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ATUALIDADES

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A MORTE DE UM MINISTRO AFEGÃO REVELA UM GOVERNO FRACO E DIVIDIDO

Por Peter Symonds

19 /02/ 2002

O assassinato do Ministro de Turismo e Aviação do Afeganistão, Abdul Rahman, no aeroporto de Cabul na noite da última quinta-feira, evidencia o caráter instável e dividido da administração interina chefiada por Hamid Karzai.

Os primeiros relatos do incidente davam conta que Rahman tinha sido morto por um bando de peregrinos muçulmanos, revoltados com o atraso de seus vôos para Meca, pois queriam participar das cerimônias religiosas do hajj. No entanto, no dia seguinte, Karzai anunciou dramaticamente que Rahman tinha sido assassinado e que tinha ordenado a prisão de 7 importantes figuras, inclusive de três que tinham fugido para a Arábia Saudita.

Querendo arrefecer o temor de instabilidade, Karzai declarou que a conspiração tinha sido executada por "razões pessoais" e não com fins políticos. Mas ele não respondeu a qualquer das perguntas óbvias sobre o motivo ou meios do assassino. Por que os conspiradores escolheram matar Rahman diante de centenas de pessoas aglomeradas em volta de um aeroporto vigiado pelas forças de segurança internacional e afegã é uma pergunta que permanece sem resposta.

O Ministro da Informação, Syed Rahin Makhdum, um fiel partidário de Karzai, não ajudou a esclarecer o assunto. Ele disse que a vingança contra Rahman tinha incluído 20 membros do governo e retrocedia aos dias "da resistência" - isto é, à guerra de guerrilha dos anos 80 de grupos mujahedin apoiados pelos Estados Unidos, contra o regime de Cabul, apoiado pelos soviéticos. Mas ele não forneceu maiores informações

Pelo menos cinco oficiais foram presos no Afeganistão. A pedido de Karzai, as autoridades sauditas começaram a detendo os três que haviam fugido para Meca - General Abdullah Jan Tawhidi, chefe do Serviço de Inteligência, Qalander Beg, um antigo oficial da defesa, e Sananwal Halim, um antigo procurador do Ministério da Justiça. No último fim-de-semana Karzai, numa coletiva de imprensa, disse que os culpados seriam tratados "com bastante severidade", mas se eximiu de responder a qualquer questão sobre detalhes do incidente.

Muitos relatos da mídia questionaram a versão de Karzai para o acontecimento, citando testemunhas oculares que insistem em que os peregrinos muçulmanos atacaram Rahman assim que ele embarcou no vôo para Nova Deli. Cerca de 7.000 pessoas conseguiram o visto saudita para participarem do hajj e pagaram cerca de US$1.500, cada um - uma pequena fortuna para a realidade afegã. Apenas algumas centenas conseguiram viajar, o que acabou gerando raiva e frustração.

De acordo com um jornalista do Washington Posto, "numerosas testemunhas, inclusive os guardas de segurança e os peregrinos que ainda estavam no aeroporto nesta manhã (da última sexta-feira), descreveram que viram a multidão cercar o avião de Rahman às 6 hs da tarde, tirá-lo de dentro e começaram a bater nele. Rahman foi resgatado da turba e levado às pressas para o hospital militar de Cabul, mas os oficiais disseram que ele morreu em decorrência dos ferimentos na noite de quinta-feira."

Quaisquer que sejam as circunstâncias exatas, a acusação de Karzai e as prisões subsequentes colocam o assassinato dentro dos sombrios domínios das facções políticas do Afeganistão. Até para começar a investigar os possíveis cenários, deve-se ter em mente que a administração de Karzai é uma aliança fraca de quatro grupos que foram forçados, através de ameaças e subornos dos poderes maiores, a chegar a um acordo em Bonn, em dezembro do ano passado. Não só os dois principais grupos - Aliança do Norte e os monarquistas, que apóiam o rei afegão Zahir Shah, no exílio - têm pedras que precisam ser polidas entre eles mas cada uma dessas facções são fossas de ambições menores, rivalidades e ciúmes.

Inegavelmente que Rahman tinha sua parcela de inimigos. Ele era conhecido nos círculos da Aliança do Norte como um vira-casaca - embora isto não seja incomum entre a elite governante afegã. Como um membro do Jamiat-i-Isami, um dos principais componentes da Aliança do Norte, ele serviu como ministro na administração de Burhanuddin Rabbini, no período de 1992 a 1996. Ele fugiu para os Estados Unidos após o Taleban ocupar Cabul e surgiu como um defensor do rei.

Os acusados por Karzai, que são monarquistas, são todos antigos membros da Aliança do Norte, que detém os postos chave da defesa e do interior. Este fato poderia indicar que Karzai está pretendendo usar o assassinato contra seus inimigos políticos. Mas as rivalidades políticas em Cabul nunca são abertas e outras evidências apontam para diferentes direções, inclusive um possível racha nas fileiras da Aliança do Norte.

Imediatamente após o assassinato, Karzai convocou uma reunião de emergência do gabinete e recebeu total apoio de todos os ministros. Os líderes da Aliança do Norte estava em peso nos funerais de Rahman. Por todo o fim de semana, Karzai percebeu, satisfeito, que os nomes dos conspiradores tinham sido levados a ele por líderes da Aliança do Norte - ministro da Defesa, Mohammad Fahim, e do Interior, Yunus Qanuni. Para Karzai, a conduta deles "foi verdadeiro ato de patriotismo".

Fatos adicionais podem ou não surgir sobre quem esteve realmente envolvido com a morte e por que motivos. Mas, a interpretação menos provável é a oficial: elementos canalhas da Aliança do Norte mataram um odiado ministro rival mas não por motivos políticos e seus "aliados" de facção "patrioticamente" entregaram os nomes aos seus inimigos. Todo o caso tem um cheiro de intriga política, seguida de uma decisão de gabinete para enterrar o caso e apresentar uma face unida, nem que seja temporariamente.

Facções em guerra

Karzai se serviu do incidente para advertir que ele pode ser forçado a pedir aos grandes poderes uma força de segurança internacional maior. O Acordo de Bonn só fornece uma força de "paz" de 5.000 soldados confinados em Cabul e com funções limitadas. Só 3.200 soldados chegaram ao Afeganistão e a importância da manutenção da ordem nas condições anárquicas predominantes pode ser resumida no fato de que a morte de Rahman aconteceu a cerca de 400 metros de um grupo de soldados ingleses e franceses estacionados no aeroporto de Cabul.

A ofensiva de Karzai por uma força internacional mais forte não é só uma questão de lei e ordem em Cabul. Ainda que ele tenha sido levado à chefia da administração do país em razão de seus antigos laços com Washington, Karzai não tem uma base de poder - além de seu papel como um líder tradicional de uma das tribos pashtuns no sudeste do Afeganistão. Ele não possui uma milícia própria e por isso fica à mercê dos coronéis da guerra e dos comandantes de milícias que dividiram o país de acordo com seus domínios particulares.

A influência de Karzai ou de sua administração fora de Cabul, onde as forças internacionais estão baseadas, vai depender de seu desempenho como negociador dos fundos e da ajuda internacionais, ou do controle exercido sob as várias facções. A Aliança do Norte, que compreende as etnias tadjique, usbeque e hazara do norte do país e tem as maiores milícias, se opôs a um papel mais importante da força de segurança internacional. Ao controlar o sistema de defesa do país, o grupo garante que seus interesses sejam assegurados na formação de qualquer força armada nacional.

Fora de Cabul, a violência destruidora está disseminada porque líderes tribais e de facções, comandantes de milícias e outros déspotas locais lutam para garantir o controle. Cada grupo tem a atenção voltada para Cabul como forma de legitimar sua autoridade local e para obter uma parte das armas, do dinheiro e da ajuda que vêm de fontes internacionais. Em alguns casos, principalmente nas regiões dominadas pelos pashtuns, no sul e leste, as forças de segurança americanas puseram mais lenha na fogueira ao destinar dinheiro e armas para um líder de milícia local em detrimento de outros, em troca por serviços prestados na luta contra os remanescentes do regime Taleban.

Um recente artigo no Washington Post delineou a situação na cidade de Jalalabad, próximo à fronteira com o Paquistão. Três figuras locais - Hazrat Ali, o comandante de segurança regional, Mohammad Zaman Ghun Sharif, o chefe militar, e o governador regional, Abdul Qadir - estão brigando para dominar a cidade e a região. Como o artigo assinala, Ali está dominando os rivais - no momento - por causa dos laços que ele criou com o exército americano durante as operações nas vizinhanças da região de Tora Bora. "Apoiado pelo poder militar e os dólares americanos, Ali representa uma nova força potente em lugar do Taleban, desafiando um fraco governo central que não tem outra escolha a não ser negociar com ele".

Enquanto a rivalidade feroz em Jalalabad ainda não se transforma em conflito aberto, situações semelhantes estão acontecendo no resto do país - nas cidades, aldeias e interior - e, em alguns casos, a luta já começou. Só para citar dois exemplos recentes:

* no último fim-de-semana, quatro soldados afegãos e um agente humanitário foram mortos e cerca de 30 pessoas ficaram feridas em choques entre milícias rivais em Khulm, a 50km de Mazar-e-Sharif. Um dos grupos pertence à fação tajique do Jamiat-i-Islami da Aliança do Norte, ligada ao ministro da Defesa, Mohammad Fahim. O outro é composto principalmente de soldados usbeques, leais ao Junbish-i-Millie, uma outra fação da Aliança do Norte, leal ao general Abdul Rashid Dostum. Cerca de 40 pessoas morreram em choques entre as duas facções nas últimas semanas.

* um outro choque aconteceu no fim-de-semana, na província de Paktia, a sudeste de Cabul. Membros da tribo semi-nômade Kochi atiraram em soldados ligados ao governador de Paktia e ao coronel de guerra Bacha Khan, aparentemente em uma disputa de terra.   O irmão do governador, Kamil Khan, acusou os kochis de darem abrigo aos soldados da Al-Qaeda e disse á imprensa que ele tinha chamado o exército americano para atacar os kochis.

No início do mês, eclodiu um choque na cidade de Gardez, também em Paktia, depois que Karzai indicou Bacha Khan como governador provincial. As milícias leais ao líder tribal rival, Saifullah, expulsaram os soldados de Kham, que foram forçados a abandonar peças de artilharia, carros e cerca de 400 prisioneiros. Acredita-se que mais de 60 pessoas tenham morrido nos choques antes que Karzai interviesse na disputa.

É possível que Abdul Rahman tenham morrido nas mãos de uma turba raivosa. Mas as acusações levantadas por Karzai a altos oficiais mostra que   tensões extremas estão arruinando sua administração em Cabul e em todo o país. Longe de abrir uma nova era de paz no Afeganistão, a intervenção liderada pelos Estados Unidos resultou em um ninho de vespas de rivalidades locais e conflitos étnicos que só tendem a se exacerbar com a continuada presença de soldados americanos e estrangeiros.

http://www.wsws.org/articles/2002/feb2002/afgh-f19.shtml

 

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