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ATUALIDADES

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O FRACASSO POLITICO DA OLP E AS ORIGENS DO HAMAS

Por Jean Sahoul

Artigo em três partes publicado no World Socialist Web Site

2a. parte - 06/07/02

A segunda derrota dos árabes para Israel, em 1973, foi acompanhada de um boicote do petróleo às nações que apoiavam Israel, resultando na quadruplicação dos preços, servindo para enriquecer os regimes árabes feudais da península arábica, que tinham suas questões com o Egito de Nasser, e aumentar sua influência. Grupos militantes islâmicos se beneficiaram, tanto indireta como diretamente, da recém chegada prosperidade dos estados ricos em petróleo. A Arábia Saudita e os estados do Golfo derramaram dinheiro na Fraternidade e em outros grupos similares para conter e suprimir o crescimento de qualquer tendência política mais progressista dentro da classe trabalhadora, que pudesse ameaçar a posição daqueles regimes. Os movimentos egípcios e jordanianos também se beneficiaram das remessas de trabalhadores que tinham ido para o Golfo em busca de trabalho.

O apoio popular aos grupos islâmicos começou a crescer no Irã, Síria, Arábia Saudita, Sudão e Gaza, principalmente entre as camadas mais empobrecidas da população. O sucesso da oposição religiosa ao regime tirânico do xá do Irã e a revolução de 1979, eram a prova de que um estado islâmico podia ser criado. Isto inspirou e promoveu uma rede de grupos xiitas, inclusive o Amal e o Hisbolá, no Líbano, compostos de elementos xiitas de oposição ao regime iraquiano e de minorias xiitas dos estados do Golfo. O sucesso da revolução iraniana também estimulou o crescimento de outras tendências islâmicas, inclusive de grupos sunitas.

Havia um outro patrocinador importante dos grupos militantes islâmicos. Washington desempenhou um papel fundamental, promovendo o crescimento desses grupos como forma de conter a influência de Moscou no Oriente Médio e, internacionalmente, como uma arma política contra nacionalistas radicais, como o Partido Ba'ath, na Síria, como um suporte para os monarcas reacionários da Jordânia e Arábia Saudita e como uma força explicitamente anticomunista que pudesse afastar a atenção das massas oprimidas com uma retórica radical firme.

De 1980 a 1989, a fim de desestabilizar a União Soviética, a CIA forneceu o maior programa de ajuda da história dos Estados Unidos ao Afeganistão. Financiou e armou os grupos mais extremados de mujahidin, inclusive a rede Al Qaeda, de Osama bin Laden, com o intuito de combater o regime afegão de Cabul, apoiado pelos soviéticos . Tais grupos patrocinados pelos Estados Unidos foram, por sua vez, fundamentais na promoção do crescimento das forças islâmicas treinadas no Egito, Arábia Saudita, Argélia, Palestina Ocupada e em outros lugares.

A atitude dos Estados Unidos em relação à militância islâmica começou a mudar depois da revolução iraniana, que removeu do poder o principal aliado da América e depositário de seus interesses no Golfo. A partir daí, a revolução assumiu um caráter explicitamente anti-americano e anti-sionista.

A militância islâmica estava começando a prejudicar os interesses dos Estados Unidos e de seus aliados no Oriente Médio de forma mais ampla. Em novembro de 1979, um grupo de opositores ao regime saudita ocupou a Grande Mesquita de Meca. Os sauditas só conseguiram acabar com a revolta à custa de centenas de vidas e com a ajuda de conselheiros militares jordanianos e franceses. Então, em 1981, as forças de oposição que o presidente Sadat do Egito tinha estimulado, se rebelaram contra ele. Um pouco depois, ele foi assassinado por membros do Jihad Islâmico, que se opunham ao seu tratado de paz com Israel. Em abril de 1983, no Líbano, onde as forças americanas estavam abertamente envolvidas no apoio ao presidente Amin Gemayel, que, por sua vez,tinha o apoio de maronitas e israelenses, o Jihad Islâmico destruiu a embaixada americana. Em outubro, uma outra missão suicida destruiu o acampamento de fuzileiros americanos. Nos anos seguintes, várias milícias xiitas sequestraram funcionários americanos e e de outras nacionalidades, enquanto o Hisbolá iniciava ataques contra soldados israelenses no sul do Líbano. Em 1984, Reagan foi forçado a admitir que a posição americana era insustentável e retirou as forças americanas do Líbano.

    A ascensão do Islam político nos Territórios Ocupados

Com a OLP confinada em Túnis, depois de setembro de 1982, e sem o apoio da burocracia soviética e dos estados burgueses árabes, Arafat desempenhava cada vez menos um papel na direção da luta continuada das massas nos Territórios Ocupados e,  no imaginário popular, chegou a ser identificado  com passividade e corrupção. Ele tinha tudo mas renunciou à luta armada em favor de manobras diplomáticas em condições que deixavam os palestinos fora das telas do radar dos regimes árabes. A conferência árabe de Amã, em novembro de 1987, convocada originalmente para tratar da guerra Irã-Iraque, só acrescentou a questão palestina à agenda como uma reflexão, sem baixar qualquer resolução em relação à Palestina. A OLP estava cada vez mais dividida em conflitos mortais que aconteciam abertamente nas ruas de Londres e Paris.

Mais uma vez, a Fraternidade foi capaz de preencher o vácuo político deixado pela crise do nacionalismo secular. Para esta tarefa, ela contou com o apoio financeiro da burguesia árabe que via a questão palestina como uma fonte perigosa de sentimento radical anti-imperialista e uma ameaça aos seus próprios privilégios. Todos buscavam desenvolver a Fraternidade como um alternativa à OLP e como um meio de dividir a classe trabalhadora palestina.

Incentivados pela Jordânia, os Irmão de Gaza se juntaram aos Irmãos da Cisjordânia e Jordânia para se tornarem parte da Fraternidade Muçulmana da Jordânia. A Fraternidade usou o dinheiro que vinha da Arábia Saudita e da monarquia jordaniana para construir sua rede de mesquitas, organizações culturais e serviços sociais que deveriam fornecer as condições para os palestinos empobrecidos.

O líder dos Irmãos em Gaza era o sheikh Ahmad Yasin, um professor que nasceu sob o mandato palestino em 1936. Ele veio de uma família próspera de classe média, que fugiu em 1948 e se refugiou no campo de refugiados de Gaza. Ele estabeleceu o Congresso Islâmico de 1973 como uma frente para a Fraternidade controlar todas as atividades religiosas, educacionais e sociais.

O objetivo primeiro da Fraternidade era "criar a Personalidade Islâmica". Apesar de clamar pela destruição do estado de Israel quando fosse chegada a hora, ela se absteve de todas as formas de atividade anti-ocupação, preferindo a luta cultural contra o compromisso "ateu" da OLP com o nacionalismo secular.

Sheikh Yasin jamais escondeu sua antipatia por Yasser Arafat. "Comedores de porco e bebedores de vinho", era a denúncia que fazia contra a liderança da OLP. Ele foi ainda mais hostil em relação ao comunismo e às facções nacionalistas de esquerda, como a Frente Popular de Libertação da Palestina e a Frente Democrática de Libertação da Palestina.

Por esta razão, os Irmãos receberam um apoio adicional e inesperado: Israel. O estado sionista e suas forças de segurança incentivaram ativamente a Fraternidade como uma alternativa à OLP. Sua oposição ao terrorismo e a ênfase em atividades educacionais e de caridade tornavam-na uma alternativa à OLP, apesar de clamar pela destruição de Israel. As autoridades de ocupação de Israel viam os grupos islâmicos como uma ferramenta útil para fomentar a discórdia entre os palestinos. O antigo governador militar de Gaza, general Yitzhak Segev, explicou como ele financiou o movimento islâmioco para contrabalançar a OLP e os estalinistas. De acordo com o jornalista Graham Usher, ele disse "O governo israelense me dá um orçamento e nós damos alguma ajuda financeira a grupos islâmicos, via mesquitas e escolas religiosas, a fim de ajudar a criar uma força que possa resistir às forças de esquerda que apoiam a OLP".

David Shipler, um antigo correspondente do New York Times, escreveu: "Em 1980, quando os militantes islâmicos atiraram no escritório do Crescente Vermelho em Gaza, chefiado pelo dr. Haidar Abdel-Shafi, um comunista e defensor da OLP, o exército israelense não fez nada e só interveio quando uma turba marchou para sua casa e parecia querer ameaçá-lo pessoalmente".

No início de 1978, o comissário do waqf muçulmano, o monopólio religioso, advertiu Israel no sentido de não registrar e, assim, reconhecer, o Congresso Islâmico e permitir que controlasse o waqf. O waqf era composto de terras, lojas, escritórios e terras agrícolas e correspondia a cerca de 10% da economia da Faixa de Gaza. Israel, em 1979, ignorou a advertência e concedeu à organização da Fraternidade uma licença.

Em um década, Iasin transformou o Congresso Islâmico em uma poderosa instituição religiosa, econômica e social na Faixa de Gaza. Ele criou uma rede de assistência social em volta das mesquitas, muitas das quais serviam também como centros comunitários. Entre 1967 e 1987, o número de mesquitas na Faixa de Gaza aumentou de 200 para 600, enquanto o número de fiéis dobrou. Na Cisjordânia, o número de mesquita foi de 400 para 750, no mesmo período. As mulheres passaram a ser obrigadas a cobrir a cabeça e a vestir capas sobre as roupas e os rapazes a deixarem a barba crescer. O esporte era usado para atrair os jovens e mantê-los vinculados à Liga Islâmica.

A Fraternidade visava mais especificamente os jovens das aldeias e dos campos de refugiados, estudantes, professores, funcionários públicos e, principalmente, o pobre. Ela evitava os trabalhadores filiados a sindicatos e organizações profissionais. Enquanto evitava a violência contra Israel "até que fosse chegada a hora", seus jovens atacavam lojas, cafés e escritórios que vendiam álcool e ameaçavam e incomodavam a população, para que as pessoas retomassem as formas islâmicas supostamente tradicionais e  se abstivessem da música, do lazer e de hábitos ocidentais.

Também foram organizados ataques contra a OLP e suas organizações, e eclodiram distúrbios com os estudantes que apoiavam a OLP e os grupos de esquerda das universidades. Após uma série de choques particularmente violentes entre 1982 e 1986, Al Azhar, a universidade islâmica em Gaza, foi ocupada e aqueles que apoiavam a OLP foram expulsos, numa pequena mini-guerra civil contra a Frente de Libertação da Palestina e seus seguidores estalinistas, e staff  e estudantes transformaram-se em uma reserva de 700 "soldados". Somente quando o Fatah sinalizou que não ficaria mais alheio àquela situação é que Israel resolver parar com a luta

Os Irmãos Muçulmanos e a Intifada

Em dezembro de 1987, eclodiu uma revolta espontânea entre os jovens palestinos e a classe trabalhadora, pegando os Irmãos desprevenidos. A Intifada foi o produto das terríveis condições decorrente da ocupação israelense e da deterioração da situação econômica. Em Gaza as condições eram péssimas. Em 1986, havia 634.000 palestinos concentrados na estreita faixa de solo arenoso de 28 milhas de comprimento e 8 milhas de largura. A população crescia a uma taxa de 4.3% a.a. Em 1988, 59% da população tinham abaixo de 19 anos e 76,9 % abaixo de 29 anos. Hoje a população deve ter crescido em 50%, cerca de 1 milhão.

Contudo, a Faixa de Gaza não possuía infraestrutura básica para lidar com a população existente. Havia um fornecimento insuficiente de água potável, saneamento básico inexistente e  pouca terra para habitação, agricultura, escolas ou hospitais. Para arrematar, Israel mantinha "terras do estado" para os poucos colonos judeus da região, cerca de 2.500 pessoas. Os colonos representavam meros 0,4% da população, e tinham sido premiados com 28% das terras e queriam mais.

A economia palestina estava inteiramente subordinada à determinação de Israel de proteger suas próprias indústrias e assegurar um mercado livre da concorrência dos Territórios Ocupados. Assim que os fazendeiros palestinos ficavam fora do mercado, o crédito era cortado, a produção por acre reduzida e a área cultivada ia pelo mesmo caminho. Uma indústria nesses moldes, tanto em Israel quanto na Jordânia, não encontrava outra saída senão se submeter ao embargo à importação de produtos manufaturados da Palestina ocupada.

Desta forma, os palestinos ficaram quase que totalmente dependentes de Israel para encontrar  trabalho. Mas, mesmo isto, era impedido pela Administração Civil, de quem eles dependiam para ter a documentação necessária para viajar e trabalhar. Conforme Ze'ev Schiff e Ehud Ya'ari reconheceram em seu livro A Intifada, "O resultado foi que, por mais doloroso que seja admitir isto, surgiu nos territórios um 'mercado escravo'.

Quando a Intifada eclodiu em dezembro de 1987, a principal fonte de resistência à dominação sionista partia dos trabalhadores e jovens palestinos e não das guerrilhas da OLP. A Fraternidade viu-se diante de um dilema: manter a conciliação com Israel e, por conseqüência a proteção, ou perder o controle sobre os palestinos da União da Liderança Nacional Unificada, que tinha sido criada pela OLP para coordenar e controlar o levante.

Os Irmãos decidiram criar o Movimento de Resistência Islâmico, conhecido pela sigla Hamas, como um partido político islâmico dedicado à libertação nacional, a fim de dispersar as energias da classe trabalhadora palestina e canalizá-las dentro de diretrizes religiosas.

Seu Pacto, publicado em agosto de 1988, principalmente seu estatuto, combinava nacionalismo com religião e um claro antissemitismo. Pedia um estado palestino islâmico, repudiando, como anti-islâmica, a formulação da OLP de um estado democrático secular e transformando o nacionalismo territorial, antes considerado uma forma de idolatria, em missão religiosa, ou jihad. Pedia a destruição do estado de Israel e equivocadamente igualava sionismo político com povo judeu, dentro e fora de Israel. Os judeus foram denunciados como arquitetos secretos das revolução francesa e da comunista, das duas guerras mundiais, da criação da Liga das Nações e da ONU, como órgãos secretos de dominação mundial e, acima de tudo, de serem os destruidores do califado islâmico.

O estatuto rejeitava explicitamente o confronto direto com a OLP, posicionando-se como uma liderança alternativa do povo palestino. Para este fim, o Hamas organizou-se independentemente, baixava seus próprios panfletos, convocava greves em separado, muitas vezes em dias sagrados. Intimidou, atirou e sabotou lojas e escritórios que não respondiam aos seus chamados. Recusou-se a reconhecer a condição de "representante única" da OLP.

O Hamas atuou pouco contra as autoridades de ocupação israelenses, e por conseqüência, Israel interferiu pouco nas greves convocadas pelo Hamas. Na verdade, o ministro da Defesa, Yitzhak Rabin até manteve conversações com conhecidos islâmicos no verão de 1988.

Continua

 

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