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ATUALIDADES

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A TERRA QUE FALTA DEVOLVER

O primeiro-ministro de Israel, Ariel Sharon, vai resistir, espernear, reclamar, talvez comprar mais uma briga com os Estados Unidos. No fim, porém, terá de fazer o inevitável: tirar o Exército israelense dos territórios palestinos. Depois, ele, ou um eventual sucessor, também será arrastado de volta para algum tipo de negociação com o inimigo. Entre outras questões está a do que fazer com os assentamentos de colonos judaicos dentro das áreas palestinas.

Toda vez que o conflito no Oriente Médio pega fogo, retomam-se automaticamente as mesmas perguntas. Por que Israel não volta para o seu lado da fronteira, tal como ela é reconhecida internacionalmente? Por que não ergue ali uma barreira intransponível de forma a impedir que terroristas palestinos a atravessem para explodir civis inocentes? A resposta, basicamente, é: porque Israel não quer. Com variações diferentes de intensidade, os dirigentes israelenses acreditam que é vital para a segurança nacional manter sua gente e suas tropas em trechos dos territórios palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. O que se voltará a discutir, assim que algum bom senso for restabelecido, é quais desses assentamentos serão mantidos e quais desmantelados.

Quando se ouve falar em assentamentos, ou colônias, costuma-se imaginar algo como acampamentos, com barracas e instalações precárias. A maioria desses núcleos habitacionais na verdade se parece com os condomínios fechados que proliferam nas imediações das grandes cidades brasileiras - sem o luxo dos empreendimentos mais sofisticados daqui. Compostos de sobrados cor de areia com telhado vermelho, podem ter desde algumas poucas ruas até as dimensões de uma pequena cidade. A presença deles é mais visível em torno de Jerusalém. Assim que Israel conquistou a parte árabe da Cidade Santa, na guerra de 1967, começou a ser planejada a implantação de um verdadeiro "exército de alvenaria", fileiras e mais fileiras de casas destinadas a moradores judeus. Os objetivos eram tanto militares como políticos: tomar posse de Jerusalém inteira, no papel (pela anexação) e na prática (via enraizamento populacional). Moram atualmente nesses bairros judeus fincados em Jerusalém Oriental 170.000 pessoas. Na Cisjordânia são 206.000 e na estreita Faixa de Gaza, 7.000. Em Golã, região conquistada da Síria e que a ela eventualmente retornará, 16.000. No total, o número de colônias chega a 193.

Em geral, quanto mais perto de Jerusalém, mais "civis" são os assentamentos - ou seja, habitados por gente que foi morar lá mais por causa de vantagens econômicas (o preço das casas subsidiadas compensa o risco) do que por motivos políticos ou religiosos. "Mudamos para cá porque as casas são maiores, têm jardim e são mais baratas. A nossa casa aqui vale 150.000 dólares. Uma equivalente em Jerusalém custaria 250.000", disse à VEJA, na semana passada, Daniela Guertzenstein, professora universitária que deixou São Paulo em 1986 e hoje vive com o marido, Marco, e os quatro filhos num assentamento de 16.800 habitantes, Beitar Illit, perto de Jerusalém. Quanto mais se entra em território palestino, mais severas são as roupas (barbas e quipá para os homens, saias longas e perucas para as mulheres, que, como as muçulmanas tradicionais, não podem mostrar os cabelos em público) e mais fanáticos ficam os ânimos. Onde quer que estejam, esses colonos são facilmente identificáveis pelo fuzil Galil nas costas, pela pistola Glock na cintura e pela arma mais poderosa, o telefone celular, que usam para chamar o Exército a qualquer sinal de perigo. Todos acreditam fervorosamente que têm o direito ancestral de morar em terras que, no passado bíblico, integravam a Grande Israel, o mantra que evocam constantemente como uma dádiva divina. O trecho da Palestina conhecido como Cisjordânia é chamado por eles de Judéia e Samaria - a mesma da parábola cristã do bom samaritano.

Os palestinos evidentemente abominam os colonos, que vêem como invasores, ladrões de suas terras e usurpadores do país que ainda não têm. Ver, no caso, não é força de expressão. A política de Israel sempre foi implantar os assentamentos tanto em pontos estratégicos - no alto de morros, no fundo de vales - quanto ao redor das localidades árabes, justamente para quebrar a continuidade territorial, base da soberania de qualquer Estado. A Cisjordânia já é minúscula, não chega a 5.800 quilômetros quadrados, do tamanho do Distrito Federal - e, entre colônias, áreas de segurança a seu redor, postos militares e estradas, os israelenses controlam 59% da área, isso quando não ocupam tudo, como atualmente. Em tempos de calmaria, a proximidade é desconfortável. Muitos palestinos trabalham em funções subalternas nas colônias, erguendo as casas em que seus inimigos vão morar. Há sempre postos do Exército israelense por perto, para dar segurança - uma missão da qual os soldados geralmente não gostam, especialmente quando os colonos tentam se expandir sem a anuência do governo e precisam ser expulsos, com grande resistência e escândalo generalizado.

Em épocas conturbadas como agora, o clima é de alta tensão. Nem os soldados nem as estradas abertas para uso exclusivo dos colonos e dos militares israelenses são garantia. Em algumas áreas, franco-atiradores palestinos passam o dia inteiro esperando pelos carros israelenses para tentar acertá-los. Desde outubro de 2000, quando começou a chamada segunda Intifada, mais de oitenta colonos foram mortos nos territórios ocupados - e, de maneira nunca declarada, muitos de seus concidadãos não deploram sua perda com a mesma intensidade sentida por vidas ceifadas em solo legitimamente israelense.

Nas negociações realizadas antes da explosão atual, representantes palestinos e israelenses já vinham discutindo a fundo quais colônias subsistiriam, quais seriam desativadas - a famosa troca de terra por paz, que está na base de qualquer acordo. Chegou-se razoavelmente perto de um negócio: os palestinos teriam de volta cerca de 94% de seu território, dividido em três "pedaços", separados por colônias. Estas, por sua vez, encolheriam em torno de três blocos principais (Maale Adumim, Gush Etzion e Ariel). Conta-se que David Ben-Gurion, o pai da pátria israelense, já velho, subiu num helicóptero no dia seguinte ao fim da guerra de 1967, quando Israel capturou Jerusalém inteira e toda a extensão até o Rio Jordão, a terra prometida onde os judeus haviam vivido, guerreado e feito história até 2.000 anos antes. Tudo era deles de novo. Ben-Gurion resistiu à tentação. "Agora, precisamos devolver imediatamente toda essa terra. Exceto talvez Jerusalém. Isso terá de ser discutido", disse ele. Hoje, em nome do realismo político, nem se fala mais em devolução integral. Mas o sonho da Grande Israel em algum momento terá de abrir caminho para a solução de um problema que o mundo inteiro não agüenta mais ver continuar do jeito que está.

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Fonte: Fundação pela Paz no Oriente Médio

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