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ATUALIDADES

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O PROJETO AMERICANO PARA O MUNDO MUÇULMANO

Por Dr Muzaffar Iqbal (*)

"Os fuzileiros navais desembarcaram e agora temos um pedaço do Afeganistão", disse o general James Mattis, em 26 de novembro último. Os fuzileiros do USS Peleliu foram bem treinados para a tarefa. Antes da viagem símbolo à terra perdida de Candahar, eles foram doutrinados através de uma estratégia psicológica meticulosamente planejada que transformaria qualquer ser humano em um animal feroz. Um repórter da Associated Press no USS Peleliu contou que foi pedido a eles que reproduzissem em seus veículos e armas o perfil do World Trade Centre e os números 11/9,   representando os eventos de 11 de setembro. E havia palestras diárias contra seus inimigos e antes da partida houve uma oração, uma simulação de tiros e uma conversa apimentada de seu comandante, o tenente-coronel Christopher Bourne. Ele lhes disse que "há onze semanas atrás nosso país foi atacado de novo. Eles começaram esta luta e nós vamos terminá-la."

Bourne estava apenas repetindo o que o presidente Bush disse em setembro. "Foi uma guerra declarada. Nós encontraremos quem fez isto e acabaremos com eles onde estejam. Nós os pegaremos e faremos justiça". E quando perguntaram a Donald Rumsfeld se ele queria Osama bin Laden vivo ou morto, ele respondeu como um faraó, "Ó Deus misericordioso, eu o prefiro morto."

Mas a guerra americana no Afeganistão não pode ser explicada apenas com estas pálidas descrições de revanche. Não bastam nem para evocar as cenas do massacre brutal em Qala Jhangi ou a eliminação de aldeias inteiras pelos bombardeios americanos B-52. Qualquer julgamento minimamente justo deveria admitir que os acontecimentos de 11 de setembro são pequenos diante do que aconteceu no Afeganistão. Mas estes horríveis atos de terrorismo não podem ser vistos isoladamente. A primeira guerra do século XXI é só o primeiro passo dos Estados Unidos para desenhar o mundo muçulmano. Os estragos ainda são visíveis mas os próximos alvos já estão sendo apresentados. Richard Perle, o mais ardoroso defensor fora do governo de uma ação contra o Iraque, acredita que o sucesso no Afeganistão significa que os Estados Unidos podem ir "de uma libertação a outra".

Na verdade, esta será uma guerra longa. Os americanos aprenderam uma maravilhosa nova técnica no Afeganistão: procure uma "aliança do norte", dê-lhes dinheiro, armas, informações e o que mais eles pedirem e comece a arrasar toda a região com 2.000 bombas, até que os soldados substitutos estejam prontos para fazer o serviço sujo. Neste meio tempo, prepare os fuzileiros, proporcione-lhes uma psicanálise, em seguida solte-os quando estiverem prontos. Isto fará com que nenhum saco viscoso volte para casa. Haverá um ligeiro clamor, principalmente de Noam Chomsky da geração anterior, mas sem grandes significados. A CNN e a imprensa de um modo geral manipularão a opinião pública para abafar o barulho das vozes dissidentes.

Mas este é apenas um aspecto da nova guerra. O outro envolve a "reconstrução". Enquanto o primeiro passo é projetado para empurrar certos países de volta à Idade da Pedra, o segundo representa um rápido passo adiante que os trará de volta ao verdadeiro centro do século XXI, equipado com telefones via satélite. Isto será feito de uma forma tão fantástica que todos os terríveis atos praticados serão apagados da história. Ninguém será capaz de lembrar dos dias em que os bombardeios B-52 fizeram cair fogo, morte e destruição dos céus, riscando do mapa aldeias inteiras. Uma nova história será rapidamente contada nas escolas e nas casas assim como nas terras recém reconstruídas, pertencentes aos senhores tribais.

Esta nova história relembrará a guerra e todos os atos de brutalidade e terror serão contados de forma tão confusos que ninguém será capaz de distinguir os fatos da ficção a não ser nos casos que tiverem sido cuidadosamente preservados: as torres gêmeas transformadas nas verdadeiras armas que logo serão usadas para substituir os antigos bazares de Candahar. Por exemplo, foi assegurado que ninguém jamais deva descobrir como prisioneiros algemados tenham sido capazes de iniciar uma "revolta" que terminou em massacre, que lembra os mais selvagens atos de barbarismo já registrados na história da humanidade. No momento, permanecem algumas imperfeições neste mecanismo de controle total e é por isso que alguns repórteres britânicos conseguiram uma imagem permanente da carnificina de Qala Jhangi, que ficará em nossa memória, cujo final se passa assim: um tanque passa por cima de centenas de cadáveres de "talebans estrangeiros", dá três rajadas de balas e em seguida um silêncio total. Mas essas imagens são cada vez mais raras e logo os Robert Fisks deste mundo serão espécimes extintos.

O que permanecerá será um coro universal repetindo ad infinitum: "Este conflito é uma luta para salvar o mundo civilizado" (Bush) ou um ataque que "os alijou da família das nações civilizadas" (Iain Duncan Smith). Este coro tenta nos fazer esquecer de que sua compreensão de civilização inclui um tapete de bombas, destruição de aldeias inteiras, uso de armas de destruição em massa, etc. Mas isto é apenas um detalhe. O grande plano americano para o mundo muçulmano olha para estes atos terríveis como um prelúdio. O  ato principal tem um roteiro completamente diferente. Ele tenta estabelecer um Islam made in America nas tradicionais terras islâmicas. O discurso oficial de que não se trata de uma guerra contra o Islam, repetido à exaustão, é realmente verdadeiro. Pelo Islam, eles falam de um Islam made in America que foi produzido em muitas versões para se adequar às necessidades das várias regiões. Mas todas as versões têm uma coisa em comum: foram idealizadas para produzir uma organização política onde a religião ficará restritra à esfera pessoal. O Islam será totalmente despolitizado, suas fontes originais serão privadas de vitalidade e será produzida uma nova geração de "muçulmanos" ansioso por se juntarem às fileiras de cristãos e judeus secularizados do mundo "civilizado".

Não há espaço para palavras como jihad, martírio e Ummah neste Islam made in América. Cada membro da comunidade será uma agente livre, independente do resto dos fiéis, cuidando de sua própria vida e elaborando suas próprias normas. Da mesma forma, os aspectos sociais da mensagem do Alcorão não encontrarão espaço nesta nova versão do Islam. Ela rejeita o chamado alcorânico para uma existência de grupo de fiéis em cada comunidade, orientando para a senda reta (amr bil maaruf) e afastando das ações receosas (nahi an'il munkar). Este Islam made in America considera esses mandamentos anacrônicos. Este Islam não abre espaço para a noção alcorânica de que todos os fiéis constituem uma fraternidade e para a declaração profética que compara os muçulmanos a um único corpo a ponto de que se uma parte ficar doente todo o resto adoece.

Mas, por quê? Alguém pode perguntar. Por que os Estados Unidos querem elaborar uma nova versão do Islam? A resposta não é petróleo, que há décadas não era vendido a preços tão baixos. O que está por trás dessa nova guerra é uma obsessão americana de "possuir" o resto do mundo e de "civilizá-lo". Trata-se de uma obsessão que em nada difere daquela do século XIX, que produziu colônias britânicas e francesas no que era principalmente território de população muçulmana. E isto não é uma coisa que tenha surgido após 11 de setembro. Os novos faraós deste mundo já vinham trabalhando neste projeto há décadas. Eles tentaram este tubo de ensaio em Beirute e funcionou. A  tentativa seguinte foi uma versão ligeiramente modificada nos estados do Golfo e que foi recebida entusiasticamente. Bahrain, Qatar, Dubai, Kuwait, todos avidamente optaram pelos bares, estâncias de prazeres, hotéis das cadeias cinco estrelas com cassinos, bebida e prostituição. Relatos confirmados da Arábia Saudita nos dão conta da presença de não muçulmanos no Haram da Mesquita, em completa violação aos mandamentos alcorânicos. Droga e bebida transformaram-se em problemas epidêmicos e existe um hospital em Jeddah voltado exclusivamente para o tratamento de viciados em drogas. Não são aberrações mas casos de uma cultura patrocinada pelo estado que não tem nada de islâmico.

Não se pode acusar os Estados Unidos, é claro, por elaborar esta nova versão do Islam. Os responsáveis são aqueles que a aceitam. A América só pode ser responsabilizada pela imposição brutal de seus dogmas a milhões de pessoas. De um lado a outro do mundo muçulmano, os Estados Unidos apóiam regimes fantoches que mutilam, matam e prendem seus cidadãos. Assim, eles foram capazes de criar milhões de muçulmanos privados e despossuídos que lutam para sobreviver. Este nível de subsistência não lhes permite a oportunidade de compreender as verdadeiras dimensões deste novo conflito, muito menos de fazer alguma coisa a respeito. Mas existe uma pequena minoria de muçulmanos que pode fazer alguma coisa a respeito deste assalto contra o Islam. O papel desta minoria será discutido em uma próxima coluna.

O escritor é jornalista freelance
Muzaffar_i@hotmail.com

http://www.jang.com.pk/thenews/dec2001-daily/11-12-2001/oped/o2.htm

 

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