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ATUALIDADES

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BRUTALIZADA PELA GUERRA, TURBA SELVAGEM SE VOLTA CONTRA OS SEUS

Por Robert Fisk, no Hebron 24/04/02

O primeiro corpo estava pendurado de cabeça para baixo, o pé esquerdo amarrado ao poste de eletricidade com arame, a perna direita pendurada em ângulo obsceno, sua cabeça reclinada sobre o que sobrou de uma camisa preta.

Era Mussa Arjub, da aldeia de Dura. O segundo corpo estava infinitamente mais terrível, uma carcaça de açougueiro; de novo, pendurado pela perna esquerda, mas desta vez, o torso quase nu estava despedaçado com marcas de facadas e buracos, dentro dos quais meninos palestinos de 10 ou 12 anos, gritando de prazer, apagavam cigarros. Este era Zuheir al-Mukhtaseb. Sua cabeça estava quase destruída, balançando vagarosamente ao vento, o rosto ainda distorcido pelo terror.

De um modo estranho, ele me lembrou vagamente, aquele quadro terrível do martírio de São Sebastião, cheio de flechas e feridas abertas. Mas Zuheir al-Mukhtaseb foi ultrajado e não honrado, crianças e palestinos de meia idade rugindo com prazer quando as pedras atingiam o cadáver ensanguentado do colaborador.

"Esta é uma lição para todos aqui". Eu me voltei para encontrar um homem de meia idade com uma grande barba castanha, gesticulando em direção a um outro repugnante saco de carne atrás de mim. "Este era Mohamed Debebsi. Esta é uma lição para as pessoas. Todos devem ver isto." Enquanto eu observava, um grupo de rapazes com os rostos arreganhados atirava o cadáver num caminhão de lixo.

O que fazemos quando as pessoas enlouquecem de alegria com tal selvageria? De início, não consegui descrever o que via   mas fiz algumas anotações para me lembrar do que eu estava vendo. "Allahu Albar" - Deus é o maior - rugia aquela terrível multidão. Havia moças no alto dos telhados, rapazes de terno e gravata olhando fixamente para os cadáveres a uns 3 metros de distância, meninos atirando pedras para acabar a decapitação de Zuheir al-Mukhtaseb.

E a rua - vamos chamá-la pelo seu nome e dizer esta pornografia - onde isto aconteceu? "Sharia Salam", Rua da Paz.

Os três homens estavam detidos na prisão local - sentenciados há tanto tempo que muitos na multidão não se lembravam desde quando - por colaborarem com as forças de ocupação de Israel. Será que eles adivinharam seu destino, algumas horas antes, quando ouviram o helicóptero Apache israelense atirando 4 mísseis, as explosões audíveis na prisão da Autoridade Palestina a poucos metros dali? Os israelenses tinham mandado um helicóptero esquadrão da morte para eliminar Marwan Zakum, um dos chefes das Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa, no Hebron, os quatro mísseis (fabricados pela Lockheed Martin, da Flórida, de acordo com os pedaços que eu encontrei) transformando seu carro Mitsubishi numa bola de fogo.

Zakum, que estava com 43 anos e era casado com uma garota chamada Saja, morreu logo - ao coro de prazer do exército israelense. Ele era, disseram, "o equivalente a toda uma milícia armada" - um exagero ridículo - e estava relacionado com os ataques suicidas organizados por seus homens e por "centenas de tiroteios". Por três vezes, a confissão do esquadrão da morte do exército israelense falou de "comunidades judaicas", quando isto quer dizer assentamentos judaicos construídos ilegalmente em terras árabes. E não conseguiu dizer que Samir Abu-Rajab, um amigo de Zakum, foi morto com ele por causa dos mísseis israelenses.

Não importa. Ontem de manhã, às 9:30 h, as Brigadas de Al-Aqsa e provavelmente o Hamas, e sem dúvida uma imensa turba de jovens palestinos, decidiram se vingar dos israelenses matando três de seus colaboradores palestinos que, desamparados, estavam na prisão local. Um engenheiro civil observando a multidão me disse que eles foram arrastados para cena da explosão do carro, linchados pela turba e, em seguida, baleados por atiradores.

Depois de os restos sangrentos de Debebsi serem arremessados na caçamba, o caminhão se dirigiu para o poste onde Mukhtaseb já estava pendurado. Sua cabeça quase separada do corpo como que foi jogada dentro do veículo cinza, e um outro rugido de prazer da turba. Assim, os cidadãos da nascente nação palestina se comportaram ontem com raiva e fúria e o prazer terrível de sua vingança contra Israel, pela morte de Zakum e Abu-Rajab.

No caminho de volta para Jerusalém, pode-se bem imaginar a reação dos habitantes desses assentamentos judaicos ilegais. Selvageria, barbarismo, animais agindo como animais. Sabemos, é claro, o que os palestinos pensavam. Aqueles três homens trabalhavam para Israel, para o país que ocupa seu território há 35 anos. "Provavelmente, eles fizeram isto por dinheiro", resmungou o motorista.

Os três colaboradores eram casados. Disseram em Hebron que eles não tiveram uma sepultura muçulmana. E podemos imaginar quão brutalizados os palestinos estarão antes de herdarem um estado.

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