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ATUALIDADES

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UM TIPO ESTRANHO DE LIBERDADE

Por Robert Fisk

Todos sabemos dos perigos do fanatismo islâmico. Mas, diz Robert Fisk, a maior ameaça à liberdade nos Estados Unidos pode vir de outras espécies de fundamentalismo: judeu e cristão.

09/07/02

Na Primeira Igreja Congregacional de Berkeley, a platéia californiana ficou em silêncio. Dennis Bernstein, o anfitrião do atual programa Flashpoint, da rádio KPFA, estava lendo alguns e-mails recentes que ele tinha recebido de alguns defensores de Israel na América. A cada e-mail que lia, as pessoas na Igreja, muçulmanos, judeus, cristãos, iam ficando em estado de choque. Eram ofensas, palavrões, xingamentos. "Seu bundão, pedaço de merda. Hitler matou os judeus errados. Ele devia ter matado seus pais, para que um pedaço de merda de judeu como você não tivesse nascido. Se Deus quiser, os terroristas árabes irão cortá-lo como fizeram com Daniel Pearl, AMEM!!!"

O pecado de Bernstein foi ter feito, em abril, a cobertura da estória da invasão de Jenin por Israel e de ter entrevistado, para o programa Flashpoint, jornalistas que investigavam as mortes que aconteceram lá, como Phil Reeves e Justin Huggler. O avô de Bernstein foi um rabino ortodoxo reverenciado, de fama internacional, mas nem a história de sua família nem suas origens foram poupadas. "Leia isto e chore seu judeu filho da mãe!", dizia um outro e-mail a Bernstein. "Se Deus quiser um palestino o matará, estuprará sua esposa e cortará a garganta de seus filhos." Mais um outro "Espero que você, Bárbara Lubin, e todos os outros judeus  marxistas comunistas traidores anti-americanos, morram de uma morte violenta e cruel, da mesma forma que os homens bomba de Israel." Lubin, também judia, é diretora executiva da Aliança para as Crianças do Oriente Médio, que já esteve envolvida com o sionismo mas que agora é um dos mais violentos críticos de Israel. Os e-mails referentes a ela eram os piores.

Na verdade, é preciso chegar à América para perceber como é brava esta pequena, mas atuante, comunidade judaica. Bernstein é o primeiro a reconhecer que, realmente, a combinação dos lobistas israelenses com os fundamentalistas cristãos censuraram toda a discussão livre sobre Israel e Oriente Médio fora do domínio público dos Estados Unidos. "Todos estão aterrorizados", diz Bernstein. "Os únicos que começam a abrir a boca neste país são os judeus. Veja, quando criança, mandei dinheiro para plantar árvores em Israel. Mas, agora, estamos horrorizados com o governo que representa um país que aprendemos a amar e a guardar no coração. Os defensores de Israel têm um sentimento de vingança especial pelos judeus que não engrossam a linha da política de terra arrasada de Sharon, porque dão espaço para a acusação de que os críticos de Israel são anti-semitas."    

Adam Shapiro está entre os que pagaram um preço por suas crenças. Ele é um judeu casado com uma americana de origem palestina, uma voluntária do Movimento de Solidariedade Internacional, que foi apanhada no quartel-general de Iasser Arafat, na primavera, enquanto fazia atendimento médico. Depos de dizer à CNN que o governo de Sharon estava agindo como os "terroristas", enquanto recebia uma ajuda militar americana anual de US$ 3 bilhões, Shapiro e sua família foram barbaramente atacados no The New York Post. O jornal chamava Shapiro de "judeu talebã" e tratava sua família como "traidores". Os defensores israelenses publicaram o endereço de seus familiares e seus pais foram obrigados a fugir de sua casa, no Brooklyn, e a buscar proteção policial. O pai de Shapiro, um professor universitário de Nova York e professor meio expediente em Yeshiva (escola judaica), foi demitido do emprego. Seu irmão recebe constantes ameaças de morte.

Os defensores de Israel não têm escrúpulos em sua aliança com a direita cristã. Na verdade, os fundamentalistas lutam por conta própria a favor de Israel, confome eu descobri recentemente em Stanford, quando eu ia dar uma palestra sobre a mídia e o conflito israelo-palestino. A "Free Republic", uma organização cirstã de direita, colocou meu nome em seu website e me descreveu como um "Bajulador da OLP" e pediu que seus seguidores sabotassem minha palestra. Alguns manifestantes apareceram do lado de fora da Igreja Metodista Unificada em Sacramento, onde eu iria falar, trazendo bandeiras americanas e israelenses. "Judeus odientos!", gritavam para os organizadores, humor negro, uma vez que se tratava de não judeus berrando suas ofensas para judeus.

Eles também seguravam toscas faixas pintadas. "Não se preocupe, Bob", observou um dos meus anfitriões . "Eles sequer conseguem pronunciar seu nome direito." Verdade. Mas também falso. "Pare com as mentiras!", dizia o panfleto. "Não houve massacre em Jenin. Fiske (sic) recebeu muito dos árabes para mentir ..." Mas, a verdadeira mentira estava naquela última sentença. Nunca recebi qualquer pagamento pelas minhas palestras, para que ninguém diga que sou pago para apresentar a opinião dos outros. Mas, a verdade não importa para estas pessoas. Muito menos o conteúdo de minha palestra que começou, por acaso, com as seguintes palavras: "Não houve massacre", onde eu descrevia Arafat como um "despotazinho corrupto e fútil" e os homens bomba como uma "arma medonha e má". Nada disso era importante. O objetivo era calar a minha boca.

Dennis Bernstein resume tudo isto de forma bastante simples: "Qualquer jornalista, colunista, editor, professor universitário, estudante ativista, funcionário público ou pastor americano, que ouse falar de forma crítica contra Israel ou faça um relatório apurado das brutalidades decorrentes da ocupação ilegal, será chamadod de anti-semita." De fato, nem bem Bernstein tinha feito essas observações e grupos pró-Israel iniciaram uma campanha extraordinária contra alguns dos principais jornais pró-Israel da América, afirmando que o The New York Times,  Los Angeles Times  e o San Francisco Chronicle tinham sido tendenciosos na cobertura do conflito do Oriente Médio.  É difícil de imaginar como o The New York Times, que se orgulha de ter entre seus escritores William Safire e Charles Krauthammer, gigantes da corrente pró-Israel, pode ser anti-Israel, embora seja possível que, entre os seus relatos sobre a destruição da Cisjordânia e Gaza, encontremos alguns suaves comentários críticos. O The New York Times relatou, por exemplo, que os soldados israelenses usaram civis como escudos humanos, ainda que apenas no último parágrafo de um boletim de Jenin.

Apesar disso, a campanha de boicote e e-mails continuou. Mais de 1.000 leitores suspenderam suas assinaturas do Los Angeles Times, enquanto uma chuva de e-mails dizia para os leitores pró-Israel cancelarem as assinaturas do The New York Times por um dia. Na costa leste, pelo menos uma estação de rádio local perdeu US$ 1 milhão de um filantropo judeu, enquanto outras estações, que tentavam cobrir o Oriente Médio com algum grau de imparcialidade, perderam até mais. Quando o San Francisco Chronicle publicou um guia de 4 páginas sobre o conflito, seus editores tiveram que receber uma delegação de 14 membros representando grupos judeus locais para discutir suas reivindicações.

De acordo com Michael Futterman, que preside um comitê de estratégia para o Oriente Médio, que congrega 80 sinagogas da Bay Area, a raiva judaica atingiu o "ponto de ebulição" quando o Chronicle não conseguiu cobrir uma manifestação pró-Israel, em São Francisco. Desnecessário dizer que o "Representante dos Leitores" do Chronicle, Dick Rogers, publicou uma humilhante e autopunitiva desculpa. "O jornal não teve uma palavra sobre a manifestação pró-Israel", escreveu ele. "Não foi uma cobertura equilibrada e justa." Uma outra objeção veio de um leitor judeu que criticou a palavra "terror" sendo colocada entre apóstrofos, numa manchete do Chronicle, onde se lia "Sharon diz que o 'terror' justifica o ataque". A questão do leitor? O relato do Chronicle " se harmoniza bem com a propaganda palestina, que tenta desviar a atenção da campanha terrorista contra Israel (que goza de apoio quase unânime entre os palestinos, desde Arafat até o menino de 10 anos que sonha se explodir um dia) e descreve a movimentação militar de Israel como táticas tiranas, sem base e maléficas."

E assim, continua. Em um programa de rádio comigo, em Berkeley, o editor internacional do Chronicle, Andrew Ross, tentou rir feito doido da influência do lobby pró-Israel, "o famoso lobby", como ele chamou, com a aquele respeito que é meio caminho entre o reconhecimento e o temor de que o Consul Geral israelense, Yossi Amrani, não hesitaria em combater o Chronicle, descrevendo o jornal claramente brando em seus relatos sobre o Oriente Médio como "um jornal pró-palestino, tendencioso profissional e politicamente."

O encarte de 4 páginas do Chronicle sobre o Oriente Médio, era, na verdade, de venda fácil. A manchete "A Luta Atual Entre Israelenses e Palestinos é uma Batalha pelo Controle do Território" não trazia a questão óbvia: a de que um dos dois grupos que está lutando pelo controle do território, o palestino, há 35 anos teve sua terra ocupada por Israel.

O mais impressionante e menos falado é, na verdade, a aliança entre  lobistas israelenses e fundamentalistas cristãos sionistas, uma coalizão que começou em 1978 com a publicação de um plano do Likud para estimular as igrejas fundamentalistas a darem seu apoio a Israel. Em 1980, havia uma "Embaixada Internacional Cristã" em Jerusalém; e em 1985, surgiu um lobby sionista cristão num "Oração e Café da Manhã por Israel", cujo principal orador foi Benjamin Netanyahu, que viria a se tornar o primeiro-ministro. "Um sentimento de história, poesia e moralidade impregnou os sionistas cristãos que, há mais de um século atrás, começaram a escrever, planejar e organizar o restabelecimento de Israel.", disse Netanyahu à sua audiência. A conhecida Coalizão Unidade Nacional por Israel transformou-se no braço lobista do sionismo cristão com ligações no Congresso e entre os neo-conservadores de Wahsington.

Em maio deste ano, a embaixada de Israel em Washington, organizou um café da manhã para os cristãos sionistas. Presentes estavam Alonzo Short, um membro do conselho do "Guardiães da Promessa", e Michael Little, que é o presidente da Rede de Transmissão Cristã". Os anfitriões do evento foram classificados, inclusive os austeros conservadores cristãos, Jerry Falwell e Pat Robertson, que financiaram uma estação de televisão canalha no sul do Líbano, que ameaçava os aldeões muçulmanos e transmitia expressões violentas do major Saad Haddad, o chefe da milícia e fantoche de Israel no Líbano. No Tenessee, funcionários judeus convidaram centenas de cristãos para se juntarem à multidão de judeus na manifestação de solidariedade a Israel, realizada em Mênfis.

Diante disto, esta coalizão parece natural. A Liga Judaica de Anti-Difamação se sentiu apta a colocar um anúncio que incluía o artigo de um ex-diretor executivo da coalizão cristã, Ralph Reed, com o seguinte título: "Nós, Povo de Fé, Estamos Firmes com Israel". Os cristãos, alegava Reed, apoiavam Israel por causa de "seu impulso humanitário de ajudar e proteger os judeus, um interesse estratégico compartilhado na democracia do Oriente Médio e uma ligação espiritual com Israel".

Mas, é claro, existe por trás desta estranha parceria um problema fundamental no significado de cada palavra. Como Uri Avnery, o líder do Gush Shalom, o mais corajoso grupo pacifista  israelense, assinalou em ensaio tipicamente feroz no mês passado, existe um lado mais negro nesta aliança. "De acordo com suas crenças teológicas (sionista cristã), os judeus devem se congregar na Palestina e estabelecer um estado judaico em todo o seu território", uma idéia que interessaria obviamente a Ariel Sharon "para que fosse possível a segunda vinda de Jesus Cristo." Mas aqui a coisa complica. Como Avnery diz, "os evangélicos não gostam de tratar abertamente com o que vem depois: antes da chegada (do Messias), os judeus precisam se converter ao cristianismo. Aqueles que não o fizerem perecerão num gigantesco holocausto na batalha do Armagedon. Este é basicamente um ensinamento anti-semita, mas quem se importa, desde que eles apoiem Israel?"

O poder do lobby israelense nos Estados Unidos é debatido muito mais livremente na imprensa israelense do que nos jornais ou redes de TV americanos. Há, evidentemente, uma linha estreita e perigosa entre a investigação justificada e a condenação do poder do lobby, e a alegação racista árabe de que um pequeno punhado de sionistas governam o mundo. Aqueles que nos Estados Unidos compartilham com esta última idéia incluem uma desagradável organização conhecida como "Instituto de Pesquisa Histórica". Há os que negam o Holocausto, cuja conferência anual, no mês passado, incluiu uma palestra sobre "sentenças de morte impostas pelas autoridades alemães aos soldados alemães ... por terem matado ou mesmo maltratado os judeus". Muito mais disto e deve-se juntar o Comitê de Assuntos Públicos Israelo-Americano (AIPAC), para restabelecer a sanidade. Mas o lobby israelense é poderoso. De fato, sua influência sobre o Congresso e Senado lança dúvida sobre até onde a legislatura americana foi corrompida por esses grupos. É para a voz israelense de Avnery que, mais uma vez, os americanos devem se voltar para saber quão poderoso o lobby ficou. "Seu poder eleitoral e financeiro lança uma grande sombra sobre as duas casas do Congresso.", escreve Avnery. "Centenas de senadores e deputados foram eleitos com a ajuda das contribuições judaicas. Resistir às diretrizes do lobby judeu é suicídio político. Se o AIMPAC apresentasse uma resolução abolindo os Dez Mandamentos, 80 senadores e 300 deputados assinariam sem pestanejar. Este lobby assusta a mídia também e garante sua adesão à Israel.

Para provar sua afirmação, Avnery não precisaria ter ido mais longe do que as primárias democráticas no Alabama, no mês passado. Earl Hilliard, beneficiado com um quinto mandato, cometeu o único pecado mortal para qualquer político americano: ele expressou simpatia pela causa dos palestinos. Ele também visitou a Líbia há alguns anos atrás. O oponente de Hilliard, Artur Davis, transformou-se em um declarado defensor de Israel e levantou grandes quantias de dinheiro na comunidade judaica, tanto no Alabama como em todo o país. O jornal israelense, Ha'aretz, observou que entre os nomes da primeira lista de contribuintes para a campanha de fundos de Davis, estavam "10 Cohens de Nova York e New Jersey, mas antes de se chegar aos Cohen, havia os Abrams, Ackerman, Adler, Amir, Asher, Baruch, Basok, Berger, Berman, Bergman, Bernstein e Blumenthal. Todos da costa leste, Chicago e Los Angeles. É bastante improvável que cada um deles tenha visitado o Alabama ..."  O jornal judeu, Forward, leitura fundamental para uma compreensão séria da comunidade judaica americana, citou um ativista político judeu depois da votação: "Hilliard foi um problema em seus votos e com companheiros como estes, quando há um desafio imaginável, você leva seu tiro." Hilliard, é claro, perdeu para Davis, cujos fundos de campanha alcançaram US$781.000.

A AIPAC se concentra no Congresso, enquanto a Conferência de Presidentes das Principais Organizações Judaicas (CPMAJO), composta pelos líderes de 51 organizações judaicas, se concentra no braço executivo do governo americano. Cada congressista sabe os nomes daqueles que criticam Israel e que foram descartados pelo lobby. Tome-se, como exemplo, o senador J. William Fulbright, cujo testemunho em 1963, ao Comitê de Relações Externas do Senado, detalhou a forma como US$5 milhões de impostos dedutíveis de instituições filantrópicas americanas foram parar em Israel e depois trazidos de volta para os Estados Unidos para distribuição a organizações que buscavam influenciar a opinião pública em favor de Israel; isto custou a ele a oportunidade de ser secretário de estado. Ele foi derrotado nas primárias de 1974, depois que o dinheiro pró-israelense foi derramado na campanha de seu rival, o governador Dale Bumpers, após uma delcaração da AIPAC de que Fulbright era "constantemente pouco amável para com Israel e para com nossos defensores neste país." Paul Findley, que passou 22 anos como um congressista republicano do Illinois, teve sua carreira política destruída depois de ter combatido o lobby israelense, embora, ironicamente, seu livro a respeito do assunto, Eles Ousam Falar, estivesse na lista dos mais vendidos do Washington Post, o que sugere que muitos americanos querem saber porque seus congressistas são tão a favor dos israelenses.    

Há dois meses atrás, o Congresso americano votou uma moção, 352 a 21, para expressar um apoio impróprio a Israel. O Senado votou, 94 a 2, a mesma moção. Ainda quando votavam, o exército de Ariel Sharon prosseguia em sua invasão destruidora da Cisjordânia. "Não me recordo de qualquer membro do Congresso me perguntando se eu era a favor de dar umas palmadinhas nas costas de Israel..." disse mais tarde ao Comitê Anti-Discriminação Arabo-Americano, James Abu Rizk, um árabe-americano de origem libanesa. "Ninguém, nenhum americano médio também foi perguntado. Mas esta é a condição da política americana hoje... Os votos e os rapa-pés não têm nada a ver com o amor dos legisladores por Israel e sim com o dinheiro que alimenta suas campanhas, derramado  pelo lobby israelense. Minha estimativa é de que cerca de US$6 bilhões escapam do Tesouro Americano para Israel a cada ano." Em alguns dias, 42 governadores americanos apareceram em Sacramento para assinar declarações de apoio a Israel. O governador da Califórnia, Gray Davis, e o de Nova York, George Pataki, organizaram o encontro. A Califórnia tem a maior população judaica do país, depois da de Nova York.

Algumas vezes, o apoio dos leais a Israel no Congresso vira uma farsa. Tom Delay, ao reagir à crítica a Israel feita por Ted Turner, fundador da CNN, foi tão longe na sua forma de justificar a ocupação israelense da Cisjordânia que soltou na televisão MSNBC que os palestinos "deveriam se tornar cidadãos" de Israel, uma idéia improvável de ser recomendada ao seu amigo Ariel Sharon. O republicano do Texas, Richar Armey, foi por outro caminho. "Estou contente por Israel ter tomado toda a Cisjordânia. Acredito que os palestinos devem partir... aquele povo,  os agressores de Israel, deve ser retirado para outra área." Será que a população do Texas sabe que seu representante está apoiando a "limpeza étnica" no Oriente Médio? Ou está calada porque prefere não falar?

A censura assume várias formas. Quando Ishai Sagi e Ram Rahat-Goodman, dois soldados da reserva  israelense, se recusaram a servir na Cisjordânia ou em Gaza, estavam programados para debater sua decisão na Congregação B'nai Israel, em Sacramento, em maio último, a aparição deles foi cancelada. Steve Meinreith, que é presidente do Comitê de Assuntos de Israel no B'nai Israel, observou, desolado, que "a intimidação por parte de certos setores da comunidade tem privado a comunidade inteira de ouvir pontos de vista que estão sendo discutidos amplamente em Israel. Algumas pessoas acham que é muito perigoso..."

E o presidente Bush? Seu tão esperado discurso sobre o Oriente Médio era política israelense do princípio ao fim. Um grupo de líderes judeus (inclusive Elie Wiesel e Alan Dershowitz, que disseram recentemente que a idéia de executar as famílias dos suicidas palestinos era legítima se falhasse uma tentativa de se encontrar um equilíbrio entre a prevenção ao terrorismo e a preservação da democracia), e os dirigentes dos AIPAC e o CPMAJO mandaram um aviso claro   ao presidente no sentido de que não deveria ser feita qualquer pressão contra Israel. Wiesel, cuja coragem permeia seus livros sobre o Holocausto, mas que lamentavelmente não conseguiu condenar o massacre dos refugiados palestinos de Beirute, em 1982, nas mãos dos aliados libaneses de Israel, disse, em página inteira do The New York Times, que sentia "tristeza" mas que sua tristeza era "por Israel e não contra Israel" porque, "afinal de contas os soldados israelenses não mataram". Assim, ele pedia a Bush que "por favor lembre-se de que Ariel Sharon, um militar que conhece a feia face da guerra melhor do que ninguém, está pronto a fazer 'dolorosos sacrifícios' para acabar com o conflito". Sharon foi tido como "pessoalmente responsável" pelo massacre  por uma comissão de inquérito de Israel, mas não houve qualquer menção a este fato por parte de Wiesel, que disse aos repórteres, em maio, que ele gostaria de revogar o prêmio Nobel da Paz, concedido a Arafat.

O presidente Bush não iria se opor a tais pressões. Seu pai pode muito bem ter perdido a reeleição porque ousou dizer a Israel que precisava fazer a paz com os árabes. Bush não irá cometer o mesmo erro e muito menos seu irmão, Jeb, deseja perder a próxima eleição para governador. Daí, o prazer de Sharon diante do discurso de Bush, e foi deixado para a brava e solitária voz de Mitchell Plitnick, do Jewish Voice for Peace, declarar que "poucos discursos podem ser considerados tão daninhos quanto o do presidente americano ... poucas coisas são tão cegas quanto a arrogância desenfreada".

Ou tão brutais quanto as mensagens que ainda chegam para Dennis Bernstein e Barbara Lubin, cuja Aliança para as Crianças do Oriente Médio, coordenada com grupos pacifistas israelenses, está tentando levantar fundos para reconstruir o campo de refugiados de Jenin. "Outro dia, recebi um chamado às 5hs da manhã", disse-me Bernstein. "O rapaz me diz: 'Você teve muita coragem em ir e   comer naquela loja de conveniências judaica.' O que virá depois disto?" Antes de deixar São Francisco, Lubin me mostrou seus últimos e-mails. "Cara '...'", começa um deles, Quando quisermos sua opinião sobre os '...' nazistas, teremos um de seus '...' palestinos de merda. Espero que em sua próxima viagem aos territórios ocupados você seja detonada por um de seus '...' palestinos suicidas. Um outro, igualmente obsceno, acrescenta "você deveria se envergonhar, uma conhecida judia defendendo a destruição de Israel".

Em linguagem menos rude, é claro, a fala do presidente Bush foi saudada. Pat Robertson achou o discurso de Bush "brilhante". O senador Charles Schumer, um democrata pró-Israel de New York, disse que "claramente, do ponto de vista da política, vai agradar não só os defensores de Israel como todos os tipos de coalizão cristã." Ele poderia dizer isto de novo. Pois, quem poderia ser mais cristão do que o presidente George W. Bush?

Publicado no Independent, em 09/07/02

 



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