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ATUALIDADES

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MEDO E APRENDIZADO NA AMÉRICA

Como crítico declarado da política americana para o Oriente Médio, Fisk esperava uma recepção hostil quando fez sua primeira visita ao meio-oeste americano desde 11 de setembro. Não podia estar mais equivocado.

... Há anos que viajo pelos Estados Unidos, fazendo palestras em Princeton ou Harvard ou na Universidade Brown, Rhode Island, ou São Francisco, ou Madison, Wisconsin. Deus sabe o por quê. Eu recuso todo pagamento e faço apenas uma viagem rápida de Beirute, porque não posso levar 14 horas com bebês berrando em cada direção. Os universitários americanos são osso duro de roer e aborrecidos como repolhos e em algumas cidades - Washington está no topo da lista - eu poderia falar também o amharic (língua oficial da Etiópia). Se você não usar frases como "processo de paz", "Israel cercada", há como que uma espécie de apagão computadorizado nas faces da platéia. Tilt no computador. Por que desta vez deveria ser diferente?

Certo, havia as extravagâncias de costume. Havia o velho negro, cuja primeira "questão" sobre o Oriente Médio, numa palestra realizada na Universidade de Chicago, foi um longo e orgulhoso anúncio de que ele não pagava impostos desde 1948 - uma alegação tão maravilhosa que eu me abstive da tentativa de cair em cima dele. Havia os conspiracionistas do WTC, que insistiam na tese de que o governo dos Estados Unidos tinha espalhado explosivos nas duas torres. Havia uma mulher de cabelos grisalhos que queria saber o que Deus poderia ter feito para resolver o ódio entre israelenses e palestinos. E um índio americano de Los Angeles, que arengava sobre um conspiração judaica para privar seu povo de sua terra. Um homem de óculos, de cabelos compridos amarrados em rabo de cavalo , interrompeu o índio para dizer que a guerra israelo-palestina era igual à guerra dos Estados Unidos com o México que privou seu povo de ..., bem, de Los Angeles. Comecei a calcular a distância entre Los Angeles e Jenin. Uma galáxia, talvez.

E havia as historinhas que mostravam como a imprensa americana ficou preconceituosa e covarde diante do lobby de grupos israelenses dos Estados Unidos. "Escrevi um artigo para um importante jornal sobre o êxodo palestino de 1948", me disse uma judia, enquanto dirigíamos pela neblina de Los Angeles. "E, claro, que citei o massacre dos palestinos em Deir Yassin pela Stern e por outros grupos judaicos - o massacre que levou 750.000 árabes a fugirem de suas casas. Então, procurei pela minha história no jornal e o que encontrei? A palavra 'suposto' tinha sido inserida antes da palavra 'massacre' porque, assim, eles achavam que evitariam uma enxurrada de cartas criticando a matéria."

Por acaso, este era o tema de minhas palestras: a forma covarde, descansada e pusilânime como os jornalistas americanos estão 'lobotomizando' suas estórias sobre o Oriente Médio, como, em seus relatos    "territórios ocupados" se transformaram em "territórios em disputa", como  "assentamentos" judaicos viraram "arredores" judaicos, como os militantes árabes são "terroristas" mas os militantes israelenses são apenas "fanáticos" ou "extremistas", como Ariel Sharon - o homem considerado "pessoalmente responsável" pela Comissão de Inquérito israelense pelo massacre de 1.700 palestinos de Sabra e Shatila, em 1982 - foi descrito em artigo do The New York Times como tendo instinto de "um guerreiro". Como a execução de militantes palestinos sobreviventes foi muitas vezes chamada de "varredura". Como civis mortos por soldados israelenses foram apanhados em "fogo cruzado". Quis saber de minhas platéias - e esperava a costumeira indignação americana quando assim fiz - como os cidadãos americanos aceitam os infantis "vivo ou morto", "conosco ou contra nós", política do "eixo do mal" de seu presidente.

E pela primeira vez em mais de uma década de palestras nos Estados Unidos, fiquei chocado. Não pela passividade dos americanos - a noção patriótica que o presidente conhece melhor - nem pelo perigoso instinto de conservação dos americanos desde 11 de setembro e do medo constante e devorador de criticar Israel. O que me chocou foi uma extraordinária postura  nova em não querer prosseguir nesta linha oficial, uma consciência crescente e irada entre os americanos de que eles foram enganados. Em algumas de minhas conversas, cerca de 60% da platéia tinham mais de 40 anos. Em alguns casos, talvez 80%, eram  americanos sem raízes étnicas ou religiosas no Oriente Médio - "os americanos americanos", como cruelmente me referi a eles certa vez, "americanos brancos", como um estudante palestino os chamou de forma mais truculenta. Pela primeira vez, eles não se opunham às minhas palestras e sim aos discursos de seu presidente e ao que liam em sua imprensa sobre a "guerra contra o terror" de Israel e a eterna necessidade de apoiar, sem qualquer crítica, tudo o que o aliadozinho da América no Oriente Médio diz e faz.

Houve, por exemplo, um ex-oficial da Marinha de rosto encarquilhado, que se aproximou de mim depois de uma palestra na igreja metodista de San Diego, no subúrbio de Encinitas. "Senhor, eu era um oficial no porta-aviões John F. Kennedy durante a guerra de 1973, no Oriente Médio", começou ele (verifiquei depois quem era ele e meu anfitrião observou que era verdade). "Nós estávamos estacionados em Gibraltar e nossa tarefa era recarregar os caças que mandávamos para Israel depois de sua força aérea ter sido acertada pelos árabes. Nossos aviões já aterrissavam com as marcas da Força Aérea dos Estados Unidos e da Marinha de um lado e do outro a Estrela de David pintada. Alguém sabe por que demos todos aqueles aviões para os israelenses desse jeito? Quando vejo na televisão nossos aviões e tanques sendo usados para atacar os palestinos, posso compreender por que as pessoas odeiam os americanos."

Nos Estados Unidos, estou acostumado a falar para salas meio vazias. Há três anos atrás, consegui encher um auditório em Washington de 600 lugares com apenas 32 americanos. Mas em Chicago e no Iowa, e em Los Angeles este mês, as pessoas vieram às centenas - quase 900 de uma vez, na Universidade Southern California - e se sentaram nos corredores e do lado de fora das portas. E não porque o sr. Fisk estava na cidade. Talvez o título de minha palestra - "11 de Setembro: pergunte quem fez isto, mas, ó céus, não pergunte o por quê" - tenha sido provocativo. Mas, eles vieram, como o espaço para perguntas e respostas rapidamente mostrou, porque estavam cansados de ser sugados pelas redes de notícias de televisão e pela plutocracia da direita.

Nunca antes me perguntaram: "O que podemos fazer para que nossa imprensa fale sobre o Oriente Médio de uma forma mais justa?" ou - muito mais perturbador -"O que podemos fazer para que o nosso governo seja o reflexo de nossa visão?" As perguntas são uma armadilha, é claro. Os britânicos vêm empurrando um aviso para os Estados Unidos desde quando nós perdemos a Guerra de Independência, e eu não vou me juntar a eles. Mas, o fato de que estas perguntas pudessem ser feitas - de um modo geral por americanos de meia idade, sem raízes no Oriente Médio - sugerem uma profunda mudança numa população até agora dócil.

Perto do final de cada palestra, eu pedia desculpas pelas observações que tinha feito. Eu disse às platéias que o mundo não mudou em 11 de setembro, que 17.500 libaneses e palestinos foram mortos durante a invasão israelense de 1982 - mais de cinco vezes o número de mortes do crime internacional contra a humanidade de 11 de setembro - mas que o mundo não tinha  mudado há 20 anos atrás. Não houve velas e nem serviços fúnebres. E cada vez que eu dizia isto, havia um aceno de cabeças - com cabelos grisalhos e sem cabelos, assim como de jovens também - por toda a sala. A mais insignificante irreverência sobre o presidente Bush foi muitas vezes seguida de vaias. Perguntei a um dos meus anfitriões por que isto estava acontecendo, por que a platéia aceitava isto de um britânico. "Porque achamos que Bush não venceu a eleição", ele respondeu.

É fácil ser enganado, claro. Os shows da primeira estação de rádio local ilustrou tudo isto muito bem, a forma como o discurso sobre o Oriente Médio é tratado na América. Quando Gayane Torosyan abriu o WSUI/KSUI para perguntas em Iowa, um ouvinte, de nome "Michael" - um líder da comunidade judaica local, soube mais tarde, embora não tenha dito isto no ar - insistiu que depois das negociações de Camp David, em 2.000, Iasser Arafat voltou-se para o "terrorismo", apesar de lhe ter sido oferecido um estado palestino com capital em Jerusalém e 96% da Cisjordânia e Faixa de Gaza. Calma e deliberadamente eu desconstruí este absurdo. Jerusalém deveria ser a "eterna e unificada capital de Israel", de acordo com Camp David. Arafat só conseguiu o que Madeleine Albright chamou de "um tipo de soberania" na área da mesquita de Haram al-Sharif e de algumas ruas árabes, enquanto o parlamento palestino deveria ficar abaixo dos muros na parte leste da cidade, em Abu Dis. Com as fronteiras ampliadas e ilegais da municipalidade de Jerusalém dentro da Cisjordânia, os assentamentos como Maale Adumin não foram negociados e nem vários outros assentamentos. Nem a zona tampão militar israelense em torno da Cisjordânia, nem as estradas dos colonos, que cortariam o "estado" palestino. A Arafat foi oferecido cerca de 46% dos 22% do que restou da Palestina. Eu podia imaginar o impacto desses dados sobre a audiência do WSUI/KSUI.

Enquanto isso, o proprietário, e a esposa, do agradável hotel de madeira em que eu estava hospedado - um oficial voluntário da era Kennedy - tinha ouvido cada palavra. "Nós sabemos o que está acontecendo", disse ele. "Eu era da Marinha estacionado no Golfo nos anos 60 e só tínhamos alguns navios lá. Naqueles dias, o xá do Irã era nosso guarda. Agora temos todos aqueles navios lá e nossos soldados nos países árabes e achamos que dominamos o lugar." Osama bin Laden, pensei comigo mesmo, não podia ter dito melhor.

Que estranho, refleti, que os jornais americanos raramente falem sobre isto. O Daily Iowan - não há mais do que 4 diários no estado, a liberdade de imprensa sendo representada pelo número de jornais e não pela qualidade da cobertura - não tinha nada do vigor do proprietário do meu hotel.   "A situação no Oriente Médio é uma daquelas que muitos americanos não compreendem adequadamente", lamentou entristecido, "nem sequer podem argumentar apropriadamente". Este lixo - os americanos estavam muito aturdidos para compreender o banho de sangue no Oriente Médio e portanto deveriam manter suas bocas fechadas - foi um tema constante dos editoriais. Ainda mais instrutivo foram os artigos sobre minhas palestras.

A manchete "Fisk: Quem, na verdade, são os terroristas?" no Daily Iowan da semana passada pelo menos conseguiu acertar a essência de minha mensagem e incluiu meus próprios exemplos de preconceito da imprensa americana sobre o Oriente Médio, embora tenha errado sobre os fatos, relatando, de forma equivocada, que foi a ONU  (e não a Comissão Kahan israelense) quem concluiu que Sharon foi "pessoalmente responsável" pelo massacre de Sabra e Shatila. O relato do Des Moines Register sobre uma de minhas palestras foi intrigante. Concentrou-se nas entrevistas com Osama bin Laden - que efetivamente citei em minha palestra - para depois referir-se ao meu relato de como a multidão afegã me surrou em dezembro último. Eu disse à platéia americana que os afegãos estavam com raiva por causa dos bombardeios americanos, que tinham matado seus parentes em Kandahar e como era importante incluir este fato em meu próprio relato da batalha - para explicar o contexto e as razões da ira dos afegãos contra mim. O Register usou minhas palavras para descrever o ataque mas, em seguida, não fez qualquer menção às razões. Viva!, pensei, à imprensa de Iowa, cuja manchete "Repórter do Oriente Médio Desanca a Mídia" - ganhou um ponto.

Não que a população do Iowa tenha desculpa para não conhecer a situação no Oriente Médio. Na pequena cidade de Davenport, os israelenses foram treinados para pilotar os helicópteros Apache AH-64, usados para assassinar os palestinos da lista de procurados de Israel. De acordo com um jornalista local, várias companhias do Iowa, inclusive o escritório regional da Rockwell, envolveram-se em contratos milionários com Israel. A CemenTech de Indianola fornece equipamento para a força aérea de Israel. No dia em que cheguei a Iowa City, John Ashcroft estava contando à cidade que uma centena de estrangeiros "de países conhecidos como asilo para terroristas" tinham sido interrogados no estado. Uma outra centena provavelmente seria "entrevistada" em breve. Não houve qualquer comentário editorial a respeito.

Assim, as classes da Universidade estavam ocupadas. Uma jovem começou anunciando que ela sabia que a mídia americana era preconceituosa. Quando lhe perguntei por que, ela disse que "isto tem a ver com o apoio da América a Israel ..." e, em seguida, com o rosto vermelho, ela se calou. Nem tanto assim foi o estudante de estudos globais da Rex Honey. Depois de eu ter resumido a armadilha militar para a qual os americanos foram arrastados no Afeganistão - a suposta "vitória" seguida de compromissos posteriores com al-Qaeda e depois, inevitavelmente, as batalhas diárias com os senhores da guerra afegãos e ataques contra os soldados ocidentais - ele pôs as mãos ao alto. "Então, como os derrotamos?", perguntou ele. Houve um murmúrio afável pela sala. "Por que você quer 'derrotar' os afegãos?" perguntei. "Por que não ajudá-los a construir uma nova terra?" O estudante veio até mim mais tarde, de mãos estendidas. "Queria agradecer-lhe por tudo o que o sr. nos disse." Suspeitei que ele era um militar. "Vocês está pensando em entrar para o exército?", perguntei. "Não, senhor", ele respondeu, "estou pensando em me juntar aos fuzileiros."

Eu o aconselhei a ficar ao largo do Afeganistão. A seu próprio modo, a imprensa americana nacional estava fazendo o mesmo. Dois dias mais tarde, o Los Angeles Times, em um notável comunicado de seu correspondente, David Zucchino, falava sobre a amargura e raiva que dominam os afegãos cujas famílias foram mortas nos ataques aéreos dos B-52 americanos. Segundo o repórter, a recente batalha americana em Gardez deixou "amargura em sua esteira".

Se somente a mesma franqueza fosse aplicada à guerra israelo-palestina! Mas, por Deus, não. Na auto-estrada para Long Beach, na sexta-feira, abri o LA Times para tomar conhecimento de que Israel "liquida (sic) a Cisjordânia", enquanto a colunista Mona Charem dizia a seus leitores de outros jornais que 98% dos palestinos não vivem mais sob ocupação israelense desde que Israel saiu de lá em razão dos acordos de Oslo" e que o primeiro-ministro israelense da época, Ehud Barak, tinha oferecido a Arafat "97% da Cisjordânia e Gaza". Era 1% mais alto do que a estatística de "Michael" na rádio WSUI/KSUI. Arafat - "este assassino com a morte de milhares de judeus e árabes em suas mãos - é o responsável. A questão entre Israel e seus vizinhos, Charen asseverou, "não é a ocupação, não são os assentamentos e certamente não é a brutalidade e agressão israelenses. É a incapacidade dos árabes de viverem pacificamente com os outros".

Talvez a Califórnia seja organicamente diferente do resto dos Estados Unidos, mas seus jornalistas, assim como seus estudantes, parecem ligeiramente mais espertos do que os do meio-oeste americano. O Orange County Register, um jornal tradicionalmente conservador da região, que hoje possui 50% de latinos, tentou dizer a verdade sobre o Oriente Médio na pessoa de Holger Jensen, que advertiu que se o presidente Bush não refrear Sharon, o primeiro-ministro israelense "será bem sucedido onde Osama bin Laden fracassou: forçar-nos a uma guerra de civilizações contra 1.2 bilhão de muçulmanos". Quando eu almocei com a equipe editorial, eles convidaram três membros da comunidade muçulmana do condado para se juntar a nós.

Coquetéis com amigos da igreja metodista revelaram um bom conhecimento sobre o Oriente Médio - um deles estava profundamente perturbado com uma observação recente do ministro da Segurança Interna de Israel, Uzi Landau, que tinha dito que "não estamos lidando com seres humanos e sim com animais". Um convidado negro recomendou a leitura da crítica de Kofi Annan, secretário geral da ONU, a Israel. No entanto, quando eu coloquei na Fox News, estava Benjamin Netanyahu - repetindo Sharon, declarando que os homens bomba palestinos logo estariam pelas ruas da América - encontrando-se com congressistas para recrutar socorro para a "guerra contra o terror" de Israel, mesmo com o secretário de estado, Colin Powell, estando em Israel.

"Por que a Missão de Israel Deve Continuar", berrava o editorial do The New York Times de sexta-feira. Um longo e cansativo artigo sobre a cruzada de Israel contra o "terror", escrito por um coronel do exército israelense, Nitsan Alon, incluía várias de minhas frases preferidas, inclusive a referência a "um grande número de civis" que foram - sim - "apanhados no fogo cruzado".

Quando eu estava falando para os freqüentadores mais boêmios de um clube de arte em Los Angeles, os jornais que eu estava atacando começaram a  aparecer. Mark Kellner chegou para cobrir para o The Washington Times. "Ele vai costurar tudo o que você disser", observou um amigo. "O Washington Post está à direita do Partido Republicano". Veremos

Mas, se minhas platéias eram compostas em grande parte por americanos sem raízes no Oriente Médio, o mesmo não poderia ser dito a respeito dos coquetéis de domingo na casa de Stanley Sheinbaum, o filantropo, colecionador de arte e libertário - esqueceremos o período em que ele ajudou a dirigir o Departamento de Polícia de Los Angeles - onde meu pequeno discurso deu início a algumas granadas de mão verbais. Sheinbaum foi quem se encontrou com o presidente sírio, Hafez el-Assad, a pedido do presidente Jimmy Carter, organizando uma cúpula extraordinária de Assad com Carter em Gênova. "Diga alguma coisa de bom sobre você", ele me disse. "Você não tem ouvido nada de bom de ninguém?", perguntei. "Não", ele respondeu.

Mas eu gostei de Sheinbaum, um homem rabugento e engraçado, em seus oitenta anos, que estimula todo judeu americano liberal a ter uma opinião a respeito do Oriente Médio. Quando a neblina da hora do almoço envolvesse os jardins de rosas e villas e piscinas e as montanhas de Brentwood, o rabino Haim dov Beliak começou a explicar como ele pretende fechar o bingo e as operações de jogo de um dos maiores construtores de assentamentos judaicos da América. "Me chame quando você voltar para Beirute - com toda certeza escreva sobre isto." Como zombássemos dos morangos de Sheinbaun e sorvêssemos o fino vinho vermelho da Califórnia, um outro rabino se aproximou. "Você terá algumas pessoas hostis em sua platéia", disse ele. "Apenas que eles ouçam a verdade".

E assim fiz. Falei sobre a covardia do secretário Powell, que ficou passeando pelo Mediterrâneo, a fim de dar a Sharon o tempo necessário para destruir o campo de refugiados de Jenin. Falei sobre os corpos podres de Jenin e a evidência crescente de um retorno a 1982, quando aos soldados de Sharon entregaram os sobreviventes do massacre de Sabra e Chatila aos seus torturadores falangistas para serem mortos. Eu disse que nunca ofereceram a Arafat 96% da Cisjordânia, em Camp David. Aconselhei às cerca de 100 pessoas na sala que lessem os corajosos artigos do jornalista israelense Amira Haas, do Haaretz. Falei sobre a sordidez e miséria dos campos palestinos. Falei dos homens bomba como um "mal", mas sugeri que Israel jamais teria segurança enquanto não cumprisse a Resolução 252, do Conselho de Segurança da ONU; que Israel jamais teria paz enquanto não abandonasse toda a Cisjordânia, Gaza, Golan e Jerusalém Oriental.

"Acho muito difícil fazer perguntas, porque o que você disse me fez ter muita raiva", começou uma mulher mais tarde. Por que percebi que os palestinos queriam destruir toda Israel, que o direito de retorno destruiria o estado? Durante uma hora expliquei a realidade que eu presenciei no Oriente Médio; uma Israel toda poderosa fazendo uma guerra colonial nos moldes antigos. Falei sobre a guerra da Argélia, de 1954-62, sua brutalidade e crueldade, a tortura e morte promovidas pelo exército francês, a matança de civis, o paralelo assustador com o conflito israelo-palestino. Falei sobre os palestinos que queriam, pelo menos, a confissão da injustiça que seu povo sofreu em 1948, acrescentando que havia uma grande quantidade de palestinos que percebia que a compensação financeira bastaria para muitos daqueles refugiados cujas casas estavam no que hoje é Israel. Falei sobre Sharon e seu registro sangrento no Líbano. E sobre as pressões do lobby israelense na América, o temor de se ser rotulado de anti-semita e o relato débil sobre o Oriente Médio.

Um rabino foi o primeiro a me dizer, mais tarde, que os palestinos foram vítimas, que eles deviam ter um estado de verdade. Uma senhora me pediu o nome do melhor livro sobre a guerra da Argélia. Eu lhe dei - A Savage War of Peace, de Alastair Horne. Um cartão foi colocado na minha mão. "Conversa reveladora!", escreveu o dono no final do cartão - rancorosa, embora eu prefira a palavra reveladora - não me ajudou saber que o nome no cartão era Yigal Arens, o filho de um dos mais implacáveis ministros de direita, que certa vez me disse - em Beirute, em 1982 - que Israel combateria o terror palestino para sempre.

No caminho para o aeroporto de Los Angeles, terminais e torre de controle surgindo por entre a bruma californiana, dei uma espiada no LA Times de sábado. Um artigo na página 12, dava conta de que o filme vencedor do prêmio da BBC sobre o envolvimento de Sharon nos massacres de Sabra e Shatila tinha sido retirado do festival de cinema do Canadá, após protestos de grupos judeus. Os organizadores explicaram que o "The Accused poderia chamar uma atenção indesejada de grupos de interesse" - qualquer que seja o significado disto. Mas, um parágrafo, ao final do artigo, me chamou a atenção. "Sharon, que era o ministro da Defesa israelense na época, supostamente facilitou o ataque aos campos de refugiados de Sabra e Shatila ..." Aqui estava ela de novo. Supostamente? Quantas cartas iradas esta pequena mentira esperava evitar? Supostamente, de verdade.

Mas, refletindo, não acho que os americanos que eu encontrei se enganariam com isto. Não acho que o proprietário do meu hotel aceitaria o "supostamente". Nem o velho oficial da Marinha do porta-aviões John Kennedy. Nem os ouvintes da KSUI. Nem mesmo Stanley Sheinbaum. Sim, Osama bin Laden me disse que ele achava que os americanos não compreendiam o Oriente Médio. Talvez ele estivesse certo naquela época. Mas, não mais.

17/04/2002

http://argument.independent.co.uk/commentators/story.jsp?story=285777


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