or_bar.gif (1182 bytes)

ATUALIDADES

or_bar.gif (1182 bytes)

CÚPULA DE CAMP DAVID: DE QUEM FOI O FRACASSO/

Um ano após impasse, diplomatas reavaliam cúpula de Camp David

Por Paulo Daniel Farah

Um ano após a cúpula de Camp David, está sendo apresentada uma nova versão para o impasse que impediu a assinatura de um acordo final de paz entre israelenses e palestinos, com a intermediação norte-americana.

Reunidos com o então presidente Bill Clinton, o ex-premiê Ehud Barak e o líder palestino Iasser Arafat concluiriam o processo de paz lançado em Madri há dez anos. Mal preparada, mal realizada e mal concluída, a cúpula de Camp David reduziu a muito pouco, anos de esforços comuns para alcançar a paz na região e provocou um retrocesso sem proporções, revelando a incoerência de tentar costurar um tratado às pressas nos EUA, após o adiamento de quase todas as etapas previstas em acordos prévios, apesar das "garantias" de Clinton. Diplomatas, analistas políticos e pacifistas analisam agora as negociações para entender como a diplomacia pode evitar mais derramamento de sangue. Ao menos 493 palestinos, 13 árabes israelenses e 130 israelenses foram mortos durante a nova Intifada (levante palestino contra a ocupação).

Após Camp David, ouviu-se apenas uma versão simplista: Barak ofereceu muito a Arafat, que  recusou a proposta e "optou pela violência". O ex-premiê insistiu em que os palestinos eram os únicos culpados, e Clinton não procurou desmenti-lo. Autoridades israelenses diziam que Arafat "nunca perdeu a oportunidade de perder uma oportunidade".  Recentes declarações de autoridades norte-americanas e israelenses, no entanto, demonstram que a dinâmica das negociações foi bem mais complexa. Barak não ofereceu a lua a Arafat. Rompeu tabus como a suposta indivisibilidade de Jerusalém (contrária às resoluções da ONU) e fez uma oferta com o respaldo de uma coalizão frágil. Segundo os palestinos, a proposta não lhes permitiria construir um Estado viável - Israel pretendia conservar 80% das colônias existentes em territórios ocupados, impedindo continuidade territorial. Embora Barak dissesse que nenhum líder israelense seria mais "generoso", ele próprio melhorou consideravelmente a proposta seis meses mais tarde, em Taba.

Em artigo na "New York Review of Books", Robert Malley, assessor de Clinton para assuntos israelo-árabes de 1998 a 2001, diz que "é preciso corrigir as histórias sobre o fracasso de Camp David". 'Mitos perigosos' "não há nenhuma razão - e é até criminoso - acrescentar erros fictícios aos que foram realmente cometidos", segundo Malley. Para ele, há "três perigosos mitos" a derrubar: 1) Camp David lançou luz sobre as verdadeiras intenções de Arafat (que seriam as de recusar a paz a qualquer preço); 2) a oferta de Israel satisfez a grande maioria, se não todas, as aspirações legítimas dos palestinos; e 3) os palestinos não fizeram nenhuma concessão. Essas três alegações são falsas, diz Malley. "É um mito terrível dizer que Arafat e apenas Arafat provocou esse fracasso catastrófico", disse Terje Roed-Larsen, enviado especial da ONU ao Oriente Médio. "As três partes cometeram erros." Apesar dos relatos de Israel, Arafat não recusou 96% da Cisjordânia em Taba, em janeiro, como chegou a ser dito.

As negociações foram suspensas porque as eleições estavam próximas e "a pressão da opinião pública israelense contra as negociações não pôde ser enfrentada", afirmou Shlomo Ben-Ami, chanceler de Israel à época. Em relação à espinhosa questão dos refugiados, Barak estava disposto a contribuir com um "fundo internacional de indenização" e acolher uma quantidade limitada de refugiados com o intuito de reagrupamento familiar. A idéia era permitir o retorno, na absoluta maioria dos casos, apenas ao Estado palestino e rejeitar qualquer responsabilidade pelo problema. Quanto a Jerusalém, questiona Malley, "como Arafat poderia justificar a seu povo o fato de que Israel queria soberania sobre certos bairros árabes da cidade?".

Os israelenses ofereceram aos palestinos o "controle" de algumas regiões árabes de Jerusalém - uma versão miniatura dos bantustões existentes na Cisjordânia. Camp David negava ainda aos palestinos controle sobre o espaço aéreo e acesso a água suficiente. Segundo o assessor de Clinton, Barak não cumpriu a promessa de retirar-se de três vilarejos em torno de Jerusalém e liberar prisioneiros palestinos, o que provocou um confronto com o então presidente dos EUA. Por razões políticas domésticas, Barak decidiu não manter a palavra, permitindo a ampliação de
assentamentos em territórios palestinos.

Nas eleições de 6 de fevereiro, Barak foi derrotado por Ariel Sharon, que ampliou o processo de demonização de Arafat iniciado por seu antecessor. A estratégia ameaça provocar uma crise no governo devido à posição do chanceler Shimon Peres. Estudo elaborado pelo governo concluiu que a eliminação política de Arafat seria vantajosa. Mas, tal qual no caso de Barak, o espectro de um governo com extremistas, desta vez palestinos, não pode ser descartado, levando em conta o crescente apoio a atos violentos para pôr fim à ocupação. Se não tem poder para deter já a violência de dez meses entre israelenses e palestinos, a nova versão do ocorrido em Camp David serve para orientar negociadores e a opinião pública em futuras iniciativas e desarmar a demonização de Arafat em curso.

Em entrevista à Folha no mês passado, o líder palestino rechaçou a acusação de Israel de que ele organizou o levante. "Eu visitei Barak e eu o avisei de que permitir a visita de Sharon era equivalente a 'brincar com fogo'. Eu lhe expliquei que isso exaltaria os sentimentos palestinos", afirmou. Foi uma visita de Sharon, então líder da oposição, ao Santuário Nobre - Monte do Templo, para os judeus - que serviu de estopim para a Intifada atual. A reavaliação da cúpula nos EUA fortalece os que querem uma retomada imediata do diálogo sem se cumprirem os utópicos sete dias de calma total exigidos por Sharon. O premiê da Jordânia, Ali Abu Ragheb, chegou a ironizar a reivindicação, afirmando que a única solução possível era a distribuição de soníferos para os palestinos, "para que durmam e despertem sete dias mais tarde".

Publicado na Folha de São Paulo em 29/07/2001

back1.gif (279 bytes)

 

1