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ATUALIDADES

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UMA DOUTRINA BUSH-SHARON?

Por Arnaud de Borchgrave *

Israel está pedindo aos Estados Unidos uma assistência militar adicional, no valor de US$ 4 bilhões (isto é, além dos US$ 3 bilhões que recebe automaticamente a cada ano), e mais US$ 8 bilhões em empréstimos. A questão sobre o pacote no total de US$ 15 bilhões é: "O que será dado em troca?" Estará vinculado a uma solução permanente para o quebra-cabeça israelo-palestino? Ao começo do desmantelamento de 145 assentamentos israelenses em Gaza e na Cisjordânia? A um congelamento de novos assentamentos? A um cronograma, ainda que vago, para o estabelecimento de um estado palestino dentro de cinco anos?

Nenhuma das opções acima. Os objetivos estratégicos dos Estados Unidos e Israel no Oriente Médio fundiram-se em uma agora unificada Doutrina Bush-Sharon. Mas, isto se perdeu na cacofonia estrondosa das conversas travadas por generais de poltrona da próxima guerra para mudar o regime em Bagdá.

Em 9 de fevereiro, Bob Kaiser, do The Washington Post, rompeu a barreira do som para documentar o que já tinha sido relatado nos e-mails criptografados das embaixadas estrangeiras para dezenas de governos estrangeiros. Os "Likudniks" (os poderosos defensores de Ariel Sharon na administração Bush) tinham ficado encarregados da política dos Estados Unidos para o Oriente Médio, desde que  Bush assumiu a presidência.

Em uma aliança com os cristãos evangélicos, esses estrategistas incluem alguns dos mais poderosos personagens da administração Bush. O caminho que eles traçaram para Bush, começaria com um abandono do processo de paz, assim que a Intifada II ficou mais forte. O 11 de setembro deu o impulso para uma campanha militar para mandar Saddam Hussein para o lixo da história.

Sharon forneceu a munição geopolítica, convencendo Bush de que a guerra contra o terrorismo palestino era idêntica à guerra global contra o terror. O próximo passo foi uma campanha para convencer a opinião pública americana de que Saddam Hussein e Osama bin Laden eram aliados em sua guerra contra a América. Um suposto encontro secreto, em abril de 2001, entre Mohammed Atta (o suicida principal de 11 de setembro) e um agente de inteligência iraquiano, manteve a farsa. Desde então, histórias sobre a ligação Saddam-al-Qaeda viraram uma indústria.

E, quando o próprio bin Laden, em sua última mensagem gravada disse que Saddam é um "infiel" sem utilidade, enquanto pedia aos iraquianos que se tornassem atacantes suicidas contra os invasores americanos, o secretário de estado, Powell, se apressou em esclarecer que isto era uma cortina de fumaça para esconder a evidência.

Bin Laden claramente espera usar a invasão americana a um país muçulmano para recrutar milhares mais para sua causa. Porém, a ligação Saddam-bin Laden foi apenas o Passo Um da Doutrina Bush-Sharon. O objetivo estratégico é a antítese da estabilidade no Oriente Médio. A desestabilização dos "regimes despóticos" virá em seguida. Na pista do boliche árabe, a bola de Saddam foi projetada para conquistar um "strike" que desestabilizaria os regimes autoritários e/ou despóticos do Irã, Síria, Arábia Saudita e outros emirados no Golfo.

A fase final veria Israel cercada de regimes democráticos que garantiriam paz e segurança por, pelo menos, uma geração. Um plano meritório se conseguir alcançar todos os seus objetivos.

Aliados estreitos dos Estados Unidos, Jordânia e Turquia deveriam formar um eixo para, juntamente com Israel,  enfraquecer e "tirar" a Síria. A Turquia foi o primeiro estado do Oriente Médio a reconhecer Israel, em 1949. Em 1996, os dois países também assinaram uma parceria estratégica que permite a força aérea israelense realizar exercícios no espaço aéreo turco.

As raízes de toda a estratégia podem ser verificadas em um documento publicado, pelo Instituto de Estudos Políticos e Estratégicos Avançados, em1996, uma organização  israelense de pesquisa. O documento era intitulado "A Clean Break: A New Strategy for Securing the Realm" e foi idealizado como um plano político para o novo governo de Benjamin Netanyahu, um superfalcão do aviário político israelense. O rompimento total com o passado seria a nova estratégia,  "baseada inteiramente em novos fundamentos intelectuais, que restabeleçam a iniciativa estratégica e forneçam à nação o espaço para agarrar cada energia possível na reconstrução do sionismo."

De acordo com o documento de 1996, Israel "formaria seu ambiente estratégico", começando com a remoção de Saddam Hussein e o restabelecimento da monarquia hashemita em Bagdá. A monarquia iraquiana foi deposta através de um golpe militar, em 1958, quando o rei Faisal, um primo do falecido rei Hussein, da Jordânia, foi assassinado.

No ano passado, o ex-príncipe herdeiro, Hassan, chocou o rei Abdullah, por não conseguir informá-lo que ele estava indo a Londres para participar de uma conferência com oficiais iraquianos dissidentes exilados. Hassan fala hebraico e é conhecido por não ter aceitado ter perdido sua condição de príncipe herdeiro para seu irmão, Hussein, um pouco antes de o rei perder sua batalha contra o câncer.

A  reconstrução do sionismo, como o documento pedia, precisa, ao mesmo tempo, abandonar qualquer idéia de negociar a terra por paz com os árabes, que decreveu como uma retirada cultural, econômica, política, diplomática e militar.

O mapa da mina (que foi seguido fielmente por Netanyahy e seu sucessor, Sharon) pedia o abandono dos acordos de Oslo (sob os quais Israel não tem obrigações se a OLP não cumprir com as suas)." Yasser Arafat cometeu um erro crasso ao obrigar Israel.

"Nossa reivindicação da terra [da Cisjordânia] (pleiteada há 2.000 anos) é legítima e nobre", prosseguia o documento." Somente a aceitação incondicional pelos árabes de nossos direitos, principalmente quanto à dimentsão territorial, é a base sólida para o futuro."

Para que a estratégia tenha êxito, sugeria o documento, Israel tem que conquistar um amplo apoio americano para esta nova política. E, para garantir o apoio de Washington, Netanyahu foi aconselhado a usar uma "linguagem familiar aos americanos, repisando temas de passadas administrações americanas, durante a Guerra Fria, que também se aplicam a Israel."

Importantes formadores de opinião americanos, que agora são membros da administração Bush, participaram das discussões e do esboço que levou a este esquema de 1996. O primeiro-ministro Sharon viajou para Washington sete vezes em dois anos para se encontrar com Bush, mais frequentemente do que qualquer outro chefe de estado ou de governo.

Sharon logo convenceu um receptivo e profundamente religioso Bush, de que o terrorismo palestino, a al-Qaeda e as armas de destruição em massa de Saddam Hussein eram parte de uma ofensiva de três pontas contra a civilização judaico-cristã.

A parte da desestabilização da estratégia, ao que tudo indica, está funcionando. A Liga Árabe parece ter chegado a um beco sem saída. E não tem idéia de como dar a volta. Os estados árabes são os únicos no mundo com padrões de vida que declinaram firmemente nas duas últimas décadas. Mesmo no mais rico (Arábia Saudita), a renda per capita caiu de mais de US$20.000 para US$ 7.000, desde 1983.

A realeza saudita sabe que tem que abrir seu feudo para uma democracia participativa.Oito outros estados árabes estão comprometidos com um pluralismo político e economia de mercado. O problema comum atual desses estados   é como impedir que extremistas político-religosos vençam as eleições.

14/02/2003

*Arnaud de Borchgrave escreve para o The Washington Times e UPI.

www.twf.org

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