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ATUALIDADES

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O FRACASSO POLITICO DA OLP E AS ORIGENS DO HAMAS

Por Jean Shaoul

Artigo em três partes publicado no World Socialist Web Site

 

1a. parte - 5/07/02

Em setembro de 1993, os acordos de Oslo foram saudados como sendo a base para o fim de décadas de conflito entre israelenses e palestinos e para, no prazo de 5 anos, a criação de um estado juntamente com Israel.

Esta visão agora se deteriorou. A coalizão Likud-Partido Trabalhista, com o apoio de seus patrocinadores, os Estados Unidos, enviou  tanques para reocupar os territórios ocupados na guerra de 1967  e desmantelar a Autoridade Palestina (AP). O governo Sharon usou a onda de ataques suicidas promovida pelo Hamas, o grupo islâmico político, e por outros grupos de militantes, como pretexto para rasgar os acordos e definir a AP como uma entidade terrorista.

Os ataques suicidas atingindo civis inocentes são atos terríveis e desesperados de jovens, influenciados por tendências políticas, sem perspectiva de futuro para fundamentar sua oposição à opressão israelense. Projetados para matar civis inocentes, tais ataques não contribuem em nada para os interesses e aspirações do povo palestino.

Um dos mais conhecidos grupos que reivindicam a responsabilidade pelas táticas terroristas, é o Hamas, que também é o mais conhecido opositor à liderança do Fatah, de Yasser Arafat, com seu projeto de um estado palestino secular. O Hamas foi o principal beneficiário político dos esforços fracassados de Arafat para garantir uma conciliação política com o imperialismo israelense e americano. Na verdade, os esforços continuados de Arafat para se prostrar diante do presidente Bush, mesmo depois de Washington tê-lo declarado um pária, só servem para recrutar mais jovens trabalhadores desesperados para a causa dos fundamentalistas islâmicos, como uma aparente alternativa militante à liderança da AP.

Mas a ideologia reacionária do Hamas, combinando um obscurantismo religioso com um tosco anti-semitismo, não oferece saída para o impasse atual. Ele procura o estabelecimento de um estado islâmico na Palestina, com a exclusão de judeus e outros grupos não muçulmanos, a ser alcançado com o envio de seus quadros jovens para missões terroristas suicidas. A ascensão desse movimento, que atualmente conta com o apoio de cerca de 25% dos palestinos, só pode ser compreendida e combatido politicamente através de um exame histórico do fracasso do nacionalismo burguês árabe e do fim do estalinismo e de seu projeto ideológico de alternativa política socialista verdadeira para a classe trabalhadora.

A Fraternidade Muçulmana no Egito e na Palestina

Fundado em 1988, pouco depois da eclosão da última Intifada na Faixa de Gaza, o Hamas - Movimento de Resistência Islâmico - é filiado à Fraternidade Muçulmana de Gaza, o movimento político islâmico.

A Fraternidade Muçulmana de Gaza é um dos vários movimentos islâmicos do mundo árabe, cujas origens e modus operandi estão relacionados com o renascimento do Islam, o crescimento da Fraternidade Muçulmana e sua transformação em partido político no vizinho Egito, em 1928. A Fraternidade procurou restabelecer o domínio do Islam na sociedade e transformar o Egito em um estado islâmico baseado na Shariah. A partir daí, a Fraternidade passou a reconhecer como governantes legítimos apenas aqueles que agiam de acordo com a lei islâmica e a se opor aos poderes imperialistas que dominavam o Egito. A isto, combinava-se a defesa do corporativismo e paternalismo por parte dos senhores de terra e patrões, como meio de evitar a luta de classes.

Seu programa social tinha reflexos em cada esfera da vida social. Na medida em que as mulheres estudavam e tinham a permissão para trabalhar, elas se mantinham separadas dos homens; a religião forneceu as diretrizes da instrução; e a economia seria baseada nos princípios alcorânicos. Para este fim, a Fraternidade construiu uma rede de escolas, clínicas, fábricas e mesquitas. Também construiu uma rede de grupos paramilitares e, depois da II Guerra Mundial, um esquadrão da morte, que, em 1948, matou o primeiro-ministro egípcio.

Acima de tudo, ela usou o sectarismo religioso e o anti-semitismo numa tentativa consciente de combater o secularismo e a influência crescente do socialismo e da esquerda comunista - muito dos quais eram judeus - dentro do movimento nacional e dividir a classe trabalhadora. Isto ficou particularmente evidente na cidade industrial de Alexandria, que era etnicamente pluralista. Combinou-se, assim, nacionalismo e religião em um programa social reacionário.

No início, a Fraternidade apoiou o Golpe dos Oficiais Livres, de 1952, que trouxe Gamal Abdel Nasser ao poder no Egito, mas foi proscrita em 1954, depois da tentativa fracassada contra a vida de Nasser, e seus líderes e seguidores partiram para a Arábia Saudita e países do Golfo.

Ainda que sem dúvida a ilegalidade tenha enfraquecido a influência da Fraternidade, seu declínio político, no entanto, deveu-se principalmente ao crescimento da popularidade e prestígio dos movimentos nacionalistas seculares no Oriente Médio, em particular o projeto nasserista e depois a OLP. Nos 30 anos seguintes, a influência da Fraternidade no Egito e em Gaza foi muito pequena.

A luta egípcia contra os antigos poderes imperialistas na região, Inglaterra e França, levou Nasser, em 1956, para o conflito com Israel em sua campanha conjunta contra Suez. Nasser foi transformado em herói, depois de expulsar ingleses e franceses de Suez. A partir de então, ele assumiu o papel principal contra Israel em nome dos palestinos, e se voltou para os estalinistas de Moscou, em busca de apoio militar e econômico.

As reformas sociais, econômicas e políticas realizadas por seu regime autoritário - secularização limitada do estado e o confisco de grandes fortunas, a nacionalização da indústria de base e o desenvolvimento da educação e serviços básicos - granjearam-lhe o apoio popular. Ele promoveu ilusões políticas de um pan-arabismo secular em todo o Oriente Médio, como alternativa política ao comunismo. Mas as intenções de Nasser em relação a Israel, em 1967, quando a União Soviética teve um papel cínico, levaram à derrota fragorosa das forças árabes na guerra de junho.

A guerra criou mais refugiados, com os palestinos fugindo para a Jordânia e resultando na ocupação da Cisjordânia e Gaza e anexação de Jerusalém Oriental. Longe de libertar a Palestina, foi um completo desastre. A guerra mostrou a impossibilidade de se conseguir qualquer unidade de objetivos e ação sob a liderança das várias facções burguesas antagônicas da região.

A derrota árabe e o descrédito do nasserismo abriu caminho para duas correntes políticas opostas - a criação de várias organizações guerrilheiras que acreditavam que os palestinos deveriam fazer sua própria campanha militar independente pela libertação da Palestina, e o renascimento do Islam político.

Fatah e OLP

A OLP foi fundada em 1964, mas era dominada pelos notáveis palestinos que Nasser tinha colocado ali em seu próprio interesse. O grupo Fatah, de Iasser Arafat, logo surgiu como a mais importante organização de guerrilha. Em fevereiro de 1969, o estatuto foi alterado para abrigar o programa de luta armada e, sob a liderança de Arafat, controlar o comitê executivo.

Afora seu compromisso com a luta armada na busca de uma pátria democrática e secular, a OLP não tinha qualquer programa político ou social para os trabalhadores e camponeses palestinos. Ela operava como uma coalizão de Frente Popular, dentro da qual, de acordo com o artigo 8 do estatuto, "A fase de sua história, a qual o povo palestino está vivendo atualmente, é a da luta nacional (watani) pela libertação da Palestina. Portanto, os conflitos entre as forças palestinas são secundários e devem terminar em nome do conflito maior que existe entre as forças do sionismo e do imperialismo, de um lado, e o povo árabe palestino, de outro." Com base nisto, a OLP, como um todo, foi declarada a "única representante legítima" do povo palestino e o domínio político da burguesia ficou assegurado, através de seu partido, o Fatah.

Com relação à elite governante árabe como um todo, o estatuto proclamava que a OLP "cooperará com todos os estados árabes de acordo com as potencialidades de cada um; adotará uma política de neutralidade entre eles, tendo em vista as exigências da guerra de libertação; e não interferirá nas questões internas de cada estado."

A OLP nunca conseguiu vencer o impasse político a que as massas palestinas foram levadas pela perfídia dos regimes árabes. Embora fosse um movimento verdadeiramente popular e abrigasse as diversas tendências sociais, seu programa serviu para ocultar as questões de classe e subordiná-las à questão nacional. Apesar de suas lutas heróicas e muitas vezes desesperadas, a OLP representou os interesses da burguesia palestina que buscava uma estrutura nacional na qual explorasse a sua própria classe trabalhadora.

Na realidade, a OLP renasceu qual fênix das cinzas do nacionalismo secular e como uma expressão truncada de um movimento que já tinha fracassado na arena maior do Oriente Médio.

Nos 20 anos seguintes, o Fatah foi sinônimo de OLP e, aos olhos do mundo, a OLP era sinônimo, de revolução e luta pelo estado democrático e secular da Palestina. Arafat, como presidente da coalizão Fatah e OLP, simbolizava a OLP e ficou conhecido como Sr. Palestina. Mas, iria sofrer frequentes traições dos regimes árabes dos quais dependia e que se recusava a desafiar politicamente.

A derrota das forças armadas árabes em outubro de 1973, apesar de o Egito e Síria terem sido rearmados pela União Soviética, levou o Egito a negociar um acordo com Israel em troca da ajuda americana, isolando a OLP.

A OLP logo se aproximou da oposição aos regimes dos países de onde iniciava suas operações contra Israel. Na Jordânia, em 1970-71, e mais tarde no Líbano, a OLP foi incapaz de apresentar um programa social e político para as massas árabes e palestinas que pudesse interromper o avanço das forças israelenses. Suas campanhas militares e paradas serviram apenas para criar antagonismos com os nacionalistas libaneses. O apoio inicial se transformou em ódio, abrindo o caminho para a derrota da OLP e o exílio em 1982.

Em poucos anos de controle da OLP, o próprio Arafat estava pronto a reconhecer o estado de Israel e aceitar a solução "dois estados" - com um mini estado palestino não contínuo na Cisjordânia e Faixa de Gaza juntamente com Israel. Vários planos foram apresentados, sistematicamente rejeitados por Israel e seus defensores americanos.

Foi a Intifada, a revolta espontânea, de dezembro de 1987, de trabalhadores e jovens palestinos dos Territórios Ocupados, que jogou a OLP nos braços do imperialismo americano. Ela abalou não só a burguesia israelense mas a palestina e o imperialismo americano. Eles temiam que o movimento revolucionário das massas pudesse escapar do controle, disseminando-se por toda  a rica região petrolífera a partir da Palestina.

Em dezembro de 1988, numa declaração ditada palavra por palavra pelo Departamento de Estado americano, Arafat garantiu a segurança de Israel, concordou que um acordo de paz com Israel era "estratégia e não tática provisória", e renunciou a todas as formas de terrorismo, "inclusive o terrorismo individual, de grupo e de estado". Em um franco reconhecimento de sua humilhação, Arafat disse "O que vocês querem? Que eu faça um strip tease? Seria impróprio" quando lhe pediram, em entrevista coletiva, que declarasse sua aceitação de Israel.

O Islam político moderno

A vitória de Israel, no espaço de seis dias em junho de 1967, sobre os exércitos árabes, desacreditou os regimes nacionalistas seculares do Egito e Síria e seus defensores na União Soviética. Eles provaram a incapacidade de reconciliação de suas diferenças, da tomada das mais elementares precauções para proteger os equipamentos e instalações dos ataques surpresa dos israelenses, e principalmente de derrotar Israel.

A guerra de 1967 não só levou ao surgimento da OLP mas também proporcinou o renascimento da Fraternidade Muçulmana e de forças semelhantes por todo Oriente Médio e norte da África. As forças islâmicas se beneficiaram da crise do nacionalismo secular e, até certo ponto, foram capazes de preencher o vazio político criado pela insistência dos estalinistas de que a classe trabalhadora não tinha um papel político independente.

Enquanto a OLP buscava um estado democrático e secular, a Fraternidade se opunha - buscando um estado islâmico em cada país que pudesse excluir outras religiões como um prelúdio à criação de uma entidade islâmica mais ampla.

No Egito, Anwar Sadat, o sucessor de Nasser, a fim de ampliar sua base de apoio, começou a reverter a secularização do estado. Ele reformou a constituição para incluir a Shariah como a principal fonte legal. Recrutou Irmãos Muçulmanos e ativistas islâmicos em sua campanha contra os nasseristas e esquerdistas que eram contra ele. Finalmente, em 1980, ele transformou a Shariah na principal fonte de legislação. Desse modo, ele desempenhou um papel fundamental na criação das condições para o desenvolvimento de tendência de oposição islâmica. Assim como um Fraternidade Muçulmana fortalecida, surgiram outros grupos militantes islâmicos, como o Gama’at Islamiyya, que deu origem ao Jihad Islâmico, em Gaza.

Continua ...



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