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ATUALIDADES

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O NOBEL DA PAZ VAI PARA JIMMY CARTER - A FACE 'AFÁVEL' DO IMPERIALISMO AMERICANO

Por Bill Vann

Foi bastante adequado o Comitê norueguês do Nobel destinar seu prêmio anual da paz - relacionado com o inventor da dinamite - ao ex-presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter. As conseqüências das ações iniciadas durante seu governo há 25 anos atrás ainda produzem uma verdadeira explosão de militarismo americano, desde o Afeganistão até o golfo pérsico.

Durante anos ele se autopromoveu abertamente para obter o prêmio e agora passa a fazer parte da galeria dos três estadistas americanos que foram celebrados pelo Comitê da Noruega como homens de paz. O primeiro foi Theodore Roosevelt, que explicitamente abraçou o "fardo do homem branco" do imperialismo americano. Anunciando que sua política era "levar um grande cajado", por diversas vezes ele usou a força militar para suprimir as aspirações democráticas dos povos da América Central, Caribe e Filipinas.

O segundo foi Woodrow Wilson que continuou com essas intervenções coloniais, levou os Estados Unidos à I Guerra Mundial e enviou soldados americanos para a Rússia com o objetivo de ajudar a contra-revolução em sua tentativa de derrubar o estado proletário que tinha se estabelecido com a revolução socialista de 1917.

O terceiro foi Henry Kissinger que agora não pode deixar os Estados Unidos com receio de ser levado ás barras dos tribunais da América Latina e Europa como criminoso de guerra. Seu prêmio foi dado em reconhecimento pelo acordo de Paris, arrancado dos vietnamitas depois dos bombardeios de Hanói e Haiphong, no Natal de 1972.

O registro de Carter durante o seu mandato de quatro anos o colocam na galeria de tais pacifistas conhecidos.

Em sua apresentação, o Comitê indicou o papel de Carter na negociação do tratado de Camp David entre Israel e Egito, em 1978. O primeiro-ministro de Israel, Menachem Begin, e o presidente do Egito, Anwar Sadat dividiram a premiação do Nobel da Paz daquele ano. O Comitê quis incluir Carter naquela época mas não foi possível porque sua indicação tinha sido submetida muito tarde.

O acordo de Camp David não significou uma estrutura para a paz no Oriente Médio e sim um instrumento de reaproximação entre uma parte da burguesia árabe, de um lado, e o imperialismo israelense e americano, de outro, ás custas do povo palestino. A principal "conquista" desta negociação foi isolar a OLP e deixar as questões centrais da condição de Jerusalém, a Cisjordânia e Gaza ocupadas e os direitos dos palestinos sem solução até hoje. Vinte e cinco anos mais tarde, a ocupação militar israelense e os ataques aqueles territórios continuam, e o número de mortos dos dois lados nunca foi tão elevado.

Carter, que presidiu o país de 1977 a 1981, como o 39° presidente dos Estados Unidos, muitas vezes foi apresentado por seus seguidores como um defensor dedicado dos direitos humanos e como um conciliador atrapalhado e ineficaz por seus opositores republicanos. Na verdade, a presidência de Carter, que coincidiu com uma intensificação aguda da crise do capitalismo americano e mundial, lançou as bases para a escalada do militarismo dos Estados Unidos e uma ofensiva governamental implacável contra a classe trabalhadora doméstica.

Ex-oficial da marinha e perito em submarino nuclear, Carter entrou para a política como senador pelo estado da Geórgia e mais tarde foi eleito governador do estado. Ele foi o primeiro democrata do sul do país desde a Guerra Civil a ser eleito presidente e sua indicação assinalou uma guinada para a direita do Partido Democrático.

Assumindo o cargo depois de derrotar Gerald Ford, cujo indulto de Nixon apenas aprofundou a atmosfera de crise política e corrupção em torno da Casa Branca, Carter fez promessas populistas de reforma econômica enquanto garantia uma política externa centrada na promoção dos "direitos humanos".

Essas duas mudanças declaradas na política se mostraram grandemente retóricas. No campo internacional, a administração Carter pregou a détente com a União Soviética, enquanto iniciava uma política agressiva - que seria intensificada por seu sucessor, Ronald Reagan - que tinha por objetivo minar e remover a União Soviética.

A operação mais infamante a este respeito foi o apoio declarado dos Estados Unidos às guerrilhas fundamentalistas islâmicas contra o governo apoiado pelos soviéticos no Afeganistão. Washington despejou dinheiro e armas no país - gastando algo em torno de $5 bilhões - para fomentar uma guerra que devastou o país e matou 1.5 milhão de pessoas.

As administrações Carter e Reagan definiram o apoio aos mujahidin afegãos como sendo uma resposta ao envio de soldados soviéticos para a fronteira, com a finalidade de apoiar o governo secular de Cabul, mas isto sempre se revelou uma mentira. O conselheiro de segurança de Carter, Zbigniew Brzezinski, admitiu, em entrevista de 1998 para um jornal francês, que a CIA começou a operação bem antes da invasão russa, com o objetivo de atrair a União Soviética para uma "armadilha".

"Teve o efeito de atrair os russos para uma armadilha ...", declarou ele. "O dia em que os soviéticos oficialmente cruzaram a fronteira, eu escrevi ao presidente Carter. Agora temos a oportunidade de dar à União Soviética a sua guerra do Vietnã."

Indagado sobre se lamentava as ações dos Estados unidos, tendo em vista o efeito sobre o Afeganistão e a ascensão de um movimento armado islâmico de direita, Brzezinski respondeu: "O que é mais importante para a história do mundo? O talebã ou o colapso do império soviético? Alguns muçulmanos sublevados ou a libertação da Europa Central e o fim da Guerra Fria? Entre aqueles a quem Washington armou e financiou estava Osama bin Laden.

Assim, a provocação Carter-Brzezinski no Afeganistão deu início a um processo de desordem e desestabilização que acabou por levar aos ataques terroristas que mataram quase 3.000 americanos em 11 de setembro de 2001.

De outra parte, a dedicação manifesta de Carter aos direitos humanos deram-lhe a oportunidade de  influenciar a política externa apenas até o ponto em que não conflitasse com os interesses geopolíticos americanos e com os ganhos dos principais bancos e corporações dos Estados Unidos. Ele foi ausente em relação ao Irã, onde chegou a elogiar o xá, um ditador instalado pela CIA, através de uma golpe em 1953, por "sua administração progressista", ainda que as forças de segurança iranianas estivessem massacrando milhares de manifestantes desarmados.Quando o apoio americano se mostrou incapaz de salvar o xá da revolução, a administração Carter tentou, sem sucesso, incentivar um golpe militar.

Em resposta aos levantes na região, Carter anunciou, em discurso à nação de janeiro de 1980, uma nova política americana que veio a ser conhecida como Doutrina Carter. Ele advertiu: "Qualquer tentativa de uma força externa para controlar a região do golfo pérsico será vista como um ataque aos interesses vitais dos Estados Unidos da América e tal ataque será repelido por quaisquer meios que se façam necessários, inclusive o uso da força militar." Ele continuou explicando que esta política era necessária pela "extrema dependência das nações ocidentais dos suprimentos de petróleo do Oriente Médio.'

É essencialmente uma versão mais agressiva desta mesma doutrina - o direito de os Estados Unidos usarem a força militar para controlar o petróleo do golfo pérsico - que agora está sendo implementada pela administração Bush em seus preparativos de uma guerra não provocada para conquistar e ocupar o Iraque.

Carter primeiro estabeleceu os meios militares para realizar este tipo de agressão, fundando a Força Tarefa Conjunta de Deslocamento Rápido (RDJTF) e reorganizando o exército americano para intervenção no golfo pérsico. Quando Reagan assumiu o cargo, em 1981, esta força de intervenção já abrigava mais de 200.000 soldados.

A abordagem dos direitos humanos encontrou expressão no que eram consideradas áreas periféricas para os interesses imperialistas americanos. A assistência de segurança foi cortada para as ditaduras da Etiópia, Chile e Uruguai. Nestes dois últimos países, os laços com o exército americano e a ajuda econômica permaneceram intocáveis. Além do mais, o secretário de estado anunciou que o regime militar na Coréia do Sul e a ditadura Marcos, nas Filipinas, seriam dispensados completamente da política de "segurança nacional".

Na América Central, a administração Carter encontrou um método singular de restringir a assistência de segurança direta às ditaduras de direita, enquanto assegurava que elas continuassem armadas até os dentes com o objetivo de suprimir as revoltas populares. Israel foi recrutada para preencher a lacuna, fornecendo armas para substituírem os M 16 feitos pelos americanos. Os conselheiros militares israelenses foram igualmente mandados para a região enquanto a ajuda americana á Israel aumentava significativamente.

Na Nicarágua, a administração Carter tentou sem sucesso colocar no poder a infamante Guarda Nacional depois da deposição do ditador Somoza. Tendo fracassado nesta tentativa, iniciou o processo de reagrupar o ex-integrantes da Guarda em uma força militar que, no período Reagan, ficaria conhecida como os "contras" e iniciaria uma guerra de terror, matando dezenas de milhares de pessoas.

A administração Carter aumentou firmemente a ajuda ao regime de El Salvador, onde em 1980 - o último ano de Carter na Casa Branca - o número de mortos alcançou estimados 13.000, a grande maioria de camponeses massacrados pelo exército e polícia.

Internamente, Carter respondia à crescente crise econômica com políticas que objetivava cortar os serviços sociais e enfraquecer o poder da classe trabalhadora. O projeto de enfraquecimento na administração Reagan do sindicato dos controladores de vôo, PATCO, e a substituição dos controladores grevistas por fura-greves foi esboçado na administração Carter. Esta ação assinalou um ataque nacional contra a classe trabalhadora, promovido por empregadores e governo.

A lei Taft-Hartley, citada por Bush contra os estivadores da West Coast no início desta semana, foi usada pela última vez por Carter. Na época, ele recorreu á lei Taft-Hartley numa tentativa sem êxito de forçar os trabalhadores das minas de carvão a voltarem ao trabalho e acabarem com a greve nacional de 1977-78.

O crescimento da desigualdade social dentro e fora dos Estados Unidos acelerou-se na administração Carter, que designou o banqueiro do Chase Manhattan, Paul Volcker, para servir como presidente do Federal Reserve, em 1979. Volcker anunciou que era necessário "um declínio no rendimento real" para combater a inflação e implementou uma política de taxa de juros altos que viu a prime-rate subir 20%.  O resultado foi uma recessão profunda onde setores menos lucrativos da indústria fracassaram e as falências aumentaram. Esta política deu início ao que se tornou uma brutal transferência de renda da classe trabalhadora para a aristocracia financeira.

A crise econômica e os ataques aos trabalhadores minaram o apoio eleitoral aos democratas, permitindo que Ronald Reagan derrotasse Carter e levando as políticas interna e externa para uma trajetória de direita que continua até hoje.

Enquanto isto, Carter estabeleceu seu Centro Carter em Atlanta, que atua como um instrumento não governamental da política externa americana, realizando operações em regiões como a ex-Iugoslávia, Cuba, Coréia do Norte, América Central e Africa.

A missão regular do ex-presidente foi monitorar o processo eleitoral de antigos países coloniais, para assegurar que eles alcancem os padrões "democráticos" estabelecidos por Washington.  Tendo em vista a supressão do voto e o roubo manifesto da presidência pelo partido Republicano nas eleições de 2000 nos Estados Unidos, o carimbo de aprovação de questões do tipo tornou-se mais do que uma pequena mancha.

O prêmio Nobel é uma instituição européia e a escolha do nome de Carter ficou ligada a uma situação cada vez mais envenenado das relações políticas entre a Europa e América. Os juízes deixaram claro que sua escolha significava uma censura ao atual ocupante da Casa Branca. Por mais improvável que possa parecer, George W. Bush também foi candidato ao prêmio.

O prêmio deste ano "pode e deve ser interpretado como uma crítica da posição da administração atual dos Estados Unidos em relação ao Iraque", disse o presidente do Comitê do Nobel, Gunnar Berge, aos repórteres. "Na situação atual, marcada por ameaças de uso do poder, Carter pautou-se pelos princípios de que os conflitos devem tanto quanto possível ser resolvidos através da mediação e da cooperação internacional com base na legislação internacional, respeito pelos direitos humanos e desenvolvimento econômico", disse o Comitê em sua menção ao ex-presidente americano.

Na verdade, os fundamentos para as políticas criminosas agora sendo realizadas pela administração republicana de Bush foram estabelecidos pelo presidente democrata Jimmy Carter há um quarto de século atrás.

WSWS - 12/10/02



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