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ATUALIDADES

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O RETORNO AO AFEGANISTÃO: PARA OS AFEGÃOS ESQUECIDOS, A ONU OFERECE UM NOVO INFERNO

Por Robert Fisk - 07/08/02

No Afeganistão, é possível ir-se de um inferno a outro. O primeiro círculo do inferno é a Área de Espera, o mar de poeira seca cheio de fezes, onde 60.000 afegãos apodrecem ao longo da fronteira com o Paquistão, em Chaman - um lugar extremamente seco e cortado pelas rajadas de areia, das tendas remendadas dos beduínos, camelos esquálidos, infestados de mantas e doenças de pele. Há crianças rindo, com terríveis feridas no rosto, mulheres velhas aos 30 anos, homens de barbas brancas e turbantes negros, que das barracas de galhos secos, olham com desconfiança e espanto para os ocidentais.

Eles são o vestígio da última guerra afegã, aquela que querem nos fazer crer que acabou, embora eles sejam a prova viva de que as hostilidades não acabaram. Pelo menos 40.000 refugiados pashtun não podem voltar para casa porque sua gente ainda está sendo perseguida no norte do país. Mas o Paquistão não quer mais este rebotalho de pobres e destituídos em sua fronteira, que deve estar  completamente limpa.

Por isso, a ONU, a grande salvadora dos despossuídos, descobriu um outro lugar abominável para essas pessoas. Um segundo círculo de inferno, a uns 20 km de Candahar, cinza, deserto quente, cheio de minas terrestres, atingido por ventos incandescentes e pedras negras, cercado de grandes e enrugadas montanhas e montes de areia que se movem como ondas.

A ONU furou poços para os 60.000 - mais de 20 metros para encontrar água - contudo alguns funcionários da ONU pouco podem fazer além de balançar a cabeça quando ficam diante dessa futura esterqueira. Tem o nome de Zheray Dasht - "deserto amarelo" em urdu - por causa das flores que cobrem a areia depois da chuva. Mas não chove por aqui há sete anos.

Roy Oliff, da Comissão de Refugiados da ONU, descreve a tomada de decisão para nós com uma eficiência quase teutônica, enquanto permanece em meio a esta desolação. "Há uma necessidade política de tirá-los de Chaman: eles talvez não tenham escolha", diz ele. "Este foi o lugar que o governo afegão cedeu para nós. Não tivemos escolha. As pessoas das vizinhanças não queriam os deslocados próximos de suas aldeias para não tirarem o emprego e nem usar os poucos recursos hídricos. Esta área está razoavelmente (sic) livre das minas. Não estamos prevendo muita resistência. Se eles tiverem água e comida, haverá uma enchente de pessoas aqui, mas não resistência. Cerca de 5.000 pessoas serão abrigadas em 12 acampamentos ."

Por todo o solo duro do deserto, centenas de tendas vazias marrom escuro agitam-se ao vento. Há latrinas e grandes áreas de recepção cobertas e terra para cada família, na qual - se a água durar na seca interminável - eles poderão plantar árvores e criar animais. "Leva uma semana para eles construírem uma casa murada", explica-nos o sr. Oliff. Observem que aqui é a ONU falando.

Não há escolha para os refugiados. Não há escolha para a ONU. Pouca resistência por parte dos refugiados. Foi assim que a ONU falou na Bósnia, enquanto ajudavam os sérvios em sua limpeza étnica, carregando os muçulmanos em caminhões de cidade em cidade. Não é culpa do sr. Oliff. Quando gentilmente levantei a questão da consciência coletiva da ONU, sempre supondo existir uma criatura tão sensível dentro da instituição mais burocrática do mundo, ele olha para mim com alguma tristeza. "Todos os envolvidos neste projeto têm seus receios e estão fazendo o melhor que podem", diz ele.

A verdade, tão rara quanto a água no Afeganistão, é que o Paquistão já limitou violentamente a capacidade dos agentes humanitários nos acampamentos da fronteira e as autoridades afegãs em Candahar não querem os refugiados muito perto de sua própria cidade. Existem pouquíssimas famílias arabo-afegãs nos acampamentos da fronteira - as famílias da al-Qaida entre elas - e muitos simpatizantes do Talebã. Em dezembro passado,  Spin Boldak, na linha da velha Durrand de Chaman, era a última fortaleza dos misóginos de turbantes negros. Os afegãos não os querem infectando Candahar de novo.

Mohammed Godbedin, da Comissão de Refugiados da ONU em Chaman, diz que pelo menos 50 famílias afegãs chegaram aos acampamentos locais ("Todos chegaram juntos e não individualmente", diz ele), embora muitas das famílias já existissem bem antes dos dias da al-Qaida. O restante dos refugiados são Kochi, nômades cujo gado morreu por causa da seca e que nunca tiveram casa. Em poucos dias, os primeiros deslocados de Chaman e Spin Boldak serão levados para visitar o Deserto Amarelo, para decidir se estão preparados para se mudarem.

Mas este é um mero ritual. Funcionários paquistaneses e afegãos tomarão a decisão final, com a costumeira anuência da ONU. Os líderes dos refugiados serão levados de caminhão para a auto-estrada Candahar-Herat e em seguida deixados ao longo de um caminho de areia, marcado por pedras brancas e vermelhas. De um dos lados desses marcadores estão as minas terrestres deixadas pelos mujahidin durante a guerra contra a ocupação soviética. "São minas contra veículos e não antipessoais, portanto elas não explodirão nas pessoas", diz o funcionário da ONU de modo prestativo.

A menos, é claro, que os refugiados consigam um caminhão velho e dirijam para o lado errado dos marcadores. Para além da antiga fortaleza militar russa, onde as barricadas ainda são evidentes em meio ao estrume cinza, o deserto se nivela. É onde a terra está "razoavelmente"  livre das minas. E onde a ONU construiu seu campo de refugiados.

As coisas poderiam ser diferentes se as batalhas dos senhores da guerra acabassem no norte, se os americanos permitissem que as forças de paz internacionais saíssem de Cabul e pegassem as armas no norte e apagassem os fogos étnicos. Mais da metade dos refugiados da fronteira poderiam, então, voltar para suas casas. Mas o Afeganistão, a cada semana, está ficando mais sem lei. Refugiados continua a definição linguística da maior parte deste país. E o Deserto Amarelo, a última prisão da ONU para 60.000 destituídos de Chaman e Spin Boldak, logo estará em todos os nossos mapas.



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