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ATUALIDADES

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AOS ENTES QUERIDOS DE SABRA E SHATILA

Por Ramzy Baroud - 19/09/02

Como vocês, também nasci e me criei em um campo de refugiados. Cresci com poucos brinquedos  mas com muitos aniversários de massacres para comemorar. Juntamente com meus companheiros, comemorei, entoei os nomes de seus entes queridos,  os de perto e os de longe, que morreram durante nossa luta justa para viver em liberdade.

Eu tinha apenas 10 anos quando o imam de nossa mesquita, com a voz embargada, transmitiu a notícia através dos alto-falantes, de um massacre. Eu tinha apenas 10 anos, mas ainda sinto a angústia que senti naquele dia. Meu pai chorou feito criança. Minha mãe me agarrou e a meus irmãos e se sentou silenciosamente. nossos vizinhos se reuniram em busca de notícias, alguns chorando, até mesmo aqueles que costumam dizer "homem que é homem não chora".

Cresci trazendo no coração aquela lembrança. Sabia que Sabra e Shatila não eram as primeiras  em que aquele tipo de crime tinha sido realizado contra a minha gente. O tempo também se encarregou de mostrar que não seria o último. Mas Sabra e Shatila foram o símbolo da desumanidade de nossos torturadores e um símbolo de nosso desafio, resistência e insistência que não deixaremos que se desvaneça jamais.

Vocês se arrastaram dos destroços de suas casas para serem testemunhas daquele momento de horror, um momento crítico que definiu quem são vocês até hoje, e definiu a apatia deste mundo injusto.

Vocês se sentaram e choraram. Vocês contaram aos jornalistas o que aconteceu naquele dia. Vocês imploraram ao mundo que "fizesse alguma coisa". Vocês não precisavam transmitir nada. O mundo sabia muito bem o que tinha acontecido. Os americanos sabiam muito bem o que tinha acontecido. Até os israelenses sabiam muito bem o que tinha acontecido.

Mas, ainda assim, nada fizeram .

Israel assassinou seus entes queridos. Ariel Sharon, o festejado "guerreiro" de Israel, falou abertamente como ele enviou os falangistas cristãos para "limpar" o campo, para erradicar os "terroristas". Sharon queria estabelecer um exemplo para os militantes da OLP, cuja partida do Líbano tinha sido arrumada pelos Estados Unidos, os mesmos Estados Unidos que haviam prometido protegê-los e não conseguiram, os mesmos Estados Unidos que agora chamam o culpado de "homem de paz".

Vocês estavam vulneráveis quando os soldados israelenses fecharam seus campos, bloquearam as passagens que os levariam para a segurança e os ataques vieram do céu e da terra. Vocês deviam saber que um novo crime estava prestes a acontecer, quando os israelenses iluminaram os campos em todas as direções naquela noite fatídica, permitindo que os falangistas dentro do campo cumprissem a ordem: matar.

Morro só de  imaginar os seus sentimentos quando ouviram os soldados indo de casa em casa. Se aproximando da de vocês.

Ninguém pode recordar, a não ser vocês que viveram aqueles momentos, as vozes ensanguentadas das mães implorando aos soldados que poupassem seus filhos, e as vozes das crianças chorando antes de serem esfaqueadas ou baleadas.

Durante 20 anos, vocês procuraram por justiça, esperaram em seus campos de refugiados, em desespero e na pobreza, muito perto das sepulturas comuns onde seus entes queridos foram enterrados, muito perto da Palestina, para onde vocês ainda esperam retornar.

Meus irmãos, 20 anos se passaram e a liberdade e a justiça estão longe de ser encontradas.

Acabamos de comemorar o aniversário de seu massacre e nosso povo na Cisjordânia ainda está vivendo um mortal toque de recolher, e nosso povo em Gaza está enjaulado, cercado de arame farpado e soldados furiosos.

Mas, por que ainda me lembro de vocês como se o massacre tivesse ocorrido ontem? É porque seus assassinos ainda estão livres, liderando novas guerras, novos massacres? Ou será porque nossa memória é nosso patrimônio, ela abastece nossa resistência, obriga a sobrevivência da nossa luta justa por liberdade?

Desde criança até hoje, eu comemorei o aniversário de seu massacre. Eu costumava escrever pequenas estórias para as minhas aulas de árabe na escola básica, falando de sua dor. Na minha juventude, escrevi poesia sobre vocês e agora comemoro seu aniversário com um artigo, esperando que eu possa transmitir a estória de vocês para aqueles que não conhecem nada sobre a sua dor.

Eu assinei cada petição que me pediram para assinar, para processar Sharon. Escrevi para a ONU, para a Casa Branca, para "meus representantes", para o governo belga, para os grupos de direitos humanos, para cada um que eu achei por um segundo que poderia ajudar em sua causa. Ainda aguardo a resposta.

Portanto, desta vez, decidi escrever para vocês só para dizer "caros entes queridos, não os esquecerei porque se o fizer, terei esquecido quem eu sou, terei abandonado a minha natureza humana, terei abandonado o meu direito de retorno e o de vocês".

Publicado no Islamic Association for Palestine (IAP)



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