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ATUALIDADES

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TALVEZ OS JUDEUS NÃO QUEIRAM OLHAR PARA ISTO

Por Robert Fisk

Terça-feira, em Israel, é o Dia do Holocausto: e também o aniversário de um massacre ocorrido em 1948, que deu origem à crise de refugiados palestinos que está no centro do conflito de hoje. Robert Fisk se encontra com um sobrevivente de Auschwitz, morando no local da atrocidade.

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"Vou lhe mostrar o meu museu", diz Josef Kleinman, e corre para dentro de um cômodo. Volta com uma velha e desbotada mochila cáqui. "Esta é a camisa que os americanos me deram depois que fui libertado de Landsberg, em 27/04/45." É uma camisa barata, amarrotada, cujo rótulo agora é ilegível. Então ele pega um conjunto de listras azuis e brancas e um chapéu com as mesmas listras correndo da frente para trás. "Este é o meu uniforme de prisioneiro de Dachau."

Familiar em todo noticiário, e na Lista de Schindler, e em mais 100 outros filmes sobre o Holocausto, é um choque tocar - segurar - este símbolo de destruição de um povo. Josef Kleinman me olha enquanto seguro o uniforme. Ele compreende o meu choque. Na parte da frente do uniforme tem o número 114986.

Na entrada do seu prédio de apartamentos, estão pregados anúncios lembrando aos inquilinos do próximo Dia do Holocausto. Givat Shaul é um bairro simpático e inteligente de casais aposentados, pequenas lojas, apartamentos, árvores e algumas antigas casas elegantes de pedra amarela. Algumas delas estão em estado de deterioração, poucas estão habitadas. Mas uma ou duas guardam as marcas das balas disparadas há muito tempo atrás, em 9/04/48, quando um outro povo enfrentava sua própria catástrofe.

Porque Givat Shaul era chamada de Deir Yassin. E foi aqui, há 54 anos atrás, que mais de 130 palestinos foram massacrados por duas milícias judaicas, a Irgun e a Stern Gang, enquanto os judeus da Palestina lutavam pela independência de um estado chamado Israel. O assassino aterrorizou tanto a milhares de palestinos árabes que eles foram obrigados a uma fuga em massa de suas casas - 750.000 ao todo - para criar a população de refugiados cuja tragédia é o cerne do atual conflito no Oriente Médio.

Voltando a 1948, as mulheres palestinas foram dilaceradas pelas granadas em torno das casas antigas que ainda existem em Givat Shaul. O equivalente a duas caçambas de caminhão cheias de prisioneiros árabes foram tiradas da aldeia e marcharam pelas ruas de Jerusalém. Mais tarde, muitos deles foram executados em Deir Yassin. Acredita-se que a sepultura coletiva esteja embaixo de um depósito de gasolina, que agora está em um dos cantos do subúrbio de Jerusalém.

Portanto, visitar a casa do sr. Kleinman levanta uma grave questão moral. Podemos ouvir o seu testemunho pessoal sobre o maior crime da história moderna e em seguida questionarmos se a tragédia que oprime os palestinos deste lugar - quando a expulsão dos árabes da Palestina, segundo nosso entendimento, foi um ato de limpeza étnica - não se compara, seja estatística ou moralmente, ao assassinato de seis milhões de judeus? Será que ele sabe que este ano, por uma terrível ironia da história, o Dia do Holocauso e o Dia de Deir Yassin caem na mesma data?

O sr. Kleinman não é um sobrevivente comum do Holocausto. Ele foi o mais jovem sobrevivente de Auschwitz e foi testemunha no julgamento de Adolf Eichmann, o chefe do programa de Hitler para assassinar os judeus da Europa. De fato o sr. Keinman viu o dr. Mengele, o "Anjo da Morte", selecionar as crianças, mulheres, velhos e doentes que iam para as câmaras de gás. Certo dia, aos 14 anos, ele viu quando Mengele chegou em uma bicicleta e ordenou a um menino que prendesse uma tábua de madeira no poste. A seguir, a transcrição de uma parte do testemunho de Kleinman no julgamento de Eichmann:

"Não nos disseram o que estava para acontecer mas sabíamos. Os meninos que alcançassem a tábua seriam poupados. Aqueles cujas cabeças não atingissem a madeira seriam enviados para as câmaras de gás. Nós todos tentamos nos esticar para que ficássemos mais altos. Mas eu desisti. Vi que os meninos mais altos do que eu não conseguiam tocar a tábua com suas cabeças. Meu irmão me disse, 'Você quer viver? Sim? Então faça alguma coisa.' Pus minha cabeça para funcionar. Vi algumas pedras. Coloquei-as dentro de meus sapados e isto fez com que ficasse mais alto.

O irmão de Kleinman, Shlomo, rasgou seu chapéu pela metade e Josef recheou os sapatos com uma parte. Ele ainda ficava muito pequeno, mas mesmo assim conseguiu "se infiltrar" no grupo que tinha passado no teste. O restante dos meninos - mil ao todo - foram mortos nas câmaras. Mengele, Josef kKleinman se lembra, escolheu um feriado judeu para a morte em massa das crianças judias. Os pais de Kleinman, Meir e Rachel, e sua irmã foram enviados diretamente para as câmaras de gás, assim que a família chegou a Auschwitz, vinda das montanhas cárpatas, onde hoje é a Ucrânia. Ele sobreviveu, juntamente com seu irmão - que hoje, um carpinteiro como Josef, vive a alguns metros no mesmo bairro de Givat Shaul/Deir Yassin. Josef sobreviveu a Dachau e ao árduo trabalho de construção de um bunker para uma fábrica secreta de Hitler, construída para a produção de um novo avião de guerra, o Messerschimitt ME262.

Depois de sua libertação pelos americanos, Josef Kleinman foi para a Itália e em seguida pegou um pequeno barco que o colocou a bordo de um navio para Palestina, que levava judeus imigrantes ilegais que tentavam entrar no território no apagar do mandato britânico. Ele só pôde levar umas poucas coisas mas quis levar o uniforme de Dachau em sua mala - nunca mais se esqueceria do que tinha acontecido a ele. Mandado de volta pelos britânicos, ele passou seis meses no campo de Famagusta, em Chipre, e finalmente no campo para imigrantes de Atlit, na Palestina. Ele chegou a Jerusalém em 15/03/47, e estava lá quando estourou a guerra de independência de Israel. Ele lutou na guerra - mas não em Deir Yassin. Ele gentilmente menciona o nome. Josef e sua esposa, Haya, inclinam a cabeça imediatamente.

"Existem coisas que foram escritas sobre Deir Yassin que estão erradas", disse ele. "Eu estava em Jerusalém e vi quando os prisioneiros daqui chegaram lá. Alguns relatos dizem que os árabes foram mortos, outros que não foram. Nem todas as pessoas foram mortas. Existe muita propaganda. Eu não sei. Os árabes mataram seus prisioneiros judeus. Não teve muita luta para que os árabes partissem."

Mas, será que a visão daqueles árabes partindo não lhe fornece qualquer espécie de paralelo com sua própria vida - mesmo que pálido, dado que um desastre numericamente maior e infinitamente mais sangrento que atingiu aos judeus? Ele pensa nisto por um instante. Ele diz que não viu muitos árabes refugiados.Foi sua esposa, Haya quem respondeu. "Acho que depois do que aconteceu a ele - que foi insuportável - qualquer coisa no mundo parece ser de menos importância. Você deve compreender que Josef ainda vive naquele tempo, no tempo do Shoah (Holocausto). Dos 29.000 judeus trazidos a Dachau vindos de outros campos, a maior parte deles de Auschwitz, 15.000 morreram."

Mas, é só  a enormidade de um crime e sua comparação estatística com o êxodo de palestinos em 1948? Um grupo de judeus, muçulmanos e cristãos estão conduzindo uma campanha para que Deir Yassin seja lembrada - mesmo agora, em meio à última guerra nnno que foi a Palestina. Em Londres, hoje, os mortos de Deir Yassin serão lembrados na igreja de St. John, às 18:00h. Também serão lembrados em Washington e Melbourne e em Jerusalém. Como seus organizadores dizem, "muitos judeus podem não querer olhar para isto, temendo que a magnitude de sua tragédia possa ficar ofuscada. Para os palestinos sempre haverá o temor de que, como já aconteceu muitas vezes, o Holocausto possa ser usado para justificar seu sofrimento."

Os Kleinmans não sabem desta comemoração - nem dos planos para a construção de um memorial aos palestinos mortos neste pequeno subúrbio de Givat Shaul. Josef Kleinman não falará sobre sobre o banho de sangue na Israel/Palestina de hoje. Mas ele admite que ele "tem razão" e por isso votou em Ariel Sharon. "Tem outro homem?", pergunta ele.

Publicado no The Independent, em 07/04/02

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