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ATUALIDADES

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SENTI A BRISA DA PALESTINA

A lógica israelense é simples: você é palestino, portanto você não é da Palestina.

Por Ramzy Baroud

Ainda estou em Amã, tentando conseguir acesso para a minha casa na Palestina. Estou tão perto, no entanto tão longe. Estou aqui, correndo de um escritório para outro, de uma embaixada para outra, de um táxi para outro, suado e cansado, com vários passaportes, documentos de viagem, bilhetes e permissões, porém sem uso. A lógica israelense é simples: você é palestino, portanto você não é da Palestina.

Hoje, pela primeira vez em oito anos, senti a brisa da Palestina, tão refrescante e amada. Estava tão perto que quase toquei o outro lado da fronteira, onde os israelenses estão no lugar que não lhes pertence, entre a Jordânia e minha casa.

Por toda uma semana, fiquei preso à armadilha entre meu desejo irresistível de chegar à Palestina e a cruel e irracional realidade política. Disseram-me para ir à embaixada americana em Amã, que os americanos não permitem que seus cidadãos sejam maltratados.

Quando visitei a embaixada americana em Amã, fiquei espantado com a forma do prédio, tipo um castelo. Fiz meu caminho por entre uma multidão de pessoas que procuravam conseguir um visto, na zona militar em volta da embaixada.

"Os israelenses me mandaram de volta", disse a uma funcionária da embaixada, enquanto segurava meu passaporte americano. "Eles me disseram que um passaporte americano não altera o fato de que sou um palestino."

"Bom, veja, aqui é Israel, não podemos ajudá-lo." respondeu ela secamente, enquanto tomava café.

Então, quem poderia me ajudar? Quem pode entender que um homem possa estar longe de sua família por tanto tempo? Quem pode compreender a dor que me sacode quando um soldado israelense com cara de menino ordena sem muito cuidado: "Yallah, não me faça perder meu tempo, fora, fora."

Porém, senti a brisa de Jericó, quase provei da água palestina, quase abracei meu pai e sobrinhos e sobrinhas, quase lhes dei os presentes que comprei para eles, quase comprei para minha filha aquele vestido palestino especial, com "as cores do arco-íris" que ela me pediu.

Mas eu sou palestino, não pertenço à Palestina.

Desesperado para fazer valer o meu direito de entrar na Palestina, trouxe todos os papéis que me pediram para que eu tivesse a permissão de entrar. "Aqui estão os documentos de que vocês necessitam", e dei-os todos a eles. Eu lhes disse, segurem meu passaporte se não confiam em mim." Mas eles ainda se recusavam a me dar a permissão de entrar.

Gritaram comigo de novo e mais uma vez fui obrigado a esperar no mesmo lugar descoberto, debaixo de um sol forte, por um ônibus que me levasse de volta a Amã.

Os soldados israelenses, num inglês arranhado, me perguntaram se eu falava árabe. Quando disse que sim, eles me insultaram em árabe. Assim, parei de falar em árabe. Não obstante, continuaram, usando o pouco inglês que sabiam: "Ramzy, você volta para Washington. Você não precisa de Gaza."

Mas Gaza é o meu lar. Campo de refugiado ou não.Com bombas ou não. Massacres ou não. Será que eles entendem o que significa lar? Meu lar é onde um pai doente espera para dizer seu último adeus. Lar é um lugar onde as crianças da vizinhança tornaram-se homens e mulheres e agora têm filhos. Lar é onde minha mãe está enterrada. Lar é onde tudo tem sabor, soa melhor e onde nos sentimos bem. Lar é onde você não é definido racialmente por ser palestino, onde você não precisa se defender por ser palestino.

Mas os soldados não tinham tempo para mim. Eles estão muito ocupados para me explicar por que não posso visitar meu lar, mas têm tempo bastante para mexer em minha bagagem e estender minha cueca para ser  esquadrinhada. Tiveram tempo para ler cada documento que eu tinha, minhas anotações e escrever meus números de telefone. Tiveram bastante tempo para folhear o álbum de minha família e me perguntar os nomes daqueles que acharam suspeitos.

Mas não tinham tempo para dizer para um exilado por que ele está sendo exilado. Uma jovem soldada, de cabelos escuros e uma metralhadora, me perguntou, querendo praticar seu inglês, um homem quebrado aguardando seu ônibus para longe do lar.

"Você ama Israel, Ramzy?"

"Como você ousa me perguntar isto, como ousa?"

12/05/2002

Ramzy  Baroud é editor-chefe do Palestine Chronicle.

 



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