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ATUALIDADES

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CAMP DAVID II: O DRAMA KABUKI MAIS CARO DO MUNDO

(*) Por Eric Margolis

As negociações da última semana em Camp David entre Israel e palestinos lembram um antigo e estilizado drama do teatro kabuki japonês. Gritos, acenos e gestos teatrais, mas um resultado previsível. Somente o custo de Camp David II permanece desconhecido. Os contribuintes americanos deverão pagar pelo último fracasso de Clinton.

As duas questões principais com que se defrontam Israel e Palestina - para usar o nome do novo estado que inevitavelmente surgirá - são Jerusalém e os refugiados árabes. Provavelmente nenhuma das duas questões será resolvida em Camp David II. No máximo, esses dois pontos extraordinariamente difíceis serão filtrados, adiados ou postos de lado com compromissos simulados.

Israel promete que não devolverá a Cidade Velha de Jerusalém, que foi conquistada em 1967, na guerra entre árabes e israelenses. Palestinos, 1.2 bilhão do forte mundo muçulmano, Vaticano, Europa e ONU insistem no retorno da Cidade Velha ao domínio muçulmano-cristão como capital da Palestina. O papa João Paulo II reiterou este ponto durante o fim-de-semana, pedindo a internacionalização da cidade santa.

Israel nega qualquer direito de retorno aos refugiados palestinos, expulsos de suas casas em 1948 e 1967, embora tenha recebido 1 milhão de russos e mantenha suas portas abertas para novos imigrantes. Os primeiros refugiados palestinos e seus descendentes agora totalizam 4 milhões. Israel diz que jamais forçará 140.000  colonos judeus da Margem Ocidental, Faixa de Gaza e Colinas do Golan a abandonarem as regiões.

Fim da história? Não necessariamente. O presidente dos Estados Unidos tem o poder de romper o impasse. Em 1956, Israel, em conluio com a França e Inglaterra, invadiu o Egito e ocupou o Sinai. Quando, no final da guerra, Israel se recusou a sair, o presidente Dwight Eisenhower e o secretário de estado John Foster Dulles, ordenaram que Israel abandonasse o Sinai ou então cortariam toda a ajuda americana e poriam um fim à condição de isenção das contribuições de Israel. Israel deixou o Sinai.

O que palestinos e judeus precisam agora é de um presidente americano forte e corajoso que force Israel a uma concessão mínima que não pode ser feita agora: garantir alguma forma de soberania tangível e/ou partilhada sobre a Cidade Velha para muçulmanos e cristãos palestinos.

Sem uma negociação justa sobre Jerusalém, e sem o retorno de pelo menos alguns refugiados, não haverá uma paz duradoura no Oriente Médio. Talvez seja o que Ehud Barak queira fazer, mas sua coalizão está próxima de um colapso. A poderosa direita israelense, apoiada por sionistas linha-dura dos Estados Unidos e Inglaterra, recusa-se a ceder uma polegada e ocupa-se em minar Barak com reclamações histéricas e ridículas de que a existência de Israel está em perigo.

O músico é quem dá o tom. Desde 1948,  Israel recebeu US$ 100 bilhões dos Estados Unidos. Todo ano os contribuintes americanos dão a Israel US$ 5 bilhões em ajuda aberta ou velada.O Egito recebe US$ 2 bilhões todo ano, para não se opor a Israel. Metade da ajuda externa dos Estados Unidos vai para Israel e Egito. O exército israelense depende de equipamentos e tecnologia americanos. Só o muitas vezes utilizado direito de veto americano impediria Israel de enfrentar as sanções da ONU sobre a recusa em se retirar da Margem Ocidental e da Cidade Velha.

Agora é a hora de Washington pressionar Israel a aceitar uma negociação que seja boa para os interesses de judeus, árabes e americanos. Mas o que temos é um Bill Clinton frouxo, que pensa mais nas eleições de novembro, no financiamento da campanha dos democratas e seu próximo posto está mais para Hollywood do que para uma posição estratégica na América.

Não haverá uma pressão verdadeira para que Israel transija. Toda função superior no Departamento de Estado e no Conselho de Segurança responsável pela política para o Oriente Média é exercida por americanos fortes defensores de Israel, e são parte do "establishment" político israelense.

Os três principais diplomatas americanos em Camp David II estiveram envolvidos com o lobby israelense, sendo que dois eram residentes israelenses. É como se toda a delegação americana nas negociações sobre a Irlanda do Norte fosse composta de   militantes americanos católicos e partidários do IRA. O poderoso lobby de Israel advertiu o Congresso: "sem pressão sobre Israel". Os políticos se lembraram que as tentativas do presidente George Bush para pressionar Israel a suspender os acampamentos carrearam acusações de anti-semitismo que contribuíram para a sua derrota na reeleição e  vitória apertada de Clinton.

A única "pressão" que os Estados Unidos devem exercer é oferecer mais dinheiro a Israel. Camp David I custou US$ 160 bilhões aos contribuintes americanos - o preço de nove aviões de carreira. Os recentes e nunca inteiramente implementado acordos de Wye River, engendrados por Clinton, custaram aos contribuintes algo em torno de US$ 2 bilhões.

Segundo alguns relatos, Israel vem pedindo de US$ 15 a US$ 27 bilhões para realocar as instalações militares dos territórios ocupados e mais US$ 30-40 bilhões para fazer com que suas forças armadas sejam tão avançadas tecnologicamente quanto  as dos Estados Unidos, inclusive com a integração total do espaço e dos sistemas de inteligência americanos. Além de outros US$ 2 bilhões a mais, para defesa através de mísseis, além dos US$ 1.5 bilhão já recebidos dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos e a Europa fornecem a toda a Palestina US$ 360 milhões do orçamento anual. Yasser Arafat agora busca US$ 40 bilhões como compensação - não de Israel, mas dos Estados Unidos - para os cerca de 4 milhões de refugiados palestinos e de suas propriedades confiscadas. Mesmo que esses recursos venham a ser alocados, provavelmente muito desse dinheiro terminará nos bolsos dos grandes da OLP e não dos refugiados.

Em resumo, os contribuintes americanos estão sendo chamados para mais uma vez para subornar seus clientes em disputa. Camp David II pode terminar custando US$ 100 bilhões - para início de conversa. Esses orientalistas astutos certamente sabem como abalar Tio Sam em ano eleitoral.

Washington, 23/07/00

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(*) Eric S.Margolis é um conhecido correspondente internacional, bem informado, que alia a qualidade de comentarista com uma grande capacidade como jornalista de assuntos internacionais, com  experiência nas questões asiáticas. 


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