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ATUALIDADES

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OS USOS DO ANTISSEMITISMO

Por Luiz Weis

São tempos de cão. Enquanto Israel, impunemente, comete as mais sistemáticas atrocidades contra os palestinos desde a sua criação, a Europa Ocidental assiste, passivamente, ao que deve ser o maior surto de ações antissemitas desde a 2.ª Guerra Mundial, com a vandalização de sinagogas e cemitérios, e agressões de rua a adultos e crianças.

Em países como França, Bélgica, Inglaterra e Alemanha, a extrema direita racista se vale da justa indignação de ponderáveis parcelas da opinião pública diante do terrorismo de Estado praticado pelo exército israelense na Cisjordânia, indissociável da política de subjugação colonial do governo Sharon, para multiplicar os seus atos peçonhentos.

O amargo paradoxo é a convergência de interesses entre os neonazistas brancos e os seus vizinhos de pele escura que abominam com não menor intensidade - no caso, os radicais islâmicos que exercem crescente influência política nas comunidades de origem árabe. Agora, a cada incidente, as polícias precisam descobrir, antes de tudo, se os autores são europeus ou simpatizantes de organizações terroristas palestinas, como o Hamas.

Em alguns episódios, parece fácil. A abjeta profanação de uma sinagoga no bairro londrino de Finsbury Park - o primeiro ato do gênero na Inglaterra - pode ser atribuída em princípio aos xenófobos adeptos do Partido Nacional Britânico, que está para as ilhas como a Frente Nacional de Le Pen para a França e a Frente Popular de Jörg Haider para a Áustria, porque os atacantes fizeram questão de fincar a bandeira da Union Jack no altar do templo.

Em relação a outros atentados, como os ocorridos em Marselha, no sul da França, um dos maiores pontos de concentração de imigrantes muçulmanos da África do Norte, em toda a Europa - e também, por isso mesmo, um dos principais redutos da extrema direita francesa -, a autoria pode ser atribuída indistintamente a uns ou outros. O antijudaísmo muçulmano, porém, chega a ser pior do que o anti-semitismo europeu.

Porque, em vez de organizar, entre outras formas de repúdio político, manifestações de protesto diante das representações diplomáticas de Israel e de seu protetor, os Estados Unidos, na União Européia, as lideranças árabes seculares deixam que os fundamentalistas islâmicos se vinguem, à sua maneira, das medonhas provações impostas aos palestinos por Sharon. E o único revide que eles conhecem é a violência indiscriminada contra os judeus, seus símbolos e instituições, alimentada pelo fanatismo religioso e étnico.

Nas passeatas contra Israel, em qualquer parte do mundo, faixas e cartazes justapõem a cruz gamada nazista à estrela de David. É uma provocação e um ultraje, apesar dos judeus que participaram, semanas atrás, em Washington, de um ato público de apoio a Sharon e vaiaram o seu correligionário Paul Wolfowitz, subsecretário de Defesa dos Estados Unidos e duro entre os duros do governo Bush, porque ele - até ele - cometeu a temeridade de mencionar no seu discurso os sofrimentos do povo palestino.

O que não se pode minimizar, de qualquer modo, é a importação do anti-semitismo europeu pelos muçulmanos - e o tremendo bem que isso faz à direita israelense. Nos anos 1930, o mufti de Jerusalém, a principal autoridade islâmica do lugar, era um nazista assumido - e uma gritante exceção entre os seus. Hoje, tantas fez Israel que o antissemitismo é a regra no mundo árabe.

Mesmo nos dois únicos países que, impelidos pelos dólares americanos, reconheceram o Estado judeu, o Egito e a Jordânia, a mídia e os livros escolares reproduzem rotineiramente os mais repulsivos estereótipos antijudaicos elaborados ao longo dos séculos pelo cristianismo ocidental. É o que Bernard Lewis, um dos mais respeitados arabistas da América, chama "islamização do antissemitismo".

Além de comprar todo o vasto pacote europeu de infâmias associadas à imagem dos judeus como deicidas e em permanente complô para dominar o mundo, o anti-semitismo islâmico recorre ao Corão para dar um suporte teológico ao seu ódio. "Em todos os credos, sempre há quem tire do contexto as passagens mais exclusivistas ou militantes dos livros sagrados e as amplifique na cultura popular", observa o professor John Esposito, da Universidade de Georgetown, na capital americana, citado pelo New York Times.

O fato de o Corão conter trechos nada hostis aos judeus é convenientemente esquecido. Para não falar na secular tradição de convívio relativamente harmônico entre ambos os grupos religiosos, nas sociedades muçulmanas. O caso do Marrocos, ainda hoje, é notável. O jovem rei Mohammed - o mesmo que censurou o secretário de Estado Colin Powell por não ter começado sua viagem ao Oriente Médio por Israel e Cisjordânia - tem entre os seus assessores o judeu André Azulay.

Seu pai, Hassan, o monarca que o antecedeu, trouxe rabinos de Israel para abençoá-lo, pouco antes de morrer, lembra a revista inglesa The Economist. E o filho do prefeito de Casablanca estuda numa escola judaica. No fugaz período de degelo das relações árabe-israelenses, na década passada, o Marrocos se fez representar nos funerais de Itzhak Rabin, assassinado por um fanático judeu, depois de ter oferecido aos súditos que haviam emigrado para Israel o direito de retorno e a posse de um passaporte marroquino.

O antijudaísmo árabe não retira legitimidade da luta palestina por um Estado soberano e viável. Escreve Jean Daniel, o editor (judeu) do semanário francês Le Nouvel Observateur: "Ninguém tem o direito de confundir atos anti-semitas com atos de guerra para a obtenção ou a recuperação de determinado território." Mas aqueles atos repugnantes levam água para o moinho dos israelenses que dizem, de caso pensado ou por sincera convicção, que o seu país jamais será aceito pelos vizinhos.

Do mesmo modo, a brutalidade da política de Sharon, embora não absolva os homens-bombas palestinos dos seus crimes de desespero contra civis israelenses - em território israelense -, pulveriza a alegação oficial do governo de Tel-Aviv de que nada tem contra o povo palestino. Bastam poucos minutos na Internet, por sinal, para topar com caricaturas made in Israel que sugerem que todo palestino é um terrorista em potencial.

Pode-se dizer, de toda maneira, que a nova maré de anti-semitismo na Europa é tudo o que a direita israelense pediu a Jeová: reforça o mantra sionista de que fora de Israel não há salvação para o povo eleito, serve de pretexto para Sharon desmoralizar as críticas da União Européia às suas façanhas desumanas nos territórios palestinos e funciona como recurso de forte carga emocional para pôr contra a parede os israelenses e judeus da diáspora que o atual governo de Tel-Aviv, numa grosseira contrafação, define como "pró-palestinos". Em suma, o sharonismo e o anti-semitismo são duas faces da mesma realidade hedionda. 

Luiz Weis é jornalista E-mail: luizweis@uol.com.br Site: www.werbo.com.br

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