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ATUALIDADES

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A ESCOLHA É ENTRE FAZER NADA OU TENTAR FAZER ALGUMA COISA

Hilary Rose e Steven Rose

Por que iniciamos o boicote das instituições israelenses.

A carnificina no Oriente Médio continua; hoje, um homem bomba, amanhã um ataque a palestinos, com helicópteros, mísseis e tanques israelenses. Os israelenses continuam a invadir cidades palestinas e a ampliar os  assentamentos ilegais nos territórios ocupados. Ariel Sharon se recusa a negociar, enquanto a "violência" (ou seja, a resistência palestina) continuar. Nosso próprio governo derrama lágrimas de crocodilo ante a perda de vidas, enquanto convida um primeiro-ministro, acusado de crimes de guerra, a almoçar e abastece seu exército com peças de F-16. No entanto, todo ser racional sabe que a única perspectiva de uma paz justa e duradoura repousa no reconhecimento de Israel da legitimidade do estado palestino e da aceitação, pelo mundo árabe, de uma Israel segura por trás de suas fronteiras de 1967. Isto é o que cada plano de paz propõe. Mas, como se chegar lá? Existe alguma coisa que cidadãos comuns, isto é, a sociedade civil, possa fazer para pressionar nossos governos e instituições internacionais a levar o processo de paz adiante?

Uma das armas não violentas à disposição da sociedade civil para expressar o seu inconformismo moral é o boicote. Internacionalmente este foi o mais bem sucedido contra o apartheid sul-africano. Levou muitos anos mas, finalmente, envergonhou governos e corporações multinacionais a isolarem aquele regime iníquo. O boicote convocado no ano passado pelos movimentos de solidariedade a Palestina foi contra os produtos israelenses. Este também se move vagarosamente mas apenas há algumas semanas atrás garantiu a proibição da venda de produtos produzidos nos assentamentos, ilegalmente rotulados "made in Israel".

A comunidade internacional ligada aos meios acadêmico, cultural e de esportes, teve um papel importante no isolamento da África do Sul e cada vez mais aprendemos com as pessoas que nos ensinaram que cooperar com as instituições israelenses era o mesmo que colaborar com o regime apartheid. Um escritor se recusou a ter sua peça encenada em Israel, um músico rejeitou  o convite para se apresentar e um acadêmico a participar de uma conferência.

Foram as recusas éticas individuais que nos levaram a fazer uma convocação restrita à suspensão temporária da pesquisa européia e da colaboração acadêmica com  instituições israelenses, até que o governo de Israel abrisse negociações de paz sérias. Notamos que Israel, um país do Oriente Médio, foi aceito como uma parte integrante da comunidade científica européia, enquanto seus vizinhos não foram. Nós passamos um esboço de carta entre os colegas no Reino Unido e em outros países europeus e, em dias, as assinaturas de apoio começaram a afluir.

Quando a carta foi publicada no Guardian, em abril, ela apresentava 120 nomes. Uma cópia foi publicada na França; seu website tem, agora, mais de 1000 nomes.Uma outra convocação foi publicada na Itália e outra na Austrália. A Associação dos Professores de Universidade adotou a convocação pela suspensão; o sindicato dos palestrantes, Nathfe, um resolução até mais forte. Num caminho alternativo semelhante, foi publicado um anúncio pelos judeus americanos no New York Times, pedindo a retirada de investimentos em Israel até que as negociações de paz fossem abertas.

O que é evidente é que um boicote cultural e econômico está sendo montado aos poucos. Não se trata de uma entidade monolítica. Varia desde a resistência mais modesta implícita em nossa carta inicial, tal como a recusa pessoa em participar de pesquisas em colaboração com instituições israelenses, até a gestos públicos de oposição. Tais atos são dolorosos e muito embora o alvo seja institucional, as ações muitas vezes significam uma ruptura com antigos colegas. Por isso, é importante que o boicote seja acoplado a um apoio positivo aos refuseniks (1) israelenses que continuam a se opor aos atos de seu governo eleito.

É isto que sugere que, como fez Jonathan Freedland no Guardian da semana passada,  o boicote é, de alguma forma, comparável ao imposto pela Alemanha nazista às lojas judaicas. Isto bate com os muitos e-mails irados que as pessoas que apoiaram o boicote receberam, acusando-os de anti-semitismo ou até de negadores do Holocausto. Se os defensores do governo israelense não conseguem fazer a diferença entre  oposição à política de estado israelense e ser anti-semita, não é de admirar  que os verdadeiros anti-semitas confundam as duas posições.

Confrontados por este movimento internacional crescente, alguns gritam impropérios. O boicote  ameaça os frágeis laços acadêmicos existentes entre israelenses e palestinos? No entanto, esses laços estão mais ameaçados em razão das restrições ao movimento que o governo israelense impõe aos pesquisadores palestinos e as repetidas tentativas de fechar as universidades palestinas. E nenhum palestino manifestou essa preocupação; pelo contrário, como os da Universidade em Bir Zeit, apoiaram o boicote como forma de chamar a atenção para as brutais restrições à liberdade acadêmica de ensinar, estudar e pesquisar.

A atenção exagerada às questões da "liberdade acadêmica", levantada pela remoção unilateral de dois acadêmicos israelenses do conselho editorial,  por serem signatários do boicote, é como focalizar em um potencial assunto local para evitar a grita internacional flagrante. Esta súbita preocupação institucional com a liberdade acadêmica não é desprovida de interesse histórico.

No final dos anos 60, no auge do movimento estudantil, Robin Blackburn, professor universitário, foi despedido pelo apoio aos estudantes que tinham retirado os portões da London School of Economics. Houve um silêncio retumbante a esta quebra de seu direito de expressão. Mas é estranho ouvir a liberdade acadêmica ser invocada como uma abstração no mundo universitário, onde a maior parte da pesquisa está fundada nos interesses industriais corporativos, e onde uma pesquisa biológica pode ser encerrada por um acordo de patentes. Há algumas semanas atrás, dois pesquisadores foram ameaçados de prisão por terem enviado material clonado do laboratório onde trabalhavam para um outro, para o qual estavam indo.

Ao contrário de alguns daqueles tocadores de apito, que chamaram a atenção para os riscos da engenharia genética, ninguém perde o emprego por ter boicotado. Na pior das hipóteses, eles se arriscam ao isolamento da comunidade acadêmica internacional no campo da pesquisa. Aqueles que foram ameaçados com a demissão e, pior, por terem apoiado o boicote são uns poucos israelenses corajosos que atenderam ao chamado.

Hoje, a opção da sociedade civil - e acadêmicos e pesquisadores são parte da sociedade civil - é permanecer calada e não fazer nada ou, então, tentar pressionar. A declaração do arcebispo Desmond Tutu de apoio ao boicote termina com esta citação de Martin Luther King: "Nossa vida começa a se extinguir no dia em que nos calamos sobre as coisas que importam."

Hilary Rose é professora de política social na Universidade de Bradford; Stevem Rose é professor de biologia na Universidade Aberta. Eles prepararam o chamado ao boicote a Israel.

Publicado no The Guardian, em 15/07/02

(1) refuseniks: cidadão soviético, principalmente judeu, sem permissão para emigrar.



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