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ATUALIDADES

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SIM, SOU UM PALESTINO DE GAZA

Por Ramzy Baroud - 27/05/02

Este é o fim de uma jornada? Samih Shqir canta, uma voz solitária, na minha pequena sala: "Saudades da terra natal, ó a mãe me pergunta onde estão seus entes queridos?" Eu me junto. No entanto, minha voz tosca interfere no curso da canção, principalmente porque uma presença inesperada de lágrimas enrouquece mais ainda minha voz. Sim, deve ser o fim da jornada.

Quando arrastei minha bagagem e me dirigi a Palestina, há um mês atrás, eu esperava encontrar Jenin, meu campo de refugiado e meu amado país, abraçar meu pai, rezar diante do túmulo de minha mãe, dividir lembrancinhas com sobrinhos e sobrinhas. Mas voltei desanimado com o fato de que,para um palestino, mesmo os desejos simples significam muito mais do que desejar. E eu sou um palestino.

Parti para a Palestina munido de vários documentos, passaportes, identidades, alguns emitidos pelos palestinos, outros pelos egípcios, americanos e até israelenses, quando eles governavam Gaza. Mas, nem uma única vez em toda a minha viagem, a minha identidade como palestino foi reconhecida. Carrego o peso de quatro nações na bagagem e, ainda assim, não pertenço a nenhuma.

"Implorei como nunca implorei antes", foi a primeira coisa que disse a minha esposa, que me recebeu no aeroporto com nossas duas filhas. Implorei a eles que me deixassem entrar na Palestina. Eu estava tão emproado quando tentei entrar pela primeira vez na Cisjordânia. Talvez me sentisse poderoso pelo fato de trazer um passaporte americano ou pela certeza de que o direito de uma pessoa de visitar sua família após oito anos não é pedir muito. Estava errado.

Eu sabia que um dia me arrependeria de implorar a um soldado israelense desinteressado, um entre muitos que tomam conta do posto de fronteira entre a Jordânia e a Cisjordânia: "Você tem que deixar eu entrar, você não pode fazer isto comigo. É minha família, você sabe o que é uma família? Meu pai está morrendo. Eu tenho que visitar minha casa." Ele olhou para mim e não conseguiu disfarçar um sorriso esperto: "Não posso ajudá-lo, você tem que voltar para Washington."

É a mesma declaração que ouvi por diversas vezes da maior parte daqueles a quem busquei ajuda. Até palestinos simpáticos me pediram "volte", que não havia esperança, Israel não me deixaria entrar. Mas, quem é capaz de definir "retorno", se "retorno a casa" para mim significa Gaza e não Washington? Washington abrirá seus braços para me envolver quando eu "voltar"?

Eu era apontado em cada aeroporto que entrei. Até em Amsterdã, na volta, um longo interrogatório fez com que eu fosse o último passageiro a ser admitido no avião, embora eu tivesse chegado horas antes de qualquer um. Meu passaporte americano diz que o lugar de meu nascimento é Gaza. Os olhos desconfiados que esta simples palavra de quatro letras gera foram o bastante para fazer com que eu me sentisse um criminoso, à margem da lei, de Amã, cruzando a Europa e de volta para os Estados Unidos. "Então, você é de Gaza?", perguntaram-me em várias línguas e em vários aeroportos.

Cada vez que eu provava minha inocência e encontrava minha poltrona no avião, eu ia carregando o sentimento de culpa por todo o caminho até o próximo destino, onde, mais uma vez, eu era apontado, posto de lado e investigado, com suspeita, como um rato que caiu na ratoeira: "Então, você é de Gaza?"

No caminho de volta, carreguei minha tristeza e peguei um longo vôo de Amsterdã. Eu estava determinado a manter em segredo meu crime de todos os que estavam no avião. Mas, a ferida se abriu com a história de um ítalo-americano, da Sicília, que acabara de visitar seu lugar de nascimento na Itália, depois de 53 anos de separação.

Perguntei àquele homem de barba elegante e coração cheio de alegria: Honestamente, você teve o sentimento de pertencer à Sicília depois de todos esses anos, mesmo tendo partido ainda criança?

"Sabe", respondeu ele com os olhos perdidos no espaço limitado do avião lotado, "se sua mãe lhe deu a luz e se você foi forçado a partir logo depois do nascimento, ela ainda permanece sua mãe, mesmo depois de 53 anos. Para mim, a Sicília é como uma mãe. Não posso descrever como foi incrível o meu encontro com ela, abraçá-la, beijá-la. E você, qual foi a sua visita?"

"Também estava procurando por minha mãe", respondi, desta vez com as mesmas lágrimas indesejáveis se acumulando em meus olhos cansados. "Infelizmente, nem a encontrei, nem a abracei ou beijei." O homem compreendeu a minha história e eu passei horas respondendo às suas perguntas sobre a minha mãe perdida. Ele comentou, de forma inteligente e muito simpática: "não importa o que eles façam, eles não podem negar a você o amor de uma mãe."

Minhas duas filhas correram para mim quando cheguei, cansado: "Papai", gritaram, "você conseguiu o vestido da Palestina com todas as cores do arco-íris?", perguntou, excitada, minha filha de três anos, Zarefah. "Sim, querida, consegui."

Zarefah não vai mais dormir sem "uma história especial sobre a Palestina." Eu construí várias histórias sobre a minha viagem imaginária a Gaza, sobre as praias e como seu avô ficou zangado por eu não ter levado a neta. O anjinho acreditou em cada palavra. Como desejo que estas histórias imaginárias fossem verdadeiras.

http://www.iap.org/yesfromgaza.htm



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