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ATUALIDADES

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AS VINHAS DA IRA

Por Thomas L. Friedman

Tenho uma confissão a fazer. Logo depois de 9 de setembro, eu ganhei um CD do Mormon Tabernacle Choir, que incluía sua rendição do "Hino da Batalha da República". Ouvi aquela canção  em meu carro várias vezes, muitas vezes cantando-a enquanto dirigia. Não era só o patriotismo que despertava o que me agitava, mas o sentido de unidade nacional. Aquela música foi a que o coro cantou no serviço da Catedral Nacional, logo após 11/9. Muito embora fosse um momento chave para a nossa nação, olho para trás com uma certa saudade e nostalgia. Porque foi um momento de solidariedade americana, com as pessoas  juntas umas às outras e todos juntos com o presidente.

E é isto o que me fez ficar tão triste a respeito desse momento. Parece que estamos à beira de irmos à guerra de uma forma que acabará com toda a solidariedade nacional e a boa vontade que se seguiu a 11/9, dentro e fora de nosso país.

Esta guerra é tão peculiar que sempre foi um chamado da natureza - e minhas entranhas me dizem quatro coisas. A primeira, é que esta é uma guerra de escolha. Hoje, Saddam Hussein não representa uma ameaça direta para nós. Mas enfrentá-lo é uma escolha legítima - muito mais legítima do que pensam liberais e pacifistas. Remover Saddam - com sua obsessão de obter armas de destruição em massa - acabar com sua tirania e ajudar a fomentar um Iraque mais progressivo que poderia estimular reformas por todo o mundo árabe-muçulmano, são a melhor resposta de longo prazo ao binladenismo. Algumas coisas são verdade mesmo se George Bush acreditar nelas.

A segunda coisa que meu intestino diz é que construir uma paz decente no Iraque será muito mais difícil do que os falcões de Bush imaginam. O Iraque é a Iugoslávia árabe. É um país dividido entre curdos, xiitas e sunitas, que foi forjado pelo poder britânico e que nunca entendeu outra coisa que não fosse um punho de ferro. Transformar o Iraque em um estado com um governo responsável, consensual e decente seria a guerra de escolha maior e mais audaciosa que qualquer presidente americano jamais fez - porque não implica em só afastar Saddam mas, também, construir, pela primeira vez, um Iraque integrado.

Isto explica o meu terceiro sentimento interior - que tal empreendimento, para ter êxito num país com tantas feridas e ressentimentos reprimidos, exigirá um processo lento que é visto como legítimo no Iraque, na região e no mundo. Mas isto não poderá ser feito se estivermos olhando por cima de nossos ombros todos os dias, daí ser tão importante o apoio aliado e a aprovação da ONU.

Minha principal crítica ao presidente Bush é ele não ter conseguido reconhecer como é incomum esta guerra de seleção - tanto para os americanos como para o mundo - e, portanto, não ter oferecido políticas claras que devam ser acompanhadas. Pelo contrário, o presidente super dimensionou a ameaça e garantiu que esta é uma guerra sem escolha, e combinou tudo isto com questões pré-11/9, como sempre: cortes no orçamento, indiferença  com as preocupações mundiais com o meio ambiente, uma política de combustível, descaso com o processo de paz árabe-israelense e desprezo pela diplomacia.

E isto me leva ao quarto e último sentimento interior: apesar de todo o barulho, uma maioria de pessoas decentes no mundo ainda anseia por um acordo que obrigue Saddam a cumpri-lo e que não enfraqueça a América.

Portanto, sr. presidente, antes de jogar os dados numa guerra legítima, embora audaciosa, lance os dados apenas uma vez sobre uma diplomacia de alguma forma corajosa. Escolha o que Woodrow Wilson deixou de fazer: vá até Paris, reúna os líderes da França, Rússia, China e Inglaterra, além do presidente da cúpula da Liga Árabe, e ofereça a eles uma quantidade razoável de tempo para mais inspeções - se eles concordarem com um desarmamento específico Saddam tem que acatar e apoiar uma autorização de força automática da ONU se ele não aceitar. Se a França ainda assim continuar a esnobá-lo, o mundo verá que você é aquele que tenta preservar a segurança coletiva, enquanto a França só quer a discórdia. Isto será muito importante para a legitimidade de qualquer guerra.

Sr. presidente, nunca me senti mais traumatizado como americano do que nos dias que se seguiram ao 11/9. Mas, apesar das reais ameaças, também nunca me senti mais otimista - por causa da unidade nacional que tivemos, e que você teve, para enfrentar aquelas ameaças. Se qualquer coisa daquele sentimento de solidariedade pós-11/9 explodir por uma guerra divisora e unilateral no Iraque, não só estaremos sacrificando bons sentimentos mas também a chave para administrar este mundo complexo e perigoso. Esta é a nossa capacidade para permanecermos unidos e com os outros - nossa capacidade de cantar, juntos, &"O Hino da Batalha da República" e ter o mundo,pelo menos, cantarolando junto.

Publicado no The New York Times

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