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ATUALIDADES

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BUSH PASSA UM CHEQUE EM BRANCO PARA ISRAEL NO ATAQUE AOS PALESTINOS

Por Bill Vann

26/06/02

Mesmo para os anais das propostas de "paz" para o Oriente Médio, o discurso proferido por George W. Bush nos jardins da Casa Branca, em 24 de junho, sobressai pelo cinismo.

Falando enquanto tanques israelenses e a infantaria atacavam todas as cidades mais importantes da Cisjordânia, matando civis inocentes e submetendo centenas de milhares a toques-de-recolher intermitentes, o presidente dos Estados Unidos falou ao povo palestino sobre a necessidade de uma reforma "democrática", enquanto exigia a remoção de seu presidente eleito, Iasser Arafat.

O plano de Bush não oferece nada aos palestinos e não avança em uma única proposta nova para acabar com o prolongado e sangrento conflito. No entanto, dá sinal verde para que o estado de Israel continue com sua política de reocupação dos territórios, nominalmente sob controle da Autoridade Palestina, e de aniquilamento físico dos líderes dessa entidade, assim como de suas forças de segurança.

A linha traçada pelo governo americano representa uma mudança radical em relação ao que ficou conhecido como a questão palestina. Para a diplomacia mundial, o cerne do problema é como acomodar os direitos de um povo transformado em refugiado, repetidamente expulso de sua terra, desde a criação de Israel em 1948 até a ocupação da Cisjordânia e Gaza em 1967, e a subseqüente onda de acampamentos sionistas nos territórios ocupados.

Bush procurou devolver o problema, pintando os palestinos   como um povo "terrorista",e a sua liderança, a OLP, de há muito reconhecida como um legítimo movimento nacionalista burguês, como uma organização criminosa.

A tentativa de banir Arafat e outros funcionários palestinos, representa a codificação de uma política que Washington perseguiu durante anos, sancionando o assassinato seletivo de líderes escolhidos, vistos como hostis aos interesses americanos e israelenses.

Os círculos dominantes israelenses reagiram ao discurso, dizendo que ele poderia ter sido escrito pelo primeiro ministro, Ariel Sharon, e que significou uma vitória completa de sua política. O partido do governo, o Likud, disse que o discurso seria lembrado como "o fim da era Arafat".

No entanto, mesmo entre os mais firmes defensores de Israel, houve a preocupação de que o plano Bush não tivesse conseguido colocar uma única exigência sobre o regime israelense. "O sr. Bush parecia estar dizendo ao primeiro ministro Ariel Sharon que ele estava livre para reocupar toda a Cisjordânia, até o surgimento de uma Palestina nova e democrática ", comentou o New York Times. "Como os palestinos podem realizar eleições ou reformas sob um completo confinamento imposto pelo exército israelense, ainda permanece um mistério."

E nem qualquer observador mais sério vê qualquer probabilidade de o plano ter o mais leve efeito na suspensão da onda de ataques suicidas em Israel, e muito menos a repressão violenta do exército israelense nos territórios ocupados.

Nem Bush nem Sharon têm qualquer interesse na "reforma" ou "democracia" palestina. A política deles é a destruição de qualquer instituição e infraestrutura que tenham sido criadas nos territórios ocupados desde os acordos de Oslo de 1993, entre Israel e a OLP e a posterior criação da Autoridade Palestina.

O presidente americano não proferiu uma única palavra de crítica ao governo Sharon, mas advertiu que qualquer tentativa pelos palestinos de resistirem à ocupação seria vã: "Israel continuará a se defender e a situação do povo palestino ficará cada vez mais miserável."

Seus comentários absurdos trouxeram realidade para sua cabeça. De acordo com Bush, a raiz do presente conflito nada mais é do que o terrorismo e o fracasso da liderança palestino em combatê-lo.

"Hoje o povo palestino vive uma estagnação econômica, que piorou devido à corrupção oficial", declarou ele. Por que? Segundo Bush, a pobreza e opressão são subprodutos da perfídia da Autoridade Palestina - que exerceu um controle precário na região por apenas 8 anos - e de seu fracasso em abraçar a "economia de mercado". As constantes expulsões em massa de palestinos de suas terras, a ocupação de grandes faixas de território pelos acampamentos sionistas em Gaza e Cisjordânia, e a contínua desorganização da vida econômica durante décadas de ocupação militar são fora de propósito.

Bush insistiu em que a paz somente virá através do "rompimento com o passado", que ele definiu como a depuração de toda a liderança da Autoridade Palestina, inclusive Arafat, e a instalação de novos líderes "não comprometidos com o terror".

No entanto, nenhum "rompimento" desse tipo foi exigido de Israel, cujo primeiro ministro está implicado em vários crimes de guerra. Na verdade, Bush proferiu seu discurso às vésperas da sessão da corte de Bruxelas para determinar se Sharon poderia ser julgado por crimes contra a humanidade decorrentes de seu papel, há 20 anos atrás, na organização do massacre de centenas de refugiados palestinos desarmados nos campos de Sabra e Shatila, no Líbano.

Como é que seria um estado palestino idealizado pelo plano Bush, desde que isto fosse permitido? Pode-se dizer, com certeza, que seu presidente seria um fantoche de Washington, com toda a probabilidade de ser um representante da CIA dentro do movimento palestino. Sua economia seria subordinada aos interesses americanos e israelenses e seria administrada diretamente pelo FMI. Suas forças de segurança seriam chefiadas pela CIA e pelo Mossad, o serviço secreto israelense, voltadas para a supressão de qualquer oposição ao regime apoiado pelos Estados Unidos.

Com a manutenção dos assentamentos sionistas, o território deste pseudo-estado continuaria dividido em retalhos de unidades inviáveis, mantendo intactos os bloqueios israelenses das estradas, os postos de fiscalização e as patrulhas que infernizam o cotidiano dos palestinos.

Em resumo, um estado palestino "provisório" seria algo como os bantustões criados pelo regime de apartheid da África do Sul, como um meio de manter a população negra sob condições de miséria abjeta e repressão.

De acordo com relatos da imprensa, a forma final do discurso do presidente americano surgiu de uma áspera discussão na administração Bush onde os principais elementos da direita radical pró-Israel, liderados pelo vice-presidente Richard Cheney e o secretário de defesa, Donald Rumsfeld, prevaleceram.

Como congressista nos anos 80, Cheney foi um dos mais firmes defensores do apartheid da África do Sul, votando repetidas vezes a favor da continuidade dos laços econômicos dos Estados Unidos com o regime racista branco, e também contra uma resolução que exigia a libertação de Nelson Mandela depois após duas décadas de prisão e negociações entre Pretória e o Congresso Nacional Africano.

Até hoje, Cheney defende seu voto alegando que o CNA era "terrorista". Suas opiniões não mudaram e são representativas da elite governante dos Estados Undios preparada para relegar o grosso da humanidade dos países oprimidos à ditadura e miséria.

Bush, que se tornou presidente graças a uma enorme fraude, exortou os palestinos a "construírem uma democracia baseada na tolerância e liberdade" e prometeu a ajuda dos Estados Unidos na organização de eleições "justas".

O que ficou claro no discurso de segunda-feira, no entanto, foi que os Estados Unidos se reservam o direito de decidir quem seria um líder legítimo e quem não seria. E isto funciona tanto na Palestina como no Afeganistão. Não há espaço na Pax Americana imaginada pelo governo Bush para a autodeterminação formal. Washington decidirá, através do poder militar, se necessário.

Este conceito - partilhado pelo governo Bush e pelo regime de Sharon - de que a força resolverá os difíceis problemas históricos do Oriente Médio só pode levar a uma catástrofe social.

 



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