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ATUALIDADES

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O RETORNO AO AFEGANISTÃO: FAMÍLIAS DOS DESAPARECIDOS QUEREM RESPOSTAS

Por Robert Fisk - 08/08/02

Eles vieram buscar Hussain Abdul Qadir, no dia 25 de maio. De acordo com sua esposa, havia três agentes americanos do FBI e 25 homens do CID paquistanês local. A família palestina vivera na cidade paquistanesa de Peshawar durante anos e tinha até pedido a naturalização.

Mas,  esta não era uma visita cordial à casa da rua Hayatabad. "Eles quebraram o portão principal e entraram na casa sem qualquer respeito", diria mais tarde a sra. Abdul Qadir, ao representante de direitos humanos do Ministério da Justiça em Islamabad.

"Eles vendaram os olhos do meu marido e amarraram suas mãos às costas. Reviraram a casa - levaram nosso computador, o celular e até nosso telefone comum. Levaram o vídeo e aparelho de som. Levaram todos os nossos documentos importantes - nossos passaportes e outros certificados - e levaram nosso dinheiro também", disse ela.

Onde, perguntava a sra.Abdul Qadir a Ahsan Akhtar, o diretor de direitos humanos, estava o seu marido? O Independent agora sabe exatamente onde ele está - ele é um prisioneiro em uma gaiola na grande base aérea americana de Bagram, no Afeganistão. Ele foi sequestrado - parece que não há outra palavra para definir o que aconteceu - por americanos e simplesmente levado para a fronteira internacional do Paquistão. Não se sabe qual foi o seu "crime". Ele não tem advogados que possam defendê-lo. No vácuo da "guerra contra o terror" dos Estados Unidos, o sr. Abdul Qadir tornou-se uma não-pessoa, ele não existe.

Sua esposa recebeu da Cruz Vermelha uma folha de papel que não dá qualquer indício da  localização geográfica do prisioneiro, mas classifica sua nacionalidade como "palastiniano" (sic) e a seguinte mensagem escrita num árabe precário: "Para a família e filhos em Peshawar. Estou bem e preciso, em primeiro lugar e mais importante de tudo, da misericórdia de Deus e das preces de vocês. Cuidem de sua fé e sejam gentis uns com os outros. Vocês poderiam me mandar meus óculos de leitura? Seu pai: Hussein Abdul Qadir."

O pedaço de papel está datado de 29 de junho e a Cruz Vermelha confirmou que o prisioneiro - ICRC n° AB7 001486-01 - foi entrevistado em Bagram.

Não é preciso dizer que os americanos não darão qualquer informação sobre seus prisioneiros ou os motivos que determinaram as detenções. Não dirão se os interrogadores são afegãos ou americanos - há rumores cada vez mais crescentes de que os interrogadores afegãos estão autorizados a bater nos prisioneiros na frente dos homens da CIA - ou se, ou quando, eles pretendem libertar seus presos. Na verdade, os americanos não confirmarão sequer que os prisioneiros foram apanhados no Paquistão e levados para o Afeganistão através da fronteira.

Fatima Yussef também se queixou às autoridades paquistanesas de que seu marido, o sírio Manhal al-Hariri - um diretor de escola que trabalha para a sociedade saudita Crescente Vermelho - foi tirado de sua casa, em Peshawar, na mesma noite que o sr. Abdul Qadir, mais uma vez, por três americanos e um grupo de homens do CID paquistanês.

"Tenho o direito de perguntar onde meu marido está e de saber para onde eles o levaram", escreveu ela para as autoridades paquistanesas. "Tenho o direito de fazer um apelo para que o libertem agora, depois do interrogatório, tenho o direito de exigir a devolução das coisas que eles levaram da minha casa."

Um médico argelino, Bositta Fathi, de acordo com sua esposa, também foi levado na mesma noite por dois americanos e soldados paquistaneses. "Não tenho qualquer apoio e não sou capaz de ir a qualquer lugar sem o meu marido", disse ela ao sr. Akhtar, em Islamabad. Acredita-se que tanto o sr. Hariri como o dr. Fathi estejam em Bagram, que é agora o principal centro de interrogatório do Afeganistão. "De lá", disse um agente humanitário ao Independent, "ou você é libertado ou remetido para Guantanamo. Ninguém sabe qual é o destino dessas pessoas ou o que elas fizeram. Parece que tudo isto está ao arrepio da lei."

Muitos árabes se mudaram para Peshawar durante a guerra contra os russos no Afeganistão e ficaram lá, trabalhando como médicos ou agentes humanitários. Os Abdul Qadirs, por exemplo, pediram a naturalização em janeiro de 1993 - o sr. Abdul Wadir tem um passaporte jordaniano - muito antes, portanto, de Osama bin Laden voltar para o Afeganistão e fundar seu movimento al-Qaida.

"Não sei por que tudo isto aconteceu conosco, talvez porque sejamos muçulmanos e árabes", diz a sra. Abdul Qadir. "Quero notícias do meu marido. Nós deixaremos o Paquistão se o governo quiser. Faremos o que quer que o governo queira, mas de uma forma humana e civilizada."

* Pelo menos 15 pessoas foram mortas num tiroteio entre a polícia afegã e o que testemunhas disseram ontem é que era um grupo de árabes e sul-paquistaneses de Cabul. Omar Samad, um porta-voz do ministro do Exterior descreveu o bando como "determinado e suicida".

 



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