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ATUALIDADES

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POR QUE OS ESTADOS UNIDOS PLANEJAM ATACAR O IRAQUE E NÃO A CORÉIA DO NORTE

Por Peter Symonds

A reação americana, na semana passada, à declaração da Coréia do Norte de que mantinha um programa secreto de armas nucleares expõe a total hipocrisia dos planos da administração Bush para a guerra contra o Iraque. Se aceitarmos as premissas básicas da política externa de Washington como o lado bom da moeda, então não há qualquer explicação verossímel para sua decisão de procurar desarmar Piongyang através de meios "diplomáticos" enquanto propõe o uso de munições sofisticadas para o mesmo objetivo contra Bagdá.

Há meses funcionários americanos vêm argumentando que Saddam Hussein precisa ser expulso militarmente com base em afirmações inconsistentes de que o Iraque está desenvolvendo em segredo "armas de destruição em massa", inclusive nucleares, biológicas e químicas. Na falta de evidências concretas, a administração Bush procurou justificar seus planos de guerra sob a alegação de que o Iraque pode, no futuro, ser capaz de construir uma bomba nuclear e poderia vir a fornecer "armas de destruição em massa" a organizações terroristas.

Na semana passada, no entanto, Washington anunciou que, durante as conversações entre a Coréia do Norte e funcionários americanos, Piongyang admitiu abertamente estar construindo, em segredo, uma fábrica de enriquecimento de urânio. O programa viola um acordo assinado entre os dois países em 1994, pelo qual a Coréia do Norte concordava em acabar com o seu programa nuclear e desativar seus reatores existentes em troca de suprimentos de petróleo e da construção de dois modernos reatores de energia hidráulica incapazes de produzir armas de qualquer tipo.

Com base na lógica da "guerra contra o terrorismo" de Washington, a resposta esperada deveria ser uma condenação estridente, a demonização de Kim Jong Il como o Saddam Hussein da Ásia e ameaças de ação militar para desarmar a Coréia do Norte. Afinal de contas, eis aqui um país que, juntamente com o Iraque e o Irã, foi marcado com parte do "eixo do mal" por Bush, declarando que tinha um programa para produzir material de fissão, e que, de acordo com um funcionário americano presente, tinha "mais coisas poderosas também".

Contudo, a reação de Washington foi decididamente abaixo do esperado. Bush, no entanto, deve fazer um pronunciamento sobre a questão. Funcionários americanos enfatizaram que seriam usados  meios não militares  para pressionar Piongyang a desmontar seu programa nuclear. O porta-voz presidencial, Scott MacClellan, disse que Bush pretende "encontrar uma solução pacífica" através da diplomacia. O porta-voz do Departamento de Estado, Richard Boucher, sinalizou que os Estados Unidos manteriam em aberto a possibilidade de um futuro diálogo com a Coréia do Norte, dizendo: "Isto não é um espetáculo".

James Kelly, secretário assistente de estado para as questões do Pacífico e Ásia Oriental, que chefiou a delegação a Piongyang no início de outubro, foi enviado a Beijing e Seul para garantir apoio para a pressão diplomática e econômica sobre a Coréia do Norte. A administração Bush anunciou que retirar-se-á do acordo de 1994, acabando com as remessas de petróleo e outras assistências à Coréia do Norte - um país que já se encontra à beira do colapso econômico e da fome generalizada.

A atitude hipócrita de Washington na preparação da guerra contra o Iraque enquanto anuncia medidas diplomáticas para isolar a Coréia do Norte simplesmente salienta o fato de que não há justificativa para a agressão americana, de qualquer tipo, seja contra um ou outro país. Como o Iraque, a Coréia do Norte é uma pequena nação atrasada economicamente com cerca de 20 milhões de habitantes e não está em posição de ameaçar militarmente os Estados Unidos, que mantêm 37.000 soldados na vizinha Coréia do Sul, grandes bases militares no Japão e patrulha a Ásia Oriental com navios e submarinos nucleares.

Por outro lado, Piongyang tem toda razão em acreditar que esteja sob ameaça de Washington e todo o direito de se armar contra um ataque potencial. Importantes figuras  da administração Bush, como o secretário de estado substituto, Richard Armitage, repreenderam o presidente Clinton durante os anos 90 por sua atitude conciliadora em relação à Coréia do Norte, argumentando que o regime de Piongyang tinha que ser isolado e derrubado. Ao assumir o cargo, Bush ordenou uma revisão da política americana e vem aumentando firmemente a pressão sobre o país.

A flagrante contradição entre a postura em relação ao Iraque e à Coréia do Norte, forçou a administração Bush a alguns contorcionismos lógicos para justificar a atitude.

Com base em uma avaliação da CIA, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, disse que acreditava que a Coréia do Norte tinha "uma ou duas" bombas assim como um programa de armas. Mas, logo em seguida, prosseguiu dizendo que o Iraque, que não possui comprovada capacidade para armas nucleares, permanecia como  a mais importante ameaça para os Estados Unidos. "O Iraque tem características singulares que o diferenciam e que sugerem que foi designado ... para uma atenção especial por causa da ameaça que representa pelo que está fazendo", disse ele. Que características são essas, no entanto, ele não disse.

De acordo com o New York Times, outros funcionários da administração argumentavam exatamente o oposto - por que o Iraque representa uma ameaça militar menor deveria ser o atacado. Conforme o jornal relatou: "Ao decidir sobre uma resposta bastante pensada, a Casa Branca reconheceu a realidade da diferença entre Coréia do Norte e Iraque. Já pode possuir armas nucleares e ter uma enorme capacidade para armas convencionais e um exército capazes de fazer um grande estrago na Coréia do Sul."

Um raciocínio semelhante foi apresentado pelo secretário substituto Armitage, que disse à mídia: "Eis aqui o caso da Coréia do Norte, onde as armas proliferaram e põem em risco nossos interesses e os interesses de dois de nossos maiores aliados. Poderia tornar nosso caso mais forte no Iraque." Ou seja, se é para acreditarmos em Armitage, os Estados Unidos pretendem ignorar o que percebe como um risco imediato a seus interesses, atacar um país que poderia se transformar numa ameaça no futuro.

A diferença óbvia - petróleo

O absurdo de todos esses argumentos fica evidenciado quando imaginamos qual seria a reação de Washington à declaração de Bagdá de que estava desenvolvendo um programa de armas nucleares em segredo. A resposta é óbvia. A administração Bush, que procurou desesperadamente um pretexto para a ação militar, se agarraria com unhas e dentes a tal declaração para prosseguir com seus planos.

O único dado óbvio que diferencia os dois países não é debatido publicamente - seja pela administração Bush, seja pela mídia americana. Diferente da Coréia do Norte, que tem muito pouco sob a forma de recursos estratégicos naturais, o Iraque possui a segunda maior reserva confirmada de petróleo do mundo, o que leva Washington a considerar como o elemento central de alta prioridade - para dominar os recursos de energia do Oriente Médio e Ásia Central.

O cinismo da postura da administração Bush se ressalta pelo fato de que suprimiu a evidência do programa nuclear da Coréia do Norte durante meses, só para atender sua agenda política. Semanas antes das conversações com Pyongyang, Bush apareceu diante da Assembléia Geral da ONU, em 12 de setembro, para exigir uma guerra contra o Iraque com o objetivo de acabar com a ameaça representada por "suas armas de destruição em massa". Além disso, Washington não disse nada a respeito da admissão da Coréia do Norte da existência de um programa nuclear por quase 15 dias para não abortar sua campanha de ação militar contra Bagdá - em particular, mantendo os democratas no escuro, enquanto buscava a aprovação do Congresso para a guerra.

A imprensa internacional dedicou um espaço considerável para atribuir motivos maquiavélicos à decisão da Coréia do Norte de admitir a existência de um programa nuclear. O World Socialist Web Site não apoia politicamente o regime estalinista repressivo de Kim Jong Il, cujo programa de governo não tem nada a ver com socialismo. Por mais de uma década, Pyonyang curvou-se ao atraso para satisfazer os Estados Unidos e a outros poderes maiores, oferecendo a abertura do país como uma fonte de trabalho barato e concordando com exigência após exigência proveniente de Washington - enquanto, ao mesmo tempo, agora se vê, mantinha programas de armas, em flagrante violação de seus próprios compromissos.

Dito isto, não é muito difícil compreender as razões por trás da última declaração da Coréia do Norte. Washington encurralou Pyongyang. Quando ficou claro que tinha um programa de enriquecimento de urânio em flagrante violação dos acordos internacionais, a Coréia do Norte tinha poucas opções. Suas tentativas de acalmar os Estados Unidos fracassaram. Como no caso do Iraque, toda tentativa para resolver as questões pendentes levaram a um novo conjunto de exigências. Assim, quando confrontado pelo serviço de inteligência americano, por que não admitir o programa e tentar a usar isto como uma barganha barata?

A irritação da burocracia norte coreana ficou evidente até nos comentários feitos pelos funcionários americanos. De acordo com uma fonte americana, o negociador de Pyongyang - ministro do exterior Kang Sok Joo - declarou: "... seu presidente disse que éramos um membro do eixo do mal...seus soldados estão sendo empregados na península coreana...é claro que temos um programa nuclear". Após a reunião, a Coréia do Norte descreveu a atitude de Washington em relação ás conversações como sendo "uma política linha dura de hostilidade" que procurava"submeter a Coréia do Norte pela força."

Na análise final, a decisão de Washington de adotar uma abordagem diplomática, de início pelo menos, em relação a Pyongyang é baseada em considerações táticas e pode mudar rapidamente. Ainda que a Coréia do Norte não tenha petróleo ou recursos naturais abundantes, ela está localizada em posição estratégica no norte da Ásia oriental, onde os Estados Unidos também procuram impor sua influência. Como no caso do Iraque, qualquer mudança nas prioridades de Washington para Pyongyang limitar-se-á à promoção de seus interesses econômicos e estratégicos na região.

Segmentos da elite governante americana já estão pressionando o governo para que adote de medidas mais duras contra a Coréia do Norte. Ainda que tenha parado de repente a convocação de guerra, o Wall Street Journal pediu que a administração Bush aproveite a oportunidade para cortar a ajuda financeira, isolar o país e planejar o seu colapso.

"No final, a única política certa de não proliferação para regimes como os da Coréia do Norte é a mudança de governo. Tentamos apaziguar durante uma década e tudo o que conseguimos foi dar mais tempo à ditadura para construir uma bomba. Agora chegou a oportunidade de se levar a sério", declarou o jornal. E se a pressão econômica fracassar na efetivação de uma troca de regime em Pyongyang, então, como no Iraque, a conclusão óbvia é que se deva usar dos meios militares.

21/10/02

WSWS

 



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