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ATUALIDADES

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SR. POWELL, O SENHOR NÃO É BEM VINDO

Por Ramzy Baroud (*)

Os árabes são conhecidos por sua generosidade. Eles recebem seus convidados de braços abertos, fazem de tudo para servi-los e querem ter a certeza de que seus convidados serão bem recebidos. É bem conhecida a tradição árabe de que quando um estrangeiro precisa de um lugar para ficar, o árabe é obrigado a hospedá-lo durante três dias antes mesmo que se pergunte o nome do convidado. Mas, ainda que os árabes possam ser os senhores da generosidade, eles não são estúpidos.Portanto, apresento minhas sinceras desculpas por quebrar esta grande tradição. Sr. Colin Powell, odeio ter que lhe dizer isto, mas o senhor não é bem vindo.

O senhor não é bem vindo porque o senhor veio dançar sobre nossas feridas, o senhor esperou que nós sangrássemos até a morte e esperou até que o nosso presidente fosse humilhado, o senhor veio nos dizer para acabar com a violência contra Israel enquanto nós mal tivemos a oportunidade de cavar covas coletivas onde Israel enterrou nossos melhores homens e mulheres.

O senhor não é bem vindo porque não se importa com o meu povo, porque eles terão muito pouco a dizer nas próximas eleições para o Congresso, sem dinheiro, sem votos, sem estrategistas de mídia. Eles são só refugiados, nascidos e criados como refugiados, a vida para eles é tão miserável quanto a morte. Mas, por que o senhor deveria se importar? O senhor já os responsabilizou por tudo, o senhor condenou o direito deles de se defenderem e permitiu que o Açougueiro de Beirute os esfaqueasse sem dó nem piedade, e o senhor ficou de longe e esperou, e esperou.

Quando o primeiro-ministro israelense, Ariel Sharon, desencadeou sua invasão maciça à Cisjordânia, muitos sabiam que o general israelense tinha o sinal verde americano. O senhor disse que seu país sabia, embora o senhor fosse condescendente o suficiente para dizer à imprensa que a missão de Sharon era somente "isolar Arafat" e não matá-lo. Como o senhor é virtuoso!

Quando Sharon liderou a maior ofensiva militar contra os palestinos em décadas, o senhor ficou com o presidente Bush e aplaudiu. Vocês realmente trabalham bem juntos, Sharon mata e o senhor e Bush se preocupam com Israel. "Israel tem o direito de se defender", o senhor se vangloriou, "os palestinos devem acabar com o terror", o senhor justificou, enquanto os cadáveres de homens, mulheres e crianças palestinos apodreciam nas ruas de Ramallah e enquanto policiais foram encontrados executados enquanto sorviam chá nos prédios abandonados.

O mundo inteiro condenou as ações de Sharon e exigiu uma retirada imediata, enquanto o senhor condenava Arafat e exigia uma retirada moderada "assim que possível". O senhor trabalhou arduamente na ONU para bloquear as tentativas de se aprovar uma resolução que exigisse a retirada israelense. Graças ao senhor, a resolução 1402 foi aprovada, condenando a resistência palestina primeiro, e depois pedindo a retirada israelense de Ramallah.

A coordenação entre seu governo e Israel ficou muito clara, era como um esquema bem estruturado em que o senhor mostrou ser um político prudente e não só um militar.

O esquema podia não ter funcionado tão bem em seus últimos estágios porque os Estados Unidos esperavam por um rápido mini genocídio e Sharon estava buscando grandes armas. Veja o senhor, Sharon em mais de 50 anos de carreira matou palestinos, começando com os massacres de Qbyia e Bureij, nos anos 50, depois o massacre de Sabra e Chatila, onde ele abateu mais de 4.000 palestinos e libaneses civis. Realmente ele adquiriu o gosto pelo sangue árabe. Mas, olhe para mim, estou lhe ensinando de novo, ensinando alguém que deve ter lido bastante a respeito da carreira sangrenta do homem

Contudo, o senhor apoiou a "guerra contra o terror" dele, o senhor o deixou solto nos campos de refugiados, matando inocentes, roubando lojas, queimando centros comerciais, como só os bárbaros como ele e seu exército fazem.

Então, o senhor discordou de Sharon, não quanto ao conteúdo e sim quanto à forma. É verdade que Israel tem o direito de se defender, o senhor disse, mas já era tempo de partir, pois seus interesses na região tornaram-se um perigo. Na verdade, não foi o sangue palestino que o moveu. O senhor temia que McDonalds e GMC e outras grandes corporações operando no Oriente Médio pudessem sofrer em razão do ódio árabe. Mas, apesar da suposta discordância, o senhor não mencionou uma única vez a necessidade de Israel se retirar, pelo contrário, o senhor repetiu, como um disco quebrado, que a violência palestina tinha determinado que Israel se defendesse.

E, enquanto os corpos de centenas de palestinos se decompunham em Jenin e Nabulus, e enquanto Sharon dava os toques finais, o senhor vem a região, devagar, dando voltas, disfarçado de pacificador. A distância do Marrocos para o Egito, Espanha e Jordânia, por certo que não é a mais curta e a mais rápida para Jerusalém. O senhor esperava que Sharon tivesse feito o serviço e assim o senhor não teria que lidar com qualquer discordância com os senhores da guerra israelenses, assim que chegasse a Jerusalém.

Sr. Powell, o senhor é cúmplice neste crime de guerra israelense. O senhor é culpado por participar da destruição de minha pátria e pelo sinal verde de seu governo. O senhor é culpado por espalhar mentiras para o seu povo, convencendo-o de que a morte de inocentes é definida como guerra ao terror, que a violação da lei internacional, cercar um presidente, deixando-o sem comida e remédios, que os toques-de-recolher impostos a toda a nação, tudo são atos legítimos de autodefesa.

E agora aqui está o senhor, para nos ensinar como viver em paz, o senhor veio como um pacifista, em missão de paz, com uma mensagem de paz. Mas, todos nós sabemos que isto é uma mentira e que o senhor sabia muito bem o que a guerra de Sharon significava, seus custos e suas vítimas.

Não lhe desejo uma boa viagem de volta para casa e também não quero que seus McDonalds e suas refinarias de petróleo cresçam e prosperem. O sangue de meu povo vale muito mais do que seus hambúrgueres, sua gasolina e suas eleições parlamentares. Por favor, deixe-nos em paz  para contarmos nossos mortos. Sr.Powell, o senhor não é bem vindo.

Sexta-feira, 12/04/02

Ramzy Baroud é Editor-chefe do Palestine Chronicle e pode ser contactado  em
ramzy5@aol.com

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