprimirem os dissidentes e as minorias, sob o pretexto do terrorismo.

Existem outras razões para a precipitação contra os árabes: o desejo de vingança pela satisfação árabe com a destruição do dia 11 de setembro. Washington exagerou a importância da al-Qaeda e do Taleban para que a vitória sobre eles fosse percebida como uma grande conquista - ou para justificar a demora nessa vitória. Mas o balão Taleban esvaziou em tempo recorde e Washington teve sua vitória sobre este "adversário fantástico". Aqueles que depositaram suas esperanças no Taleban então receberam um golpe moral esmagador que se soma ao da guerra de junho de 1967 e da derrota do Iraque em 1991. O perigo em tudo isto é a possibilidade de que Washington (com o estímulo israelense) possa acreditar que vitórias semelhantes contra os países árabes possa ser alcançada tão facilmente quanto a do Afeganistão.

Agora está claro que a definição de terrorismo se estende àqueles países que abrigam ou ajudam terroristas. Obviamente que não será à Inglaterra, à Espanha, à Irlanda, à Alemanha ou mesmo à América (com todos os terroristas locais) que a definição se refere, e sim aos países árabes que já estão na lista americana de terroristas acrescida de outros que convenientemente possam vir a fazer parte, de acordo com a oportunidade.

A Autoridade Palestina, por exemplo, não faz parte desta lista, mas transformou-se na primeira vítima desta nova política. A AP está sendo obrigada a aceitar esta nova política. Todos os países árabes estão abertos para o mesmo destino se eles inconsequentemente decidirem não cumprir  com as    exigências desta nova política americana - e receberão o mesmo nível de apoio (ou seja, nenhum) da irmã dos países árabes e da comunidade internacional, da mesma forma que os palestinos estão recebendo hoje.

Foi isto o que aqueles que  aplaudiram o Taleban e a al-Qaeda fizeram a nós e a eles próprios. Foi a isto que a fracassada política árabe nos levou.

Abdeljabbar Adwan é um analista palestino que escreveu este artigo para o The Daily Star

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