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ATUALIDADES

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O VERDADEIRO OBJETIVO

Por Uri Avnery

O verdadeiro objetivo da "Operação Escudo Protetor" não foi "destruir a infra-estrutura do terrorismo". Este foi simplesmente um slogan para unir as pessoas em Israel, que estavam iradas e com medo dos ataques suicidas. Também é um bom dispositivo político que permite a Sharon montar o trem da "guerra contra o terrorismo internacional" do presidente Bush. Sob a proteção do "destruir a infra-estrutura do terrorismo" praticamente nada se pode fazer. Se Sharon quisesse realmente destruir a infra-estrutura do terrorismo" ele teria agido bem diferente. Ele teria dado às massas palestinas a esperança de conquistar sua liberdade nacional em futuro próximo. Ele teria fortalecido a posição de Iasser Arafat, o único parceiro eficaz para a paz. Ele teria fortalecido as forças de segurança palestinas e teria melhorado radicalmente as condições econômicas nos territórios palestinos.

Mas, destruir a infra-estrutura do terrorismo não é o que Ariel Sharon quer. Seu programa é muito mais radical: quebrar a coluna vertebral do povo palestino, esmagar suas instituições governamentais, transformar o povo em destroços que possam ser tratados como ele desejar. Isto pode exigir encerrá-los em enclaves ou até expulsá-los do país completamente.

Desta forma, Sharon estaria terminando o serviço iniciado em 1948: estabelecer o verdadeiro Israel, do Mediterrâneo ao rio Jordão, um estado habitado somente por judeus. Não foi por acaso que ele abertamente apoiou Slobodan Milosevic, o pai da "limpeza étnica". Quando eu escrevi isto há um ano atrás, parecia uma calúnia maldosa. Sharon ainda era visto como um homem determinado a combater o terrorismo, não como uma pessoa costuma combater o terrorismo, e sim como um meio de alcançar objetivos bastante diferentes.

Não mais.

Há quatro dias atrás, eu estive em Ramallah. Entrei furtivamente na cidade (os israelenses estão proibidos pelo comando militar de entrar em territórios palestinos) a fim de ver com os meus próprios olhos. Visitei os ministérios palestinos. Uma visão chocante de verdade.

Tomemos, por exemplo, o Ministério da Educação palestino. Ele está alojado num prédio imponente, provavelmente da época do mandato britânico, uma mistura dos estilos neoclássico europeu e oriental. Em frente a ele havia um jardim de rosas - "havia", porque um tanque circulou por ele sem um motivo aparente, deixando apenas uma roseira púrpura de pé, em toda a sua glória. Só isto. Para ensinar a eles uma lição.

No andar de cima, que abrigavam os computadores e arquivos, a destruição foi total. Os computadores foram colocados de lado e atirados ao chão, a segurança arrombada, documentos espalhados em volta, as gavetas vazias, os telefones arrebentados. Puro vandalismo. O dinheiro no cofre foi roubado, os móveis virados para cima, os papéis dispersos. Mas, quando se olha mais de perto, o verdadeiro objetivo da operação fica claro. Todos os HD foram tirados dos computadores, todos os arquivos importantes levados embora. Só as cascas permaneceram: listas de alunos, resultados de provas, lista de professores, toda logística do sistema educacional palestino.

O Ministério da Saúde teve o mesmo destino. Os HD que continham informação, estado das doenças, testes médicos, listas de médicos e enfermeiros, a logística dos hospitais, tudo foi levado. Até o pessoal mais crítico da Autoridade Palestina admitiu que esses dois ministérios - Educação e Saúde - estavam funcionando bem. Eles foram inteiramente destruídos.

Isto aconteceu praticamente com todos os setores do governo palestino. Foram-se as informações relativas ao registro de terra e de imóveis, testes de automóveis e licenças de motoristas, tudo o que é necessário para a administração de uma sociedade moderna.

A lista de terroristas não estava escondida nos livros de registros de terra, o inventário das bombas não estava entre a lista de professores das creches infantis. O verdadeiro objetivo é óbvio: destruir não só a Autoridade Palestina, mas a própria sociedade em si: de um só golpe levá-la do estágio de um estado moderno para a sociedade primitiva dos tempos turcos.

Isto é verdade no que se refere á sociedade civil e até mais no que se refere ao sistema de segurança. Os quartéis-generais dos serviços de segurança foram destruídos, arquivos queimados, computadores destruídos, as informações relativas às organizações clandestinas armadas e todos os outros detalhes que dizem respeito à guerra contra o terrorismo foram apagados. Não há evidência melhor dos objetivos desta operação: não é uma guerra contra o terrorismo, mas a destruição da sociedade palestina organizada.

A propósito, naquele dia passei, com um grupo de pacifistas israelenses pelo centro de Ramallah - da cova coletiva no estacionamento do hospital, até o sitiado quartel-general de Iasser Arafat. Levamos posters em hebraico e encontramos muita simpatia e nenhum sinal de hostilidade. Mesmo agora, os palestinos sabem a diferença entre o campo de paz israelense e aqueles que são responsáveis por este ataque brutal. Aqui, talvez, esteja o único vislumbre de esperança.

http://www.ccmep.org/hotnews2/real042702.html

27/04/02

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