ATUALIDADES

 

O TALEBAN, OS ESTADOS UNIDOS E OS RECURSOS NATURAIS DA ÁSIA CENTRAL

Por Peter Symonds (*)
24/10/2001

O alvo da última agressão militar americana ao Afeganistão é o Taleban. No entanto, na extensa cobertura da mídia sobre a "guerra contra o terrorismo", procuramos inutilmente por uma explicação coerente sobre as origens desta organização islâmica extremista, sua base ideológica e social e sua chegada ao poder. A omissão não é por acaso. Qualquer exame mais sério do Taleban revela a responsabilidade de Washington ao estimular o atual regime teocrático de Cabul.

A administração Bush denuncia o Taleban por abrigar o extremista islâmico, Osama bin Laden, e sua organização, al Qaeda. Mas, nos anos 80, as sucessivas administrações americanas gastaram bilhões de dólares no financiamento da guerra santa islâmica, ou jihad, pelos guerrilheiros mujahidin contra o regime de Cabul, apoiado por Moscou, a fim de minar a ex-União Soviética. Além do mais, até o final dos anos 90, os Estados Unidos fizeram vista grossa ao fundamentalismo islâmico e às políticas sociais retrógradas do Taleban, que eram apoiadas e financiadas pelos dois aliados mais próximos de Washington na região - Arábia Saudita e Paquistão.

O fator primordial que determinou a reviravolta na orientação de Washington para o Afeganistão não foi a ameaça do extremismo islâmico e sim como melhor explorar as novas oportunidades que se abriam na Ásia Central após o colapso da União Soviética em 1991. Na última década, os Estados Unidos vinham rivalizando com a Rússia, China, Europa e Japão na busca de influência política nessa região estratégica e pelo direito de explorar as maiores reservas de petróleo e gás nas recém formadas repúblicas da Ásia Central - Turquemenistão, Cazaquistão, Usbequistão, Tadjiquistão e Quirguistão.

A chave para os imensos lucros em potencial na Ásia Central era a distribuição - como levar o petróleo e o gás desta região isolada, atrasada e fechada para os principais mercados do mundo. Os únicos oleodutos existentes eram os da antiga rede soviética de distribuição que passavam pela Rússia. Com a intensificação da luta pela posse dos recursos da região, os objetivos dos Estados Unidos eram claros. Minar o monopólio econômico da Rússia enquanto, ao mesmo tempo, garantia que outros rivais estivessem fora da competição. Dessa forma, os oleodutos correriam pelos países onde os Estados Unidos pudessem exercer influência política substancial, o que excluía China e Irã.

As repúblicas da Ásia Central tinham sido parte da ex-União Soviética e tinham longas fronteiras com a China e o Irã. Assim, um oleoduto que excluísse Rússia, China e Irã só deixava duas alternativas. Uma era um caminho que circundasse o mar Cáspio, pelo Cáucaso, via Azerbaijão e Geórgia, para chegar á Turquia. A segunda, através do Afeganistão e Paquistão, era mais curta, mas logo surgiram alguns complicadores. Com quem negociar no Afeganistão e como assegurar a estabilidade política necessária para construir e manter oleodutos.

Após a queda do regime apoiado pelos soviéticos de Mohammad Najibullah, em 1992, Cabul transformou-se num campo de batalha entre milícias mujahidin rivais. O chefe do governo nominal era o professor Burhanuddin Rabbani, que presidia uma coalizão altamente instável e ardilosa, sustentada principalmente pelas etnias tadjiques e usbeques do norte do Afeganistão. A milícia rival, o Hizb-e-Islami, de maioria pashtun do sul do Afeganistão, também estava entrincheirada nos arredores de Cabul. Liderados por Gulbuddin Hikmetyar, iam ocupando posições do governo na capital.

Do outro lado do conflito, que estava reduzindo a capital a ruínas e produzindo ondas e mais ondas de refugiados, estavam outros grupos de milícias, refletindo a variedade étnica e as divisões religiosas do país. As rivalidades refletiam não só as animosidades locais como também os interesses dos vários estados patrocinadores, cada um buscando estabelecer sua própria predominância. O Paquistão apoiava Hikmetyar, o Irã apoiava os hazaras xiitas e a Arábia Saudita financiava vários grupos, principalmente os simpatizantes de sua facção islâmica, o wahabbismo. As repúblicas da Ásia Central tinham conexões com os grupos étnicos do norte do Afeganistão e, nos bastidores, Índia, Rússia e Estados Unidos, todos tinha uma participação nas questões políticas afegãs.

A situação em Cabul era um microcosmo do país como um todo. O governo de Rabbani não tinha uma autoridade real além das áreas sob seu controle militar imediato. O país estava dividido entre milícias rivais, a economia em ruínas e o tecido social completamente esgarçado. Mais de um milhão de pessoas morreram na guerra contra o regime apoiado pelos soviéticos nos anos 80 e outros tantos eram refugiados. Em meados dos anos 90, a expectativa de vida era de apenas 43-44 anos e um quarto de todas as crianças morriam antes de atingirem os 5 anos. Somente 29% da população tinha acesso a cuidados médicos e 12% a água potável.

As áreas pashtuns no sul, de onde os Taleban surgiram em 1994, eram as mais caóticas. Candahar, a segunda maior cidade do país, estava dividida entre guerreiros rivais e os arredores eram submetidos às brutais arbitrariedades dos vários comandantes de milícias. A região, que foi uma das mais conservadoras social e economicamente, tradicionalmente tinha dado os governantes reais do país. O ressentimento local em relação à nova liderança tadjique e usbeque de Cabul estava entrelaçado com o desespero produzido pelas intoleráveis condições sociais e econômicas.

O sul do Afeganistão, no entanto, também era a rota preferida para os vários oleodutos propostos do Turquemenistão até o Paquistão. Uma corporação argentina, a Bridas, foi a primeira a entrar na corrida. Em 1992 e 1993, a companhia obteve os direitos de sondagem e exploração dos campos de gás do Turquemenistão, e, em 1994, abriu negociações com os governos do Paquistão e do Turquemenistão para a construção de um gasoduto, que levou, no início de 1995, à assinatura de um acordo sobre um estudo de viabilidade. No começo, a Bridas tentou envolver a gigante americana, Unocal, no projeto. Mas, a Unocal tinha seus próprios planos e mais tarde naquele mesmo ano assinou um acordo em separado, iniciando uma rivalidade e uma batalha legal entre as duas companhias.

Todos os projetos de oleoduto pressupunham que uma solução política poderia ser encontrada para as condições caóticas que existiam ao longo da rota proposta. Outros interesses menores também desejavam afastar os guerrilheiros e milícias menos importantes. O caminho de Quetta, no Paquistão, passando por Candahar e Herat, até o Turquemenistão, era a única alternativa de transporte para a rota norte da Ásia Central, através da Cabul conflagrada. As companhias de transporte e os proprietários de caminhões envolvidos no lucrativo comércio da Ásia Central e no contrabando eram compelidos a pagar grandes quantias a cada comandante de milícia para que seus veículos pudessem cruzar suas regiões - uma situação que eles queriam acabar.

 

As origens do Taleban

Em meio a essas discussões, surgiu o movimento Taleban como uma solução possível. Isto não quer dizer que o Taleban - estudantes ou "talib" tirados das escolas islâmicas ou "madrassas" - fosse apenas uma criação de governos ou de interesses comerciais. O rápido surgimento deste novo movimento em 1994 e a rapidez de seu crescimento e sucesso foram produto de dois fatores - primeiro, o atoleiro político e social que resultou no suprimento imediato de recrutas e, em segundo, a ajuda externa do Paquistão, Arábia Saudita e, com toda a probabilidade, dos Estados Unidos, sob a forma de financiamento, armas e estrategistas.

Embora vários líderes do Taleban tivessem lutado no jihad patrocinado pelos Estados Unidos contra a ex-União Soviética, o movimento não foi um ruptura, ou um amálgama, de outras facções mujahidin. Era basicamente formado por uma nova geração que não tinha se envolvido na luta dos anos 80. Eles eram hostis ao que percebiam como governo corrupto de déspotas mujahidin insignificantes que, no rastro da queda de Najibullah, só tinham trazido mais miséria para a vida do afegão comum. Eles mesmos eram produto da guerra. Muitos deles tinham crescido em campos de refugiados no Paquistão e receberam uma educação rudimentar nas madrassas administradas pelos vários partidos extremistas islâmicos do Paquistão.

Certo autor deu a seguinte descrição: "Estes rapazes eram um mundo à parte dos mujahidin que eu conheci durante os anos 80 - homens que podiam narrar suas linhagens tribais, lembravam-se com nostalgia de suas fazendas e vales abandonados e contavam lendas e mitos da história afegã. Estes rapazes pertenciam a uma geração que nunca viu o país em paz - um Afeganistão sem guerras e invasores. Eles eram literalmente órfãos de guerra, sem raízes e inquietos, sem emprego e privados economicamente e com pouco autoconhecimento..."

"Sua crença simples num Islam puritano e messiânico, que havia sido ensinado pelos mulás das aldeias, era o único amparo que os sustentava e que dava algum sentido às suas vidas. Despreparados de tudo, até de ocupações tradicionais de seus antepassados, como agricultura e pecuária ou artesanato, eles eram o que Karl Marx teria definido como o 'lumpiado' do Afeganistão." [Taliban: Islam, Oil and the New Great Game in Central Asia, Ahmed Rashid, I.B Tauris, 2000, p.32].

A ideologia do Taleban era uma mistura de idéias que se desenvolveu num apelo a essas camadas sociais. Desde o início, o movimento foi profundamente reacionário. Parecia retrógrado em suas soluções sociais, um passado mítico quando os preceitos do profeta Mohammad foram observados rigorosamente. Estava profundamente imbuído de um violento anticomunismo que tinha sido gerado pela brutalidade e repressão dos sucessivos regimes apoiados pelos soviéticos em Cabul, que governavam falsamente sob a bandeira do "socialismo",

Da mesma forma que o Kmer Vermelho, no Cambodja, o Taleban refletia a suspeita e hostilidade das camadas rurais oprimidas em relação à vida urbana, culta e técnica. Seus líderes eram mulás semi-alfabetizados, e não exegetas islâmicos versados nas escrituras e comentários religiosos. Eles eram hostis a outras seitas islâmicas, principalmente o xiísmo, e a grupos étnicos que não fossem o pashtun. O código social retrógrado do Taleban foi tirado das leis tribais pashtuns ou da tradição islâmica. Muito de sua ideologia de base islâmica era proveniente do deobandismo - um movimento reformista influente do século 19 - mas de uma forma que fosse despido de tudo que pudesse ser remotamente progressista.

O Taleban surgiu no Afeganistão devastado pela guerra como um tipo de fascismo clerical. Refletia o desespero e a desesperação das classes desenraizadas de uma insignificante burguesia rural - os filhos de mulás, funcionários menores, pequenos fazendeiros e comerciantes - que não viam outra alternativa para os males sociais que campeavam no Afeganistão que não fosse através da imposição de um regime islâmico ditatorial.

O próprio relato do Taleban sobre suas origens nos fornece uma percepção de seu forte apelo. Em julho de 1994, o líder máximo do Taleban, Mohammad Omar, então um mulá de aldeia, respondeu ao pedido de ajuda para libertar duas meninas que tinham sido raptadas e estupradas por um comandante da milícia local. Omar, que tinha lutado em uma das organizações mujahidin, reuniu um grupo de seus adeptos dentre os estudantes religiosos das madrassas da região. Armados com um punhado de rifles, eles libertaram as meninas, capturaram o comandante e o enforcaram.

Qualquer que seja a verdade do fato, o Taleban se definiu como um grupo de religiosos vigilantes, encarregados de corrigir as injustiças infligidas ao povo. Seus líderes insistiam que o movimento, diferente das organizações mujahidin, não era um partido político e nem queria formar um governo. Eles diziam que estavam limpando o caminho para uma verdadeira administração islâmica e que iria exigir grandes sacrifícios de seus recrutas, que não recebiam pagamento, só armas e alimentos.

 

A assistência paquistanesa

Sempre havia, no entanto, um enorme fosso entre a imagem e a realidade. Se o Taleban era para ser mais do que um grupo armado de zelotes religiosos, comprometido com a guerra de guerrilha, o movimento exigia grandes quantidades de dinheiro, armas e munições, assim como considerável experiência técnica e militar - coisas que não havia entre esses recrutas empobrecidos.

De início, o mais importante patrocinador do Taleban foi o Paquistão. O poderoso serviço de inteligência do Paquistão (ISI) - que tinha sido o canal principal para o dinheiro, armas e peritos dos Estados Unidos destinado aos grupos mujahidin durante os anos 80 - estava profundamente envolvido na política afegã. Em 1994, o governo de Benazir Bhutto tinha mantido conversações com a companhia argentina Bridas, mas não estava receptiva a abrir um caminho através do sul do Afeganistão. O interlocutor principal do Paquistão, Hikmetyar, estava às voltas com as lutas em Cabul e era improvável que pudesse fornecer uma solução.

Na busca de uma alternativa, o ministro do Interior de Bhutto, Nasirullah Babar teve a idéia de usar o Taleban. Em setembro de 1994, ele organizou uma equipe de agrimensores e funcionários do ISI para fazer um levantamento do caminho de Candahar e Herat até o Turquemenistão. No mês seguinte, Bhutto voou para o Turquemenistão onde conseguiu o apoio dos dois guerreiros mais importantes - Rashid Dostum, que controlava áreas do Afeganistão próximas à fronteira, e Ismail Khan, que governava Herat. Num lance para atrair apoio financeiro internacional, o Paquistão também mandou vários diplomatas estrangeiros baseados em Islamabad a Candahar e Herat.

Tendo assegurado uma medida de apoio a seu plano, o ministro do Interior, Babar, organizou um comboio de 30 caminhões militares, tripulado por ex-soldados, sob o comando de um antigo funcionário do ISI e guardado pelos guerrilheiros do Taleban. Os caminhões saíram no dia 29/10/94 e quando o caminho foi bloqueado, o Taleban negociou com a milícia responsável. Em 5/11, o Taleban não só tinha limpado a estrada como, com um mínimo de luta, tinha assumido o controle de Candahar.

Nos três meses seguintes, o Taleban assumiu o controle de 12 das 31 províncias do Afeganistão. Pelo menos, algumas de suas "vitórias" foram alcançadas graças ao pagamento de suborno aos comandantes das milílicas locais. Após sofrer alguns revezes militares, em meados de 1995, o Taleban se rearmou e se reorganizou com a ajuda paquistanesa e em setembro entrou em Herat, abrindo definitivamente o caminho do Paquistão para a Ásia Central. No mês seguinte, a Unocal assinava seu acordo sobre o oleoduto com o Turquemenistão.

O Paquistão sempre foi cauteloso em admitir qualquer apoio direto ao Taleban, mas as ligações são muito claras. O Taleban tem ligações estreitas com o Jamiat-e-Ulema Islam (JUI), um partido islâmico extremista com sede no Paquistão, que administra suas próprias madrassas nas áreas fronteiriças com o Afeganistão. O JUI forneceu ao Taleban um grande número de soldados recrutados de suas escolas, assim como um canal de comunicação entre os escalões mais altos do exército paquistanês e o ISI.

O mais evidente sinal de envolvimento externo foi o sucesso militar do Taleban. Em menos de um ano, ele deixou de ser um punhado de estudantes para formar uma milícia bem organizada que reunia mais de 20.000 soldados, apoiados por tanques, artilharia e suporte aéreo, e controlava grandes partes do sul e oeste do Afeganistão.

Conforme um escritor observou: "Também é inconcebível que uma força, composta principalmente de ex-guerrilheiros e estudantes amadores, pudesse ter operado com o grau de habilidade e organização que o Taleban mostrou quase que desde o início de suas operações. Ainda que houvesse antigos membros das forças armadas afegãs em seus quadros, a rapidez e sofisticação com que suas ofensivas foram conduzidas e a qualidade de elementos tais como comunicações, suporte aéreo e bombardeios de artilharia, levam à indubitável conclusão de que isto se deveu mais à presença militar paquistanesa ou pelo menos ao seu apoio profissional." [Afghanistan: A New History, Martin Ewers, Curzon, 2001, pp182-3].

O Paquistão não foi a única fonte de ajuda. A Arábia Saudita também forneceu ajuda financeira e material substancial. Um pouco antes de o Taleban assumir o controle de Candahar, Maulana Fazlur Rehman, do JUI, começou a organizar "viagens de caça" para a realeza saudita e dos estados do golfo. Em meados de 1996, a Arábia Saudita estava enviando dinheiro, veículos e combustível para ajudar o Taleban em Cabul. As razões eram duas: no plano político, a ideologia fundamentalista do Taleban era próxima do wahabismo saudita. Era hostil à seita xiíta e, por conseqüência, ao maior rival regional de Riad - o Irã. Num nível mais prosaico, a companhia de petróleo saudita, a Delta Oil, era parceira no oleoduto da Unocal e estava depositando suas esperanças numa vitória do Taleban para alcançar seu projeto.

 

O Estados Unidos e o Taleban

Como os paquistaneses e sauditas, os Estados Unidos negavam repetidamente qualquer apoio ao Taleban. Dado o envolvimento da CIA com o Paquistão e o ISI na década de 80, no entanto, é pouco provável que Washington não soubesse e que não desse sua aprovação tácita, aos planos do governo Bhutto para o Taleban. O apoio paquistanês ao Taleban era um segredo aberto, mas só no final dos anos 90 é que os Estados Unidos começaram a pressionar Islamabad a respeito de suas relações com o regime.

Além do mais, as evidências indiretas das relações entre o Taleban e os Estados Unidos vieram dos esforços do congressista americano Dana Rohrabacher, um membro do Comitê de Relações Exteriores, para obter acesso aos documentos oficiais americanos relacionados ao Afeganistão desde a formação do Taleban. Rohrabacher, um adepto do rei afegão, certamente tinha uma questão com a administração Clinton. Mas a resposta ao seu pedido foi importante. Depois de dois anos de pressão, o Departamento de Estado finalmente liberou perto de 1000 documentos abrangendo o período a partir de 1996, mas tinha se recusado obstinadamente a liberar qualquer negociação relativa ao período anterior.

Ainda que os detalhes exatos dos primeiros contatos americanos com o Taleban ou seus defensores paquistaneses estejam indisponíveis, a atitude de Washington foi clara. Ahmed Rashid comenta: "A administração Clinton era muito claramente simpática ao Taleban porque eles estavam alinhados com a política anti-iraniana de Washington e eram importantes para o sucesso de qualquer oleoduto no sul que evitasse o Irã. O Congresso americano autorizou um orçamento de US$20 milhões para a CIA desestabilizar o Irã e Teerã acusou Washington de estar canalizando parte desses recursos para o Taleban - acusação que sempre foi negada por Washington." [Taliban: Islam, Oil and the New Great Game in Central Asia, p. 46].

De fato, o período de 1994 a 1997 coincidiu com uma agitação da atividade diplomática americana, que objetivava assegurar apoio para o oleoduto da Unocal. Em março de 1996, o conhecido senador americano, Hank Brown, um adepto do projeto Unocal, visitou Cabul e outras cidades afegãs. Ele se encontrou com o Taleban e os convidou para enviar delegados a uma conferência financiada pela Unocal sobre o Afeganistão, nos Estados Unidos. No mesmo mês, os Estados Unidos também exerceram pressão sobre o governo do Paquistão para livrar-se da Bridas e apoiar a companhia americana.

No mês seguinte, a secretária de estado para o Sul da Ásia, Robin Raphel, visitou o Paquistão, o Afeganistão e a Ásia Central, pedindo uma solução política para o conflito que se estendia. "Também estamos preocupados com as oportunidades econômicas que aqui serão perdidas se a estabilidade política não puder ser restabelecida" disse ela à mídia. Raphel não manteve conversações com os líderes do Taleban e nem ofereceu qualquer outro indicativo de apoio oficial. Mas também os Estados Unidos não estavam criticando abertamente o Taleban a respeito dos direitos das mulheres, das drogas e do terrorismo, que formariam a base de seu ultimato ao regime no final dos anos 90. Em todas essas três questões, havia muitas evidências, a menos que se prefira ignorá-las deliberadamente.

* Desde a ocupação de Candahar, era óbvio que o Taleban não toleraria mesmo os mais básicos direitos democráticos. As meninas foram proibidas de ir às escolas e as mulheres de trabalhar - medidas que criaram grandes sofrimentos. Um rigoroso, até absurdo, código de vestimenta foi imposto a homens e mulheres e virtualmente todas as formas de divertimento, desde vídeo e TV, foram banidas. Uma polícia religiosa fazia cumprir o código social, praticando uma justiça arbitrária nas ruas. As execuções foram praticadas para os crimes que incluíam adultério e homossexualismo. O objetivo de todo o sistema de repressão era aterrorizar a população para aceitar a ditadura teocrática do Taleban, onde ninguém tinha qualquer liberdade, salvo os mulás do Taleban. Mesmo suas decisões estavam sujeitas ao veto do Mulá Omar em Candahar.

* No caso da enorme indústria afegã de heroína, os Estados Unidos desempenharam um papel importante em sua expansão. Durante a década de 80, os grupos mujahidin e seus defensores paquistaneses exploraram linhas de suprimento, estabelecidas com a assistência da CIA para conseguir armas para o Afeganistão, a fim de contrabandear grandes quantidades de ópio para fora do país. A CIA ignorou o comércio de drogas para prosseguir na guerra contra o exército soviético. No início dos anos 90, o Afeganistão competia com Burma como o maior produtor de ópio do mundo. Os Estados Unidos adotaram o mesmo comportamento com o Taleban, que inicialmente se empenhou em banir o cultivo de ópio mas reverteu imediatamente sua decisão depois de perceber que havia poucos recursos alternativos de renda na economia arruinada do Afeganistão. Depois que o Taleban ocupou Candahar, a produção de ópio nos arredores da província cresceu em 50%. Quando o Taleban se dirigiu para o norte, estima-se que a produção do país, como um todo, tenha crescido 2.800 toneladas em 1997 - mais de 25% em comparação a 1995. Nada disto provocou denúncias públicas de Washington naquela época.

* A atitude dos Estados Unidos em relação à ameaça do extremismo islâmico foi hipócrita. Nos anos 80, os Estados Unidos não só deram apoio aos mujahidin como, também, em 1986, aprovou um plano paquistanês de recrutamento de guerrilheiros fora do país, para demonstrar que todo o mundo muçulmano apoiava a guerra anti-soviética. Sob este plano, um número estimado de 35.000 militantes islâmicos do Oriente Médio, da Ásia Central, África e Filipinas foram treinados e armados para lutar no Afeganistão. Entre os mais conhecidos árabes-afegãos, estava Osama bin Laden, o filho de um rico magnata iemenita da construção civil, que tinha construído estradas e depósitos para os mujahidin desde 1980. Ele trabalhava com a CIA em 1986 com o objetivo de construir o enorme Khost, um complexo de túneis para depósito de armas e instalações de treinamento. Depois construiu seu próprio campo de treinamento e, em 1989, criou a Al Qaeda para os árabes-afegãos.

 

A queda de Cabul

Em meados de 1990, o comportamento dos Estados Unidos para com o Taleban não era determinado por bin Laden, drogas ou direitos democráticos. Se, em meados de 1996, a funcionária americana Robin Raphel tinha sido ambivalente sobre a aceitação do Taleban, foi porque Washington não tinha certeza se os guerrilheiros do Taleban eram capazes de derrotar seus oponentes e fornecer um clima político estável para o projeto Unocal.

Após a captura de Herat, em 1995, o Taleban voltou o foco de seus ataques para Cabul. Todos os lados estavam envolvidos no fornecimento de armas para o Afeganistão para um confronto final antecipado. Paquistão e Arábia Saudita equiparam o Taleban, modernizaram o aeroporto de Candahar e construíram uma nova rede de rádio e telefone. Rússia e Irã mandaram armas, munições e combustível para o regime de Rabbani e seus aliados, via base aérea de Bagram, ao norte de Cabul. A Índia, indiretamente, ajudava Rabbani, renovando a linha aérea nacional do Afeganistão e fornecendo dinheiro.

Tentativas feitas pela ONU, Estados Unidos e outros países para mediar uma negociação entre Rabbani e o Taleban falharam. Em agosto de 1996, soldados do Taleban ocuparam Jalalabad, na fronteira com o Paquistão, e finalmente expulsaram as forças de oposição de Cabul no mês seguinte. Um de seus primeiros atos foi torturar brutalmente e matar Najibullah e seu irmão, que desde 1992 vivia sob imunidade diplomática num prédio da ONU na capital, e pendurar seus corpos mutilados na rua. A reação de Washington é assim descrita:

"Horas após a tomada de Cabul pelo Taleban, o Departamento de Estado dos Estados Unidos anunciou que estabeleceria relações diplomáticas com o Taleban, enviando um funcionário a Cabul - um anúncio que foi rapidamente desfeito. O porta-voz do Departamento de Estado, Glyn Davies, disse que os Estados Unidos não acharam "nada repreensível" nos passos tomados pelo Taleban para impor a lei islâmica. Ele descreveu o Taleban mais como anti-moderno do que propriamente anti-ocidental. Os congressistas americanos ficaram do lado do Taleban. 'A parte boa do que aconteceu é que uma das facções parece capaz de desenvolver um governo no Afeganistão', disse o Senador Hank Brown, um defensor do projeto Unocal." (pag. 166)

A resposta da Unocal foi quase idêntica. Um porta-voz da companhia, Chris Taggert, comemorou a vitória do Taleban, explicando que agora seria mais fácil completar o projeto do oleoduto - então rapidamente retirado da declaração. O significado era óbvio. Os Estados Unidos viam o Taleban como o melhor meio de assegurar a estabilidade exigida para o projeto da Unocal, mas não estavam preparados para manifestar apoio ao novo regime até que seu controle não fosse disputado.

Falando numa sessão da ONU a portas fechadas, em novembro de 1996, Raphel explicava sem rodeios: "O Taleban controla mais de 2/3 do país, eles são afegãos, são nativos, demonstraram poder de resistência. A verdadeira fonte de seu sucesso foi a vontade de muitos afegãos, principalmente os pashtuns, de trocar tacitamente uma luta sem fim e o caos por uma medida de paz e segurança, mesmo que sob severas restrições sociais. Não é do interesse do Afeganistão ou de qualquer um de nós que o Taleban seja isolado."

A Unocal, com o apoio de Washington, continuou a conquistar ativamente os líderes do Taleban que, num esforço para obter uma negociação mais lucrativa, tratava com a companhia americana contra a Bridas argentina. A Unocal forneceu perto de US$1 milhão para fundar o Centro de Estudos do Afeganistão, na Universidade de Omaha. O ganho principal da "ajuda" da companhia foi uma escola para treinar trabalhadores em oleodutos, eletricistas e carpinteiros necessários na construção de seus oleodutos. Em novembro de 1997, uma delegação do Taleban foi recebida pela Unocal em Houston, Texas, e se encontrou com funcionários do Departamento de Estado durante a visita.

 

A mudança política de Washington

Mas, os ventos políticos já estavam mudando. A virada se deu em maio de 1997, quando o Taleban ocupou a maior cidade do norte, Mazar-e-Sharif e tentou impor seu código religioso e social para uma população hostil e desconfiada de usbeques, tadjiques e hazaras xiitas. Suas ações provocaram uma revolta em que perto de 600 soldados do Taleban foram mortos em intensos combates na cidade. Pelo menos mais 1000 foram capturados e quando tentaram fugir foram massacrados. Nos dois meses seguintes, o Taleban foi repelido das frentes do norte, no que se tornou a sua pior derrota militar. Em 10 semanas de luta, o Taleban perdeu mais de 3.000 soldados, entre mortos e feridos e 3.600 foram feitos prisioneiros.

Mazar-e-Sharif não foi só um revés militar. O Taleban se reagrupou, ocupou a cidade de novo em agosto de 1998, matou milhares de hazaras xiitas - homens, mulheres e crianças - e quase provocou uma guerra com o Irã pela morte de 11 funcionários iranianos e um jornalista. No entanto, os acontecimentos de maio de 1997 revelaram uma profunda animosidade dos não-pashtuns para com o Taleban. Isto significava que uma guerra civil poderia acontecer e que mesmo que o Taleban conseguisse tomar as fortalezas oposicionistas do norte, revoltas e uma futura instabilidade política poderiam acontecer.

Logo após a queda de Mazar-e-Sharif, várias decisões importantes foram tomadas por Washington. Em julho de 1977, numa brusca política de enfrentamento, a administração Clinton acabou com sua oposição a um gasoduto Turquemenistão-Turquia passando pelo Irã. No mês seguinte, um consórcio de companhias européias, inclusive a Royal Dutch Shell, anunciou planos para este projeto. Uma negociação em separado feita pela BHP Petroleum da Austrália propôs um outro gasoduto do Irã ao Paquistão e finalmente até a Índia.

No mesmo período, os Estados Unidos e Turquia patrocinaram em conjunto a idéia de um "corredor de transporte" com um oleoduto saindo de Baku, no Azerbaijão, passando pela Geórgia até o porto turco de Ceyhan, no Mediterrâneo. Washington começou a pedir ao Turquemenistão e ao Cazaquistão que participassem do plano, construindo gasodutos e oleodutos, respectivamente, passando sob o mar Cáspio e ao longo do mesmo corredor.

O plano da Unocal para um gasoduto do Turquemenistão agora enfrentava competição. Além do mais, essas propostas rivais eram ao longo de rotas que tinham a promessa de ser, pelo menos no curto prazo, mais estáveis politicamente. Tanto a Bridas como a Unocal continuaram com seus planos para o sul do Afeganistão mas as perspectivas pareciam cada vez mais distantes. No final de 1997, o vice-presidente da Unocal, Marty Millar, comentou: "Não se sabe quando este projeto começará. Depende da paz no Afeganistão e de um governo que possa implementá-la. Pode ser no final deste ano, no próximo ano ou daqui há três anos, ou pode ser um buraco seco se a luta continuar."

Paralelamente, uma mudança na retórica política de Washington começou a acontecer. Em novembro de 1997, a secretária de estado, Madeleine Albright, deu um novo tom durante a sua visita ao Paquistão. Ela aproveitou a oportunidade para denunciar as políticas do Taleban para as mulheres como "desprezíveis" e a advertir o Paquistão de que se arriscava ao isolamento internacional. Washington começou a exercer pressão sobre o Paquistão a respeito do envolvimento com o Taleban no comércio da heroína e dos perigos do "terrorismo islâmico".

A mudança na política americana foi completada quando, após o ataque às embaixadas americanas no Quênia e Tanzânia, em agosto de 1998, a administração Clinton iniciou os ataques com mísseis contra os campos de treinamento de bin Laden, em Khost, no Afeganistão. Bin Laden retornou ao Afeganistão em maio de 1996, após uma ausência de 6 anos, durante os quais ele ficou cada vez mais aborrecido com o papel dos Estados Unidos no Golfo Pérsico e no Oriente Médio. Ele começou fazendo convocações públicas pelo jihad contra os Estados Unidos em agosto de 1996. Foi somente após os ataques na África, no entanto, que Washington começou a exigir, sem qualquer prova de um envolvimento de bin Laden, que o Taleban o entregasse.

A Unocal suspendeu seu projeto e retirou toda sua equipe de Candahar e Islamabad. O último prego no caixão chegou no final de 1998, quando os preços do petróleo foram reduzidos de US$25 para US$ 13 o barril, tornando o projeto da Unocal inviável economicamente, pelo menos no curto prazo. Ao mesmo tempo, as exigências da administração Clinton para entregar bin Laden, assim como uma ação efetiva de controle sobre a droga e os direitos humanos, tornaram-se a base de uma série de sanções punitivas da ONU, impostas ao Taleban em 1999 e reforçadas no início deste ano.

Apesar da intensa pressão exercida sobre o Taleban e também sobre o Paquistão, nenhuma das exigências americanas foram atendidas. Em 1988 e 1999, o Taleban iniciou novas ofensivas militares e estendeu seu controle, empurrando seus opositores para o nordeste do país. Mas a guerra civil não estava perto de um fim, com a Rússia e Irã continuando a fornecer armamentos aos oponentes do Taleban. As sanções da ONU tiveram o efeito de impedir que qualquer dos rivais de Washington pudesse conquistar posição vantajosa no Afeganistão, mas afastou os Estados Unidos de estabelecerem uma posição firme na região.

Após os ataques de 11 de setembro a Nova York e Washington, administração americana pode agora se voltar para seus projetos na Ásia Central. Sem fornecer qualquer prova, Bush imediatamente acusou bin Laden de ser o responsável pela devastação no país e baixou uma série de ultimatos ao regime Taleban: entreguem bin Laden, fechem as instalações da Al Qaeda e permitam o acesso dos Estados Unidos a todos os "campos de treinamento de terroristas". Quando o Taleban rejeitou essas exigências, Bush deu a seus generais o sinal para soltar milhares de bombas e mísseis sobre o Afeganistão, com o objetivo claramente manifesto de derrubar o regime.

Se fôssemos acreditar na administração Bush e na mídia internacional, o único propósito dessa guerra extensa e custosa contra um dos países mais atrasado do mundo é caçar bin Laden e acabar com a sua rede Al Qaeda. Mas, como esta revisão histórica demonstra, os objetivos de Washington no Afeganistão não são determinados pelo medo do terrorismo ou por preocupações com direitos humanos. Os Estados Unidos, pela primeira vez, estabeleceram uma presença militar nas repúblicas da Ásia Central com soldados no Usbequistão e sua campanha militar lhes assegura que ditará os termos de qualquer regime pós-Taleban no Afeganistão. Mesmo que bin Laden morresse amanhã e sua organização fosse destruída, Washington não tem intenção de se afastar desses primeiros passos em direção à dominação desta região estratégica e de suas enormes reservas de energia.

References:
1. Taliban: Islam, Oil and the New Great Game in Central Asia, Ahmed Rashid, I.B Tauris, 2000
2. Afghanistan: A New History, Martin Ewers, Curzon, 2001
3. Reaping the Whirlwind: The Taliban Movement in Afghanistan, Michael Griffin, Pluto Press, 2001

(*) Peter Symonds é um jornalista australiano, membro do Conselho Editorial do WSWS, World Socialist Web Site [http://www.wsws.org].

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