or_bar.gif (1182 bytes)

ATUALIDADES

or_bar.gif (1182 bytes)

 

A MÍDIA E O SR. BUSH

Por Barry Grey

Em seus esforços para mostrar George W. Bush de um modo mais lisonjeiro, a imprensa liberal dos Estados Unidos deixou de lado qualquer vestígio de decoro e integridade jornalística que sempre teve. Durante o mês que passou, testemunhos da fantástica metamorfose de Bush, da mediocridade para a grandeza, tornaram-se quase que lugar comum nas páginas de jornais como o New York Times e o Washington Post.

Esta prática de fraude e auto-engano assumiram proporções grotescas na semana passada quando Bush deu uma entrevista coletiva levada ao ar nacionalmente. O desempenho serpeante de Bush mostrou o que ele é: um homem rigorosamente limitado, mal equipado intelectual e politicamente para assumir as complexidades da situação exposta após os ataques a New York e Washington.

No dia seguinte, o New York Times publicou um editorial entusiástico sob o título "Mr. Bush’s New Gravitas." Maravilhado com a suposta transformação do homem "que foi recém eleito presidente ano passado", o Times declarou: "Ele parecia confiante, determinado, certo de seus objetivos e em pleno comando dos novos desafios políticos e militares que ele enfrenta na esteira dos terríveis ataques terroristas de 11 de setembro. Foi um desempenho tranquilizador que deve confortar a nação inquieta."

Este início deu o tom do resto do comentário, que concluiu com a seguinte observação: "Em tudo, foi uma presença de comando que deve dar aos cidadãos um sentimento de que seu presidente fez muito para dominar as complexidades desta nova crise global ... (Bush) parecia ser um presidente a quem a nação deve seguir nestes tempos difíceis."

Esta foi uma avaliação espantosa. O George W. Bush descrito não tinha qualquer semelhança com o homem que deu uma entrevista na Casa Branca no dia 11 de outubro. Aquele homem tentou juntar pedaços de idéias que ele obviamente não compreendia, resultando uma mistura de banalidades, evasivas e conceitos desconexos. Será que os editores do Times estavam assistindo à mesma entrevista coletiva?

Os integrantes da assessoria de imprensa da Casa Branca fizeram o possível para dar ao presidente uma aparente liberdade, limitando qualquer pergunta que desafiasse as alegações desonestas que estão sendo usadas para justificar a guerra no Afeganistão e o assalto às liberdades civis dentro dos Estados Unidos.

Ninguém pediu a Bush que explicasse como um grupo de terroristas poderia implementar um plano para assassinar milhares, destruir o WTC e bombardear o Pentágono sem ser detectado ou impedido. Nenhum repórter percebeu o fracasso da Casa Branca até àquele dia em fornecer uma prova concreta da culpa de Osama bin Laden. Em sua covardia coletiva, a assessoria de imprensa se recusou até a questionar os esforços de Bush para amordaçar a imprensa.

Não houve a menor alusão aos objetivos econômicos e estratégicos envolvendo a guerra na rica região petrolífera da Ásia Central. A palavra de quatro letras, começando com "o" e terminando em "o" não foi proferida.

Não obstante isso, Bush mostrou-se  incapaz de parecer coerente no curso das ações de governo. Longe de parecer "confiante, determinado e certo de seus objetivos", Bush estava hesitante, desconexo e vago. Quanto ao seu "comando   dos complexos desafios políticos e militares", o presidente sequer conseguiu repetir com alguma consistência os mantras que foram formulados por seus conselheiros.

O que ele definiu inicialmente como "a primeira e esperamos a única (guerra) do século XXI", transformou-se depois em "a primeira batalha na guerra do século XXI" e, alguns minutos mais tarde, "as novas guerras do século XXI".

Quanto á natureza da guerra, sua duração e objetivos, Bush esclareceu muito pouco além da afirmação de que seria "um tipo de guerra diferente", uma frase que ele repetiu diversas vezes. Repetidas vezes Bush agarrou-se a tais clichês. Houve muita conversa sobre " expulsá-lo de sua caverna" e referências a bin Laden como "o malfeitor".

As observações de Bush continham contradições manifestas. Um repórter, notando que os serviços americanos não podem dizer com certeza se bin Laden ainda estava no Afeganistão, perguntou se a guerra contra o terrorismo poderia ser vencida se o alvo principal não fosse encontrado. Bush respondeu que "o sucesso ou fracasso não depende de bin Laden." Ele continuou, "o sucesso ou o fracasso depende de erradicar o terrorismo onde quer que ele exista em todo o mundo. Ele é apenas uma pessoa, uma parte da rede."

Não foi explicado como o terrorismo pode ser "erradicado" do mundo todo sem capturar ou eliminar um homem sobre quem os Estados Unidos dizem ser o maior terrorista do mundo. Tendo subestimado a importância de bin Laden por um lado, de outro Bush creditou a ele grandes poderes, declarando que o exilado saudita tinha "seqüestrado um país" e "forçado um país a aceitar seus pensamentos radicais."

Um outro repórter apontou para a advertência do FBI sobre a possibilidade de novos ataques e fez uma pergunta absolutamente legítima: "Considerando a total generalidade da advertência, o que  acontecerá realmente, além de assustar as pessoas que não conseguem fazer o que lhes foi pedido - retornar à normalidade de suas vidas...?" Bush não conseguiu desvendar este enigma.

Foi "uma ameaça geral à América", disse ele, acrescentando, "fosse uma ameaça específica, teríamos falado com aqueles a quem a ameaça foi dirigida". Ele prosseguiu dizendo que o povo americano "deve se sentir tranqüilo" com as advertências oficiais de ataques iminentes, porque elas mostraram que o governo estava "em alerta total". Então ele mencionou "notícias positivas" de um aumento nas atividades comerciais dos aviões e nas taxas de ocupação dos hotéis. "Estamos voltando ao normal", declarou Bush.

Esta foi uma típica falácia de Bush. Ele queria contrariar as suspeitas de que o alerta do FBI tivesse sido um estratagema para criar o pânico e evitar a debandada do público diante de sua política de guerra e das   violações dos direitos democráticos. Assim ele insistiu em que a ameaça de um ataque iminente era verdadeiro. Mas, a partir dessa grave premissa, ele, de alguma forma, concluiu que a resposta adequada do povo americano era "voltar ao normal".

As pessoas devem estar vigilantes, disse ele. Mas quando   perguntado, duas vezes, exatamente o que esta vigilância exigia e como as pessoas comuns podiam se proteger, Bush não soube o que dizer. "O povo americano, obviamente, se vir alguma coisa suspeita, alguma coisa fora do normal, que pareça suspeito, deve notificar as autoridades locais", disse ele.

Em resposta à última pergunta da entrevista coletiva - "O que se espera que os americanos devam procurar e relatar à polícia ou ao FBI?", Bush não se saiu melhor: "Se vocês virem pessoas suspeitas rondando usinas petroquímicas, relatem isto ao agente da lei."

Eis aqui como o Times descreveu a tentativa do presidente de lidar com estas questões: "O sr. Bush foi especialmente eficaz na conversa com o povo americano sobre seus receios. Ele falou francamente sobre novos avisos de que outros ataques terroristas podem vir a qualquer tempo, mas descreveu as muitas precauções que o governo está tomando na defesa da pátria. Ele foi firme em sua determinação de proteger a nação e paternal em seu conselho tranqüilo para que a vida do país continue o máximo que as pessoas puderem."

Nesta mistura de puxa-saquismo e engano, uma alegação sobressai porque leva à suspeita de se os autores sequer assistiram à coletiva. É factualmente inverídico que Bush "tivesse descrito as muitas precauções que o governo está adotando para defender a pátria". Ele não fez isso.

O Times continuou: "Usando um misto de conversa direta, de estadista e com leves toques de humor aqui e ali, o sr. Bush usou a coletiva para esclarecer e aparar suas posições em muitas questões centrais na guerra contra o terrorismo." O "esclarecimento" e "as aparas" que o jornal apregoou consistiu na recusa de colocar um tempo limite para a guerra e nas alusões de estabelecer um regime cliente no Afeganistão, com a ONU sendo convocada para fornecer um aspecto de legalidade. O Times também louvou Bush por ameaçar o Iraque sem comprometer os Estados Unidos em um iminente ataque a Bagdá - "um passo que a nação não está ainda (grifo nosso) preparada para dar", nas palavras do editorial.

O Times ficou particularmente satisfeito com a fala de Bush sobre ajuda humanitária ao "exaurido povo do Afeganistão". A mais repugnante demonstração de hipocrisia - seu apelo para que as crianças americanas enviem doações para as crianças do Afeganistão - foi descrita como um "zelo" de Bush..

Neste sentido, o Times passou em silêncio por cima de uma confissão detestável. Bush fez uma referência de leve ao "compromisso anterior na região afegã" de Washington e disse que sua administração tinha aprendido com aquela experiência "mas não devemos simplesmente partir depois que um objetivo militar tenha sido alcançado."

Bush estava se referindo ao apoio americano aos mujahidin islâmicos durante a invasão soviética nos anos 80. Como é bastante conhecido, as guerrilhas armadas e financiadas pela CIA naquele período, incluíam Osama bin Laden e os precursores do Taleban. Nenhum governo desempenhou um papel mais importante do que o dos Estados Unidos em promover o crescimento dessas forças reacionárias no Afeganistão e assim que o exército soviético se retirou, Washington também se retirou deixando a população à mercê de coronéis da guerra rivais e de milícias fundamentalistas islâmicas. O resultado foram anos de uma guerra civil que praticamente destruiu o país.

Assim, enquanto Bush concluía suas observações com uma ponta de compaixão, descrevendo as condições terríveis que as crianças afegãs enfrentam, ele, inadvertidamente, já tinha assinalado a responsabilidade dos Estados Unidos naquela situação.

Houve outras declarações fantásticas que o Times preferiu passar por cima, tais como a afirmação de Bush de que o maior erro no Vietnã foi o de permitir que funcionários escolhidos controlassem as ações do exército, ou o seu tolo pronunciamento de que a lição tirada dos acontecimentos de 11 de setembro foi a de que "existe o mal no mundo" e sua confissão de "surpresa" diante do ódio contra os Estados Unidos disseminado nos mundos árabe e islâmico.

O que justifica esta demonstração simultânea de ignorância e desonestidade? Bush é um homem que não leu um livro sério nos últimos 20 anos, ou até mesmo em toda sua vida. Ele conhece quase nada sobre história e menos ainda sobre a Ásia Central. Ele faz uma guerra numa parte do mundo sobre o qual ele não tem qualquer informação. É provável que antes de 11 de setembro ele sequer conseguisse dar os nomes dos países que fazem fronteira com o Afeganistão.

Falta-lhe comando dos fatos, sem falar na capacidade para formar generalizações amplas que estão enraizadas nos fatos e na história, sem o que qualquer política mais séria é impossível. Ele é inteiramente despreparado para o exercício de seu cargo. Toda a classe política dominante e os círculos da mídia sabem muito bem disso.

Os editores do Times sabem que a entrevista coletiva de Bush não guarda qualquer semelhança com o perfil bajulador adotado por eles. Por que, então, eles publicam uma matéria tão descarada?

A mídia está determinada a mostrar que não haverá a repetição de um "fosso de credibilidade" da era Vietnã, porque não haverá qualquer questionamento de sua parte para as alegações do governo. Esta transformação aberta da imprensa em uma agência de propaganda do estado é um sintoma da degeneração das instituições democráticas na América.

Artigos e comentários como os do New York Times, e eles são uma legião, refletem o desprezo da elite governante americana para com o público. A mídia está comprometida não só em influenciar a opinião pública. A política americana alcançou o estágio onde a opinião pública em si é inteiramente sintética.

Mentiras e meias verdades tornaram-se os ingredientes de um sistema aperfeiçoado de manipulação que só remotamente está ligado aos fatos e não tem qualquer referência nas preocupações e humores da população. A opinião pública nada mais é do que a forma pela qual a oligarquia e seus agentes governamentais embrulham suas próprias perspectivas.

Toda operação da mídia transformou-se em um exercício de decepção em massa mas também de auto-ilusão. É um círculo fechado que reflete a extrema alienação do sistema político da população em geral.

Apesar de as pesquisas mostrarem um apoio maciço à guerra, o sentimento mais profundo do povo americano é de intranqüilidade e medo de que o conflito entre numa espiral sem controle. É inevitável que os níveis contundentes da desigualdade social e da alienação política que caracterizam a sociedade americana encontrarão expressão em grandes transformações para as quais a elite governante isolada e sua mídia estão mal preparadas.

http://www.wsws.org/

back1.gif (279 bytes)



1