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ATUALIDADES

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QUANDO "APANHADO NO FOGO CRUZADO" NÃO DÁ MARGEM A DÚVIDAS

(*) Por Robert Fisk

Quando li a palavra "fogo cruzado" sublinhei. No Oriente Médio isto quase sempre significa que os israelenses mataram pessoas inocentes. Quando em 1996, eles bombardearam um reduto da ONU em Qana, no sul do Líbano, a revista Time mostrou a fotografia de uma criança morta, com uma legenda que dizia tinha sido morta num "fogo cruzado". Isto não é verdade. A criança foi morta, juntamente com outros 105 civis,  num bombardeio israelense que começou depois que o Hizbollah abriu fogo contra uma unidade do exército israelense que estava colocando minas no território da ONU.

Assim, quando Mohammed al-Durah, de 12 anos, foi morto em Gaza, no último sábado e   li no telex da Associated Press que o menino "tinha sido apanhado em meio a um fogo cruzado", soube, logo de início, quem tinha matado o garoto. Correto, os repórteres que investigavam a morte disseram que o garoto foi baleado pelas tropas israelenses. Da mesma forma que seu pai, que sobreviveu, e também o motorista da ambulância, que morreu enquanto tentava resgatar o menino. Contudo, a BBC ontem de manhã ainda dizia que Mohammed al-Durah foi "apanhado num fogo cruzado de uma batalha que deixou centenas de feridos e matou muitos outros". Sabia o que isto queria dizer.

Na verdade, os soldados israelenses que mataram o menino podem não saber em quem eles atiraram. Aparentemente, eles atiravam contra o muro. Mas, por que a relutância por parte dos jornalistas em dizerem a verdade? Por que a AP no seu relatório de sábado, só no parágrafo 17 é que mencionou que as tropas israelenses, de acordo com as palavras do oficial, atiraram mísseis anti-tanques durante o confronto? O que estava o exército israelense fazendo ao usar mísseis contra manifestantes?

Ontem a tarde, a estória tinha se transformado num jogo de "acusações". Os israelenses acusavam a Autoridade Palestina de estar organizando as manifestações. O serviço de rádio da BBC passou o vídeo de um oficial israelense afirmando que os manifestantes estavam "atirando coquetéis molotov (sic) e pedras" que "matam as pessoas". Um ouvinte que concluísse que, nas últimas 72 horas, 22 israelenses foram mortos, ao invés dos 22 palestinos, poderia perfeitamente ser perdoado pelo engano. Então, a BBC passou um vídeo de Nabil Shaath, o porta-voz palestino, dizendo que os israelenses, e não os palestinos, tinham sido baleados.

A verdade é uma bala dura de ser mordida. Os policiais palestinos também abriram fogo contra os israelenses. Ironicamente, a impressa árabe de Beirute não hesitou em dizer isto. A impressa do Líbano mostrou fotos de policiais palestinos atirando com rifles kalashnikov nas tropas israelenses. Mas, considerando o fato de que eles não mataram um único israelense, só um deles foi ferido enquanto atirava,  isto por si só seria justificativa para não mencionar que os palestinos, e não os israelenses, foram as vítimas?

A BBC Television deu voltas para informar sobre a visita claramente provocativa de Ariel Sharon à Esplanada das Mesquitas na quinta-feira, mas ontem eles o chamavam de um "líder israelense", quando para os palestinos ele é o homem responsável   indireto (de acordo com a própria investigação israelense) pelo massacre de mais de 2.000 palestinos civis nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, em Beirute, há 18 anos atrás. O correspondente da BBC, Paul Adams, foi um dos poucos que corajosamente chamou a atenção para esse terrível registro, salientando que Sharon tinha "uma extraordinária capacidade de deixar ... a destruição por onde passa."

E então, na noite passada, a estória mudou. Não mais soldados e policiais israelenses que mataram pelo menos 22 palestinos; agora a questão era se a Autoridade Palestina organizou as manifestações que "levaram" (sic) às mortes. Os soldados israelenses, que desrespeitaram todos os compromissos com os direitos humanos, atirando nos manifestantes, eram respeitosamente chamados de "forças de segurança israelense", e ignorava-se o fato de que "segurança" foi a única coisa que os soldados israelenses não conseguiram fornecer.

Na CNN e na BBC, e em outros canais via satélite, os repórteres eram perguntados se as mortes poderiam prejudicar o "processo de paz", sem qualquer análise sobre o fato de que é o colapso do processo de paz que está por trás das manifestações. As áreas sagradas muçulmanas de Jerusalém estão em disputa, muito embora a resolução 242, do Conselho de Segurança da ONU, no qual o "processo de paz"   supostamente se baseia, exija a retirada das forças israelenses dos territórios ocupados durante a guerra de 1967, inclusive de Jerusalém oriental.

O que se esconde por trás disso, além da inabilidade de muitos jornalistas, é a crença persistente de que os palestinos são, por natureza, violentos e arruaceiros.

Os Estados Unidos pediram o fim da "violência" - uma cortesia da secretária de estado Madeleine Albright - sem fazer qualquer menção à grotesca visita de Sharon à Esplanada das Mesquitas, em Jerusalém oriental. Ontem a noite, a BBC mais uma vez informava que "as autoridades israelenses estavam preocupadas com o que pode acontecer mais adiante". E os palestinos, não estão?

02/10/2000

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Robert Fisk é um conhecido jornalista inglês, que escreve regularmente para o Independent. Mais artigos dele podem ser encontrados em

http://www.independent.co.uk/news/World/Middle_East/2000-10/fisk021000.shtml

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