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ATUALIDADES

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COMO SE SOLETRA APARTHEID? O-s-l-o

(*) By Edward W. Said

Durante muitas semanas, Yasser Arafat e membros da Autoridade Palestina vêm dizendo, alto e bom som, que no dia 4 de maio de 1999, ele declarará o estado palestino. Este anúncio surgiu primeiro como uma ameaça a Israel, e principalmente a Benjamin Netanyahu, que vem retardando o acordo sobre uma futura retirada das forças israelenses do território palestino. As reações de Israel ao anúncio têm sido sempre hostis e muito ameaçadoras. Faça isto, diz Netanyahu a Arafat, e nossa resposta será violenta. Palestinos e israelenses não têm sido muito claros, mas isso não os impede de continuar em suas afirmações, de um lado sobre a criação de um estado palestino, e de outro sobre a reação desagradável dos israelenses.

A imprensa árabe vem relatando que durante suas inúmeras visitas aos estados árabes e não árabes, Arafat tem sido visto buscando   o apoio externo para a criação de um estado palestino. A esta altura, a idéia de que o estado palestino será declarado no dia 4 de maio por Arafat, adquiriu um certo impulso, ou até mesmo vida própria.

Digo isto com um misto de ironia, porque, à primeira vista, a idéia de declarar o estado pela segunda vez (a primeira foi em 1988, em Algiers) deve chocar o espectador ignorante, por ser naturalmente cômica, uma vez que,   em ambos os exemplos, exceto por cerca de 60% de Gaza, há muito pouca terra para formar este estado. Existe algum controle palestino - sem soberania, a exigência maior para a existência de um estado - sobre apenas 3% da Margem Ocidental, e assim mesmo sem continuidade territorial entre os vários pontos de terra que representam o que hoje é chamado de Área A, os tais 3% sob controle total dos palestinos.

Uma provável reação de Israel pode ser a de dizer que a entidade palestina tem que estar em Gaza, que já está destacada da Margem Ocidental, e mais ou menos forçar Arafat a limitar-se a Gaza. E as aspirações palestinas??? Isto seria um duro golpe, não importa o quanto de apoio internacional o estado declarado possa vir a granjear no decorrer do tempo. Além disso, o novo estado não teria muito sentido do ponto de vista demográfico, dado que os palestinos de uma região ficariam completamente separados de seus compatriotas das outras regiões.

Os defensores da idéia de Arafat de declarar um estado, independentemente dos problemas concretos demográficos e territoriais, dizem que o projeto em si teria o efeito positivo de agitar a população palestina numa espécie de energia, como uma compensação  no caso de um fracasso sombrio dos acordos de Oslo, nos quais Arafat e seu cada vez mais crescente pequeno círculo de partidários, conselheiros e parasitas apostaram tanto.

Há um grande desestímulo e letargia na Palestina e também no mundo árabe. Muito tem sido escrito e proclamado a respeito da nova era de paz, os benefícios da paz, a economia da paz, etc., que com cinco anos de beligerância as pessoas estão compreensivelmente descontentes, saturadas com as mentiras, com a arrogância de Israel, saturadas, acima de tudo, com o seu próprio sentimento de impotência e fracasso.

Embora Arafat seja um mestre estrategista e artista da sobrevivência, penso eu que ele ainda acha que pode mudar as coisas juntamente com esta sua idéia, e, assim fazendo, evitar uma explosão contra seu governo vacilante ou desviar a atenção dele. Sempre existe o perigo de que seu plano possa não dar certo, mas, de novo, ele provavelmente acha que pode lidar com isso quando, e se, acontecer. Quanto às instituições, equipamentos, administração de um estado verdadeiro, nada disso está realmente em questão.

É verdade que a Autoridade Palestina exerce muitas funções como um governo de estado - correio, certidões de nascimento, segurança, assuntos municipais, educação e saúde, mas ainda é muito dependente de Israel para agir como um estado autêntico. Assim, por exemplo, a água ainda está sob controle israelense, assim como o uso da terra e as entradas e saídas dos territórios. Qualquer pressão que se faça sobre Israel pode paralisar o estado e torná-lo impotente. Certamente que nenhum governo palestino gostaria de se ver colocado em tão angustiante posição.

Penso que as desvantagens de se declarar um estado são muito maiores do que as vantagens. Mais importante, um estado declarado sobre territórios autônomos definitivamente dividiria para sempre, para mais ou para menos, a população palestina e sua causa. Os residentes de Jerusalém, agora anexada por Israel, podem não participar do estado. Um destino igualmente infeliz espera os cidadãos palestinos de Israel, que também seriam excluídos, como os palestinos da Diáspora, cujo direito teórico de retorno seria praticamente anulado. Longe de unir os palestinos, portanto, a declaração de um estado palestino, na verdade, dividi-los-ia mais do que nunca, transformando o conceito de povo palestino em algo mais ou menos vazio. A quem interessa tal resultado? Certamente que não aos palestinos.

Tenho uma forte suspeita de que Arafat está usando a declaração de um estado como forma de se garantir com o que parece um ganho, mesmo porque ele está prestes a aceitar a "oferta" traiçoeira de Israel de  9%,   mais 3% como reserva sob controle israelense. Arafat é prisioneiro tanto dos Estados Unidos como de Israel. Ele não tem para onde ir, nenhum corredor por onde possa escapar, não pode contar com alguma desculpa.Temo que, sob pressão, ele ceda e aceite o acordo israelense, usando a declaração de um estado como forma de compensar (assim como faz o louco) seu povo. Cuidado com ele.

Uma outra desvantagem que parece importante é que a idéia de Israel, de afastar os palestinos pela separação, será alcançada não por Israel, mas pelas lideranças palestinas. Este seria o triunfo final do desejo do desaparecimento do povo palestino, pela privação, e que foi tramado em um século de planejamento e beligerância sionistas. Os sionistas acham que a Terra de Israel foi reservada exclusivamente para os judeus. Por outro lado, devemos nos lembrar que todo o conceito de autodeterminação palestina, desde o surgimento da OLP, sempre implicou num conceito de igualdade e participação sem discriminações. Era o conceito de um estado democrático secular, o conceito de dois estados convivendo lado a lado em harmonia. Estes conceitos jamais foram aceitos pela maioria governante de Israel, e Oslo, na minha opinião, foi um caminho inteligente para o Partido Trabalhista criar uma série de "Bantustões", nos quais os palestinos seriam confinados e dominados por Israel, ao mesmo tempo em que sugeria que um quase-estado para os palestinos estava surgindo.

Para os israelenses, Rabin e Peres falaram abertamente em separação, não no sentido de conceder aos palestinos o direito à autodeterminação, e sim como um meio de marginalizá-los e diminuí-los, deixando a terra basicamente para os poderosos israelenses. Dentro desta ótica, a separação é sinônimo de apartheid e não de libertação. Declarar um estado palestino sob essas circunstâncias é, principalmente, aceitar a idéia de separação como apartheid, não de igualdade, e certamente não de autodeterminação. "Auto-governo" foi o eufemismo usado por Netanyahu para definir esta situação. Além do mais, aqueles que argumentam que, para os palestinos, tal estado declarado seria o primeira passo em direção ao estado verdadeiro, dotado de uma verdadeira autodeterminação, na verdade estão se iludindo, raciocinando de uma forma ilógica.

Se declarar que o primeiro passo para a realização de uma verdadeira nação é adotar o resumo teórico de nação verdadeira, então podemos almejar tirar luz do sol de um pepino, pela simples suposição de que o sol entrou no pepino em primeiro lugar.Este é um exemplo de um tipo de raciocínio que não é sério, e sim de um pensamento mágico, coisa de que não necessitamos agora.

Não, este tumulto todo em torno de 4 de maio de 1999, é parte do método de Arafat de desviar nossa atenção das verdadeiras dificuldades que enfrentamos como povo. Ele costumava fazer a mesma coisa antes de cada encontro do Conselho Nacional, lançando rumores sobre uma data próxima, em seguida adiando, depois anunciando uma nova data, três ou quatro vezes, até que o povo comemorasse o encontro verdadeiro com grande alegria e satisfação.

Desta vez, no entanto, os inconvenientes de seu plano também encobrem o imperativo real, que é, antes de mais nada, unir os palestinos, e, acima de tudo, dar-lhes visão, programa e liderança novos. Se há uma coisa que os últimos anos provaram é a falência dessa visão proclamada por Oslo, e da liderança que engendrou toda essa coisa infeliz. Deixou um grande número de palestinos sem representação, empobrecidos e esquecidos;permitiu que Israel expropriasse mais território e consolidasse sua influência em Jerusalém, nas Colinas do Golan e nas colônias da Margem Ocidental e a Faixa de Gaza; legitimou a noção do que pode ser chamado de insignificante nacionalismo palestino, que, na verdade, era menor do que uns poucos slogans emitidos, e a sobrevivência da antiga liderança da OLP.

O que se precisa agora é, em primeiro lugar, um acontecimento político simbólico fora da jurisdição israelense e da Autoridade Palestina, que junte todos os segmentos importantes da população palestina, um encontro ou uma conferência verdadeiramente nacional. Desse encontro, sairiam novos esboços de resistência e libertação, coordenando não apenas os esforços do povo nos territórios ocupados, mas também dos palestinos de Israel e de toda a Diáspora. São os membros deste grupo maior (na verdade, a maioria de palestinos) que Arafat não pode ou não está querendo tentar se dirigir, uma vez que eles foram deixados de fora nas negociações feitas com Israel e Estados Unidos, e de quem ele agora é refém. A única visão política que merece ser adotada é uma visão bi-nacional secular, que transcende às limitações absurdas de um pequeno estado palestino, declarado pela segunda ou terceira vez, sem muita terra ou credibilidade, assim como as limitações que têm sido tão importantes para a forma de apartheid do sionismo imposto a nós em todo o lugar. Não sou o único a ver nossa condição como basicamente a dos seres humanos privados do completo direito de cidadania. É isto que nos uniu a todos como povo, seja no Líbano, Jerusalém, Nazaré, Aman, Damasco ou Chicago. A atual liderança palestina não compreendeu nosso dilema nem, bastante óbvio, nos forneceu uma resposta.

Por isso é que não devemos ficar muito excitados com o entusiasmo juvenil de Arafat com as perspectivas do que pode ou não acontecer no dia 4 de maio de 1999. A verdadeira tarefa, penso, é planejar uma alternativa concreta ao absurdo atual que está sendo colocado, de que, declarando um estado - de alguma forma - nós realmente conseguiremos um - de alguma maneira. Tipicamente, este slogan bobo esconde as reais dificuldades no estabelecimento de um estado, dificuldades que somente serão vencidas através de um trabalho real, pensamento real, unidade real e, acima de tudo, representação real de todos do povo palestino. Sem slogans unilaterais, vazios e repetitivos.

É um insulto à integridade de nosso povo continuar construindo tais "realidades" fantasiosas e tentar impingi-las como sendo de grande substância política. Arafat e seus conselheiros deveriam envergonhar-se desses estratagemas banais. Eles deveriam ficar de lado para que um processo político mais sério e verossímil possa substituir essa trapalhada desastrosa de uma vez por todas.


(*) Edward Said é um filósofo e escritor palestino, residente nos Estados Unidos, professor de literatura da Universidade de Colúmbia, e uma das vozes que mais questionam o processo de paz no Oriente Médio. Não poupa críticas a Yasser Arafat, presidente da Autoridade Palestina, que descreve como um fantoche, e ao premiê israelense, Ehud Barak, a quem define como um político medíocre. Segundo ele, o acordo que está em vias de ser firmado só beneficia Israel, uma vez que não prevê o direito de retorno aos palestinos, a devolução total dos territórios ocupados e o Estado palestino não terá Jerusalém como sua capital.

Este artigo foi publicado pela primeira vez  no jornal Al-Ahram, do Cairo, em 11/10/98.

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