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ATUALIDADES

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SIONISMO OU COLONIALISMO?

Por Ze'ev Sternhell

De um modo geral, é consenso hoje que, no atual estágio, o objetivo primordial declarado dos assentamentos judeus nos territórios já foi alcançado. Conforme foi descrito por Hanoch Marmari no apelo sincero publicado aqui há duas semanas atrás ('Você está sentado sobre a chave', Ha'aretz, 14/06), é o colono ideológico quem segura a chave para o nosso futuro. E, na verdade, se os assentamentos não acabaram de uma vez por todas através de uma decisão política inequívoca e dentro de uma estrutura de um processo de paz abrangente, os assentamentos nos territórios são um processo que continuará até que o último pedaço de terra da Cisjordânia seja "resgatado", ou até que o último dos árabes que se recusam a aceitar a soberania judaica seja expulso.

Portanto, a guerra que nos foi imposta é uma guerra eterna. Agora, quando Ze'ev Hever e seu povo conquistaram aliados como o presidente George Bush, dos Estados Unidos, e o terror islâmico, cada um deles, por conta própria e com suas próprias razões, está fixando condições desmedidas ou insanas para o fim da guerra, na Cisjordânia somente o céu é o limite.

No entanto, o maior perigo inerente ao conceito de assentamento está em outra parte. Em lugar de fortalecer e glorificar o sionismo, os assentamentos desgastarão sua base moral. Se tomar corpo o argumento acabará por justificar não só a velha acusação dos maiores inimigos do sionismo, mas também minará a segurança dos próprios israelenses no contexto do movimento nacional judeu.

As pessoas que provocarão isto são aquelas que dizem que qualquer presença judaica dentro das fronteiras da histórica Terra de Israel origina-se do seu direito à existência a partir do mesmo princípio. Se de fato não existir diferença entre os territórios que foram conquistados no final da Guerra de Independência e aqueles que foram incorporados na Guerra dos Seis Dias, é possível que o sionismo, conforme seus opositores sempre disseram, nunca tenha sido um movimento de libertação nacional ou um movimento para salvar os judeus da extinção física e cultural e sim um movimento imperialista que pretende a expansão constante.

No entanto, felizmente para nós, a verdade é outra. Para o sionismo a sua legitimidade decorre do fato de ser uma resposta ao perigo existencial que ameaçou o povo judeu durante a primeira metade do século XX. Não se tratava de um direito histórico. A necessidade de salvar vidas é que foi a base moral para a conquista da terra. Portanto, o direito de todos os povos de garantir sua existência, controlando seu destino através da criação de uma estrutura política independente, foi o que justificou assumir o controle do território, possibilitando a criação do estado de Israel. A terra não estava desocupada: o slogan "Uma terra sem povo para um povo sem terra" nada mais era do que um dispositivo engenhoso com objetivos de convencimento interno, para silenciar a consciência e manter as boas relações públicas. A dura oposição de vários anos dos árabes não deixou dúvida em suas consciências quanto ao perigo que os ameaça.

Finalmente, depois do Holocausto, que justificava o sionismo, e com o fim da Guerra de Independência, todos os objetivos do movimento sionista tinham sido alcançados. Portanto, há uma diferença essencial entre nosso direito ao Petah Tikva e Ofakim e o roubo das montanhas da Cisjordânia de seus legítimos donos. Quem quer que negue esta diferença essencial acabará transformando todo o movimento nacional judeu, e não só os assentamentos da última geração, em um movimento colonial. Kfar Giladi, Hanita e Merhavya tiveram um papel fundamental em nosso renascimento nacional, ao passo que Beit El, Tappuah e Netzarim mancham não só a imagem moral do Estado de Israel, como lançam dúvidas quanto ao nosso futuro.

Na verdade, este nacionalismo fanático, que é brutal não pela necessidade mas pela opção deliberada e decisão racional, já está começando a fazer germinar ervas daninhas que incentivam a aversão. Refiro-me à mentalidade do colono em sua última manifestação, sob a forma de cartas que os estudantes das escolas dos territórios escreveram aos soldados da Operação Escudo de Defesa. Essas crianças não pediam aos soldados que eliminassem o terror e acabassem com os terroristas e sim que "matem o máximo possível de árabes". Um pediu "por mim, mate pelo menos uns 10"; um outro fez até uma sugestão mais simples: "Ignore as leis e pulverize-os".

O interessante não é o comportamento dessas crianças, e aparentemente o de seus professores, em relação à vida humana e sim o motivo apresentado na defesa delas. Escrevendo no diário Yedioth Ahronoth (5/05), Emunah Elon, uma porta-voz dos colonos, não se desculpa e não encara essas cartas como "um fracasso da educação". Ninguém conseguirá fazer com que ela admita ter perdido o caminho: ela elogia essas manifestações como uma "inimizade saudável" (não menos!) e também vê a sugestão para ignorar as leis do estado como uma abordagem saudável, prática e madura. Houve uma época na Europa, também, que pessoas inspiradas como Emunah Elon achavam que a observância das normas de guerra, isto é, manter a humanidade, era perigoso, supérfluo e até indicativo de fraqueza de caráter. A isto nós - o povo que foi a vítima dos valores que estão sendo pregados nas escolas dos assentamentos - chegamos por causa do profundo desprezo pelos direitos humanos e por uma crença cega em nosso direito absoluto de legislar para toda esta terra e seus habitantes. Mesmo o bárbaro terror palestino não pode justificar tamanha bestialidade.

Ha'aretz, 28/06/02



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