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ATUALIDADES

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HOJE NÃO HÁ NOTÍCIAS

Por Ali Abunimah

Hoje não há notícias. Ou antes, as notícias de hoje estão cheias de estórias sobre a libertação de Iasser Arafat de sua prisão em Ramallah. Isto vem sendo apresentado como a causa do júbilo entre os palestinos, uma vitória pessoal do "desafiante" Arafat e um "sucesso" da diplomacia americana. Não acho que existam muitos palestinos que acreditem nisto e receio que não possa compartilhar desta vergonha, até  mesmo a ponto de distribuir novas estórias sobre isto. Considerem isto como um dia de greve.

Talvez meu julgamento tenha sido obscurecido pela minha raiva, pela afronta do conluio para encobrir o que aconteceu em Jenin.

Os israelenses são mestres em mudar de assunto e eles conseguiram   transformar Arafat em assunto (não inteiramente sem sua participação entusiástica), em lugar da ocupação e toda seu instrumental de opressão, expulsão, fome e destruição. Tendo removido o passatempo irrelevante que foi a prisão de Arafat em Ramallah, os israelenses já estão trabalhando em um novo passatempo que é a ameaça de que mais uma vez, se Arafat viajar para o exterior não terá permissão para voltar.

Mas, Arafat não é nem o problema nem a solução. Quando ele morrer e estiver enterrado, israelenses e americanos ainda o acusarão de dar ordens de seu túmulo. Mas nada na verdade terá mudado, nem a ocupação que procura esmagar mais de três milhões de pessoas, nem a vontade dos palestinos de resistir, sobreviver e de serem determinados, independente do número de pessoas que sejam mortas, torturadas e presas.

Mas, o mais espantoso de tudo é o escândalo do cancelamento da comissão de investigação da ONU sobre o acontecido em Jenin e o fracasso do Conselho de Segurança da ONU em reagir a isto. Agora está claro que os Estados Unidos e Israel, e alguns poderiam suspeitar de Arafat também, tramaram para suprimir a investigação.

De um lado, a tática israelense foi a de exagerar as declarações que os palestinos fizeram sobre Jenin, dizendo que alguns falam em milhares de mortos (não houve esta acusação), e de outro, os israelenses estão dizendo que se eles não massacraram deliberadamente centenas de civis então não houve crimes de guerra em absoluto e não há o que se perguntar. Muito tem sido feito com os relatos de que "somente" 50 corpos foram encontrados. Os primeiros relatos que ouvi de Jenin, de Kathy Kelly e Jeff Guntzel, inclusive com fotos de funerais, são que as pessoas, não podendo mais esperar pela ajuda internacional que não chegava nunca, estavam enterrando seus mortos. Na área que foi descrita por muitas testemunhas como semelhante a uma região sacudida por um forte terremoto, as pessoas estavam cavando com as mãos nuas e não conseguiam chegar aos porões onde, segundo disseram, famílias inteiras estavam escondidas. Israel continua não permitindo que equipamentos pesados entrem no acampamento. E os relatos de que Israel levou os corpos também precisam ser investigados.

A Anistia Internacional, entre outros, enviou peritos a Jenin e eles relataram as evidências de "graves crimes de guerra", dentre os quais a negativa deliberada de socorro médico aos feridos por quase duas semanas. Só isto já se constitui em séria violação à  4ª Convenção de Genebra.

Foi um general israelense quem primeiro disse que centenas foram mortas em Jenin e os palestinos sempre disseram que a história completa não será conhecida até que seja investigada. Infelizmente é provável que a investigação não aconteça agora, porque Israel simplesmente se negou a permitir a equipe da ONU. Depois de acomodar todas as exigências de Israel sobre a composição da comissão, o secretário geral da ONU, Kofi Annan simplesmente desistiu pois Israel continuou acrescentando novas condições.

Como de costume, o flagrante desafio de Israel às determinações da ONU permanecerá sem resposta. Ao mesmo tempo, o povo iraquiano que sofreu mais de uma década de sanções fatais, supostamente por que seu governo se recusou a cooperar com os inspetores da ONU, são, mais uma vez, ameaçados com a guerra.

Israel diz que só quer que a equipe de investigação da ONU seja "profissional", com especialistas militares e não aceitou os diplomatas internacionais de reputação impecável que foram indicados por Annan para chefiar a equipe.  Temos que nos lembrar do aconteceu com a morte de 106 refugiados libaneses   no ataque da artilharia israelense à base da ONU em Qana, no sul do Líbano, em abril de 1996, para saber que Israel não está interessado em profissionalismo ou qualquer coisa do gênero que possa trazer a verdade. A comissão de investigação indicada pelo então secretário geral, general Boutros Ghali, foi, na verdade, chefiada por um general holandês, um especialista em artilharia. Quando o relatório concluiu que a alegação de Israel de que o ataque tinha sido um acidente não era aceitável, os Estados Unidos tentaram enterrar o relatório e Boutros Ghali, que insistia na sua publicação, perdeu o emprego.

Israel alegou que tinha receio de que seus soldados seriam processados se testemunhassem diante da comissão de investigação e exigiu que eles tivessem imunidade. Não é isto que está por trás do medo israelense.

Em 26 de abril, o Washington Posto citou a conversa de soldados israelenses sobre Jenin. Apesar dos esforços de dar uma volta em seus atos, surgiu claramente um quadro terrível de violência maciça e indiscriminada.

"As ordens eram para atirar em cada casa", lembrou-se um sargento, membro de uma companhia de armamento pesado do regimento Yoav da 5ª Brigada do exército, uma unidade de reserva que fez o grosso dos combates em Jenin. "As palavras na rádio eram 'Ponham uma bala em cada janela'".

"O sargento, que pediu para não ser   identificado, disse que ele teve problemas com as ordens que não pediam que os soldados vissem os atiradores que eles estavam tentando matar. Mas ele disse que os soldados israelenses não hesitaram. Eles puseram abaixo um grupo de casas - a suposta fonte do fogo palestino - com metralhadoras calibre 50, rifles M-24, rifles Barrett e lançadores de granada Mod3."

"Não é verdade que tenha havido um massacre, pois os rapazes não atiraram em civis", lembrou-se o sargento. "No entanto - e isto é terrível - é verdade que atiramos nas casas e Deus sabe quantas pessoas inocentes foram mortas." (Mal Preparado para uma Batalha Inesperada; Reservistas Israelenses Falam sobre o Ataque ao Acampamento de Jenin, 26/04/02)

Não espanta que o governo israelense esteja tão assustado com relação a qualquer inquérito que interrogue seus soldados. Alguns deles poderiam dizer a verdade. E se eles tiverem imunidade, então suas consciências talvez falem realmente. Mas, aqueles que deram as ordens estarão comprometidos.

Observar como Sharon tem a permissão de fazer o que ele fez no Líbano, enquanto os americanos providenciam os meios para instigá-lo, os europeus lavam as mãos e os árabes gesticulam inutilmente, me deixa com um nó de raiva que não sei como expressar. Se isto é doloroso para nós, o que não dizer para os sobreviventes de Sabra e Shatila ao ouvirem as mesmas palavras, verem os mesmos rostos, as mesmas imagens? Ou para os palestinos dos territórios ocupados, cujo sofrimento é tão grande que o único conforto vem da esperança de que um dia a verdade e a justiça triunfarão?

Devemos nos preparar para o pior: o Congresso americano está prestes a aprovar resoluções que vilipendiam os palestinos e exaltam Sharon. Isto somente animará mais ainda os generais israelenses, dentre eles, aqueles que defendem a limpeza étnica estão ganhando terreno.

Sim, isto me faz ficar enraivecido. Mas, por mais difícil que seja, precisamos pegar esta raiva e transformá-la em trabalho árduo, para continuar a contar a verdade, a lutar pela paz, a continuar usando nossas vozes em nome daqueles que foram silenciados.

Enquanto eu estiver furioso não perderei a esperança e nem qualquer um de nós. Nestas poucas semanas estive em muitos lugares deste país e dei muitas palestras. A pesar dos melhores esforços de Israel e de seus defensores para esconder a verdade, existe muito mais sabedoria e conhecimento nesta terra do que se pode imaginar ao ouvir nossos líderes, ler sua imprensa amarela ou assistir aos talk-shows da extrema-direita nos canais a cabo, onde cada porta-voz israelense é mimado e festejado e todo dissidente maltratado e atacado.

Quem pode duvidar que Israel tem alguma coisa a esconder? De uma forma ou de outra a verdade aparecerá e todos os terríveis crimes cometidos não ficarão impunes.

Ali Abunimah http://www.abunimah.org



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