or_bar.gif (1182 bytes)

ATUALIDADES

or_bar.gif (1182 bytes)

A ADMINISTRAÇÃO BUSH QUER A GUERRA

Por David North

Se nada tivesse sido alcançado, a oferta do governo iraquiano de aceitar incondicionalmente o retorno dos inspetores da ONU evidenciou a mais fundamental verdade da política internacional contemporânea: a administração Bush quer a guerra. Suas afirmações histéricas de "armas de destruição em massa" nada mais foram do que um meio de produzir uma justificativa pública para a guerra. O governo Bush respondeu com raiva à nota diplomática do ministro das Relações Exteriores iraquiano - exigindo que ela fosse ignorada pela ONU - porque sabe que a concessão de Saddam Hussein priva os Estados Unidos de um pseudo-pretexto legal para invadir o Iraque, destruindo seu governo, ocupando seus campos de petróleo e reduzindo o país à condição de semi-colônia.

Na semana passada, estrategistas de Bush na ONU tinham quase que certo que o Iraque não seria capaz de cumprir as resoluções draconianas e provocadoras que o Estados Unidos queriam impor à força ao Conselho de Segurança. Além do mais, as resoluções deixariam a critério dos Estados Unidos decidir se o Iraque estava ou não acatando tais resoluções. O governo Bush estava confiante em que este arranjo iria fornecer inevitavelmente o pretexto para que os Estados Unidos, em semanas, ou mesmo em dias, iniciassem a guerra. Eles simplesmente declarariam que o Iraque não estava em "concordância', para iniciar as hostilidades.

Pelo menos no momento, este cenário modificou-se de alguma forma - embora não haja razão para acreditar que a ONU não se curve à pressão americana. O governo Bush por certo que conseguirá não só as resoluções como a guerra que tanto deseja.

Por mais de meio século, toda administração americana invocou o espectro de Munique de 1938 - quando o primeiro-ministro inglês, Neville Chamberlain, sucumbiu a Hitler e cedeu a Tchecoslováquia aos nazistas - para justificar sua agressiva política imperialista. De um modo geral, a América disfarça suas ações sob o manto da resistência a agressão. Mas esta última tentativa de lançar Bush como o equivalente moderno de Churchill, permanecendo firme no deserto contra aqueles que transigiam com o tirano impiedoso, alcança um grau de hipocrisia jamais alcançada por qualquer outra administração. Nada  lembra mais os métodos empregados pelo regime nazista na invenção premeditada de uma crise tcheca e sua conduta das negociações em Munique, em setembro de 1938, do que as táticas utilizadas pelo governo Bush em relação ao Iraque.

No verão de 1938, o regime hitlerista viu na guerra uma resposta necessária para as contradições sócio-econômicas de uma população para a qual os nazistas não tinham uma solução racional. A crise que surgiu em relação aos Sudetos tinha muito pouco a ver com questões específicas que pudessem justificar um ataque de Hitler à Tchecoslováquia - principalmente, os supostos maus tratos da minoria alemã - e muito mais com o objetivo de criar elementos dentro do regime nazista para encontrar um pretexto para a guerra. De fato, como muitos historiadores demonstraram, Hitler estava menos interessado em obter concessões da Tchecoslováquia do que em conseguir uma desculpa para começar a guerra. 

Em sua magistral biografia de Hitler, o historiador Ian Kershaw relata que o líder nazista estava aflito para que as concessões inglesas e francesas em Munique permitissem a Alemanha ocupar os Sudetos, sem que um tiro fosse disparado. Hitler assinou os documentos que previam o desmembramento da Tchecoslováquia com relutância. "Para ele, o documento não tinha sentido. E para ele, Munique não tinha muito motivo para celebração. Ele se sentiu traído pelo triunfo maior que ele certamente teria no caso de uma guerra com os tchecos e que tinha sido seu objetivo durante todo o verão" (Hitler 1936-1945: Nemesis (New York and London, 2001), pp. 122-23].

George Bush não é Adolf Hitler e sua administração não é o equivalente americano do regime nazista. Mas sua política estrangeira está sendo moldada por segmentos implacáveis e imprudentes da elite governante americana, que estão exigindo o uso da guerra como uma forma de realizar as ambições geoestratégicas e econômicas globais do imperialismo americano. Uma amostra de artigos que surgiram nos dois últimos dias no Wall Street Journal reflete a visão de elementos da classe capitalista que exercem uma enorme influência na administração. Numa coluna intitulada "Finish the War", Victor Davis Hanson escreveu, na terça-feira, que os Estados Unidos "precisam invadir, conquistar e pacificar" o Iraque.

"A libertação do Iraque é mais uma questão de "quando" do que "se", declarou Hanson. No mesmo dia, George Melloan, o editor substituto do Journal declarou que o ultimato de Bush à ONU "cria o cenário para a expulsão de Saddam Hussein". Ele continuou: "Como isto será feito é com o exército americano. Mas, por enquanto, a situação está sob controle."

Em outro artigo, publicado na segunda-feira e intitulado "O Petróleo de Saddam", o Journal afirmou sem rodeios que "a melhor forma de manter os preços do petróleo sob controle é uma guerra curta e bem sucedida contra o Iraque que se inicie imediatamente."

A administração Bush - que se vê às voltas com uma séria crise econômica e em meio a um escândalo que põe em cheque os pilares do capitalismo americano - vê na guerra um meio de desviar a atenção dos difíceis problemas internos.

Se o governo Bush conseguir levar adiante sua guerra contra o Iraque, isto será o prelúdio de atrocidades maiores e até mais sangrentas.

Publicado no WSWS de 18/09/02



1