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ATUALIDADES

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POR QUE A MÍDIA AMERICANA APAGA O DOCUMENTÁRIO SOBRE OS CRIMES DE GUERRA NO AFEGANISTÃO?

Por Kate Randall
21/06/ 2002

Massacre in Mazar, um documentário do diretor irlandês, Jamie Doran,  foi exibido para audiências seletas na Europa. O filme documenta os eventos que se seguiram à queda, em 21/11/2001, de Konduz, a última fortaleza do Taleban, no norte do Afeganistão.

O filme apresenta um relato poderoso de testemunhas afegãs de que soldados americanos colaboraram na tortura e morte de milhares de prisioneiros talebans, próximo a Mazar-i-Sharif. O filme, que serviu de base para os pedidos de criação de uma comissão internacional de inquérito sobre os crimes de guerra no Afeganistão, recebeu ampla cobertura na imprensa européia, com estórias principais no The Guardian, Le Monde, Suddeutsche Zeitung, Die Welt e outros.

No entanto, esta estória principal não recebeu qualquer cobertura dos jornais americanos ou redes de televisão. Afora as estórias surgidas em algumas publicações alternativas da Internet, e um artigo de 16 de junho no Salom.com, a história foi basicamente apagada nos Estados Unidos.

A busca de notícias sobre o filme nos principais diários - inclusive o The New York Times, o Washington Post, o Los Angeles Times, o Chicago Tribune, o Boston Globe e o Miami Herald - mostrou-se infrutífera. Da mesma formaa, os sites da ABC, NBC, CBS, Fox News e CNN também não traziam qualquer informação sobre o documentário.

O WSWS telefonou diversas vezes para essas fontes de notícias, perguntando por que elas não tinham conseguido cobrir a estória, e não obteve resposta. Como é possível que a mídia americana não tenha conseguido cobrir um acontecimento de tal importância? Não há inocentes ou qualquer explicação jornalística.

Esta completa censura política não pode ser justificada com base em que Massacre in Mazar - ou os acontecimentos que o filme mostra - não seja "relevante". As duas exibições na Alemanha deram início a pedidos, por parte de congressistas europeus e defensores dos direitos humanos, de uma investigação independente sobre as atrocidades expostas no documentário. Ao pedir um inquérito, um conhecido advogado de direitos humanos, Andrew McEntee, comentou que estava "claro que, à primeira vista, há uma evidência de que graves crimes de guerra foram cometidos não sob o império da legislação internacional e sim sob as leis dos Estados Unidos".

O filme inclui cenas das consequências do massacre de centenas de soldados do Taleban que tinham sido feitos prisioneiros na prisão de Qala-i-Jangi, nos arredores de Mazar-i-Sharif, mostrando soldados capturados que aparentemente foram baleados com as mãos amarradas. O autor do filme também entrevistou testemunhas oculares que descrevem a tortura e chacina de 3.000 prisioneiros, que supostamente foram levados para uma área deserta e massacrados. Essas testemunhas - que não receberam pagamento - se ofereceram para prestar o testemunho perante qualquer investigação independente sobre os  eventos.

O filme é tão sério que o Pentágono e o Departamento de Estado americanos se viram obrigados a dar uma declaração negando as afirmações sobre a cumplicidade americana na tortura e assassinato de prisioneiros de guerra, conforme apontada no filme. Se o governo dos Estados Unidos está tão interessado nas implicações do que o documentário expõe, por que a mídia americana preferiu não relatar?

Desde 11 de setembro, esta mesma mídia impressa e televisada conformou-se com a linha de propaganda da administração Bush; e não houve escassez de cobertura sobre a guerra afegã. O desprezo do governo pela legislação internacional e as várias convenções de Genebra sobre o tratamento aos prisioneiros de guerra na base naval de Guantanamo, em Cuba, e as propostas para a criação de tribunais secretos não encontraram qualquer obstáculo. Ataques aos direitos democráticos de imigrantes e cidadãos - inclusive detenções secretas e supressão de protestos - foram mostrados como aspectos legítimos da "guerra contra o terrorismo" do governo.

Um tópico que recebeu pouca atenção da imprensa americana é o que se refere ao número de mortes de civis em decorrência dos ataques aéreos americanos  no Afeganistão, que os defensores dos direitos humanos estimam seja mais de 3.500, sem incluir os milhares que morreram em decorrência da fome e deslocamentos.

O conhecida divisa do The New York Times, "Todas as notícias impressas", cada vez mais mascara uma prática daquele diário e de toda a mídia, de escolher editar somente o que se enquadra nas necessidades da propaganda de guerra do Pentágono e da Casa Branca.

A recusa da imprensa em relatar as acusações sobre a cumplicidade americana na tortura e chacina do Afeganistão mostradas em Massacre in Mazar - ou mesmo em reconhecer a existência do filme - serve a um único objetivo: manter o povo americano na ignorância das ações militares e violações dos direitos humanos da administração Bush.

O silêncio da mídia faz com que ela seja cúmplice nos terríveis crimes de guerra. Também fornece um serviço ainda mais sinistro para a administração Bush. O autor do filme, Jamie Doran, decidiu liberar uma edição grosseira de seu documentário antes da edição final, porque ele temia que soldados afegãos estivessem se preparando para destruir as evidências da chacina, dispersando os restos das vítimas. A auto-censura da mídia americana serve apenas para facilitar uma cobertura tão horrenda.

WSWS

21/06/2002



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