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ATUALIDADES

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O PÂNTANO IRAQUIANO

Pelo Conselho Editorial do WSWS
21/08/ 2003

O caminhão-bomba que explodiu os escritórios da ONU em Bagdá, na terça-feira passada, também explodiu as afirmações do governo Bush de que Os Estados Unidos estão indo bem no caminho da pacificação do Iraque. A explosão, que se seguiu aos bombardeios de vários oleodutos ao norte do Iraque e ao corte de água na maior parte da capital do país, assim como as perdas diárias infligidas aos soldados americanos, evidenciam que a resistência à ocupação dos Estados Unidos é séria e crescente.

Na esteira do ataque, a Casa Branca de Bush e a mídia publicaram condenações ritualísticas de "terrorismo". "Os terroristas que atacaram hoje mostraram, mais uma vez, seu desprezo pelos inocentes", declarou Bush. "Eles mostraram seu medo do progresso e seu ódio pela paz." Ele os declarou "inimigos do povo iraquiano" e "inimigos do mundo civilizado."

Essas denúncias são o máximo da hipocrisia. O Iraque é um país ocupado por um poder estrangeiro. O ataque ao prédio da ONU foi realizado dentro do contexto de uma campanha de resistência a esta ocupação, e que conta com o apoio de amplas camadas da população iraquiana.

É uma insolência, para dizer o mínimo, Bush acusar aqueles que planejaram e executaram a explosão da ONU de "desprezo pelos inocentes" . Ele iniciou uma guerra contra o Iraque em flagrante violação da legislação internacional. Estima-se, de forma conservadora, que pelo menos 5.000 civis iraquianos perderam suas vidas com a invasão americana e muitos deles morreram em decorrência dos   bombardeios dos Estados Unidos a alvos localizados perto de áreas residenciais. Pelo menos, mais 20.000 sofreram graves ferimentos e ainda estão sofrendo seus efeitos. Washington qualificou a carnificina realizada contra essas vítimas inocentes como "efeito colateral".

A alegação de que um ataque à ONU é particularmente um crime hediondo porque o único objetivo da agência internacional é "ajudar os iraquianos" é falsa. Sem dúvida, entre os que morreram na explosão, havia pessoas que acreditavam estar servindo aos interesses de iraquianos comuns. Porém, mais de uma década de amarga experiência tem mostrado que a ONU, em hipótese alguma, é inocente na tragédia infligida ao povo daquele torturado país.

A ONU aprovou e fez cumprir as pesadas sanções econômicas exigidas por Washington por ocasião da guerra do Golfo, em 1991, criando as condições de fome e doenças em massa que mataram cerca de meio milhão de crianças iraquianas. Foi ela quem supervisionou o regime de inspeções de armas, que serviu de pretexto para manter essas sanções, exigindo que o Iraque cumprisse a tarefa impossível de provar uma negativa, isto é, que não existia em seu solo armas proibidas ou programas de armas.

Finalmente, uma semana antes da explosão,o Conselho de Segurança da ONU aprovou o recém formado Conselho de Governo Iraquiano, um corpo administrativo sem poder que foi escolhido a dedo pelo pró cônsul de Washington em Bagdá,Paul Bremer, para emprestar uma "face iraquiana" à ocupação militar americana. Aprovou, igualmente, o estabelecimento de uma Missão de Assistência da ONU, cujo mandato incluía o treinamento de uma nova força policial iraquiana.

Assim, a ONU trabalhou para legitimar uma ocupação militar ilegal e treinar forças para reprimir a resistência. Portanto, não chega a ser surpresa que aqueles que se opõem à ocupação tenham atingido a ONU tão gravemente.

A resistência iraquiana está iniciando o tipo de campanha que historicamente foi iniciada por todos os povos que combateram a ocupação estrangeira. Incapaz de confrontar a esmagadora superioridade do poder de fogo americano, a resistência iraquiana conta apenas com uma vantagem estratégica: trata-se de seu país. Seu objetivo é torná-lo ingovernável para os ocupantes.

Os que tramaram a guerra ilegal contra o Iraque devem assumir toda a responsabilidade política e moral pela violência e banho de sangue que, hoje, acontecem no país. Não é novidade que eles denunciem como "terroristas" aqueles que não conseguiram receber os invasores americanos como "libertadores". Foi assim no Vietnã, na Argélia, na África do Sul e em cada parte do globo onde povos oprimidos combateram para acabar com o jugo do colonialismo e da ocupação estrangeira.

Deve ser lembrado que os nazistas, que foram pioneiros na "guerra preventiva" adotada por Bush, rotineiramente denunciavam qualquer um que resistisse à ocupação alemã na II Guerra Mundial como "terrorista". No entanto, os que se opuseram à agressão nazista, louvavam os ataques da resistência cujas façanhas foram glorificadas em alguns filmes de Hollywood.

O ataque de terça-feira em Bagdá provocou uma enchente de comentários da mídia que, de uma forma ou de outra, propõem que Washington responda ao ataque com uma repressão ainda maior. "O governo Bush tem que fornecer recursos adicionais suficientes, e, se necessários, soldados adicionais ..." declarou o New York Times em seu editorial de quarta-feira. "Os iraquianos precisam ver que Washington tem a vontade e os meios de colocar seu país de volta aos seus pés."

No mesmo jornal, a colunista Maureen Dowd escreveu uma peça particularmente cínica. Ela reconheceu que nos momentos que antecederam a guerra, o governo Bush "exagerou as ameaças à América" e "os laços entre Sadam e a Al-Qaeda". Mais adiante, ela assinalou que, na medida em que não existia ameaça de grupos islâmicos armados no Iraque antes da guerra, a invasão e a ocupação produziram as condições em que tais organizações floresceram."A equipe Bush criou agora um verdadeiro monstro que imaginou levar os americanos a apoiarem a guerra no Iraque", escreveu ela.

No entanto, no final ela concluiu: "Não podemos partir e não podemos ficar para sempre. Temos que bater."

"Bater" aqui, significa que muitos mais jovens americanos em uniforme serão mortos ou feridos e até um número maior de iraquianos e jovens de outros países árabes devem ser sacrificados. Isto equivale a uma justificativa para a continuação da guerra neocolonial.

Ninguém sabe quantos iraquianos foram mortos, presos ou torturados até agora, uma vez que o Pentágono não fornece qualquer informação a respeito. Milhares estão sendo empilhados em enormes campos de detenção construídos pelas forças americanas nos arredores de Bagdá. Os detidos iraquianos, inclusive crianças, deram seu testemunho de que estão sendo submetidos a um tratamento sub-humano. Muitos foram mantidos algemados sob o sol forte ou em currais sufocantes durante dias.

Quanto às forças de ocupação dos Estados Unidos, no final deste mês, desde que Bush declarou o fim das operações de combate, no dia 1o. de maio, o número de mortos quase que certamente ultrapassará o número de vidas perdidas durante a invasão propriamente.

O ataque aos escritórios da ONU tornar-se-á, sem dúvida, o pretexto para uma intensificação da campanha de violência contra o povo iraquiano. A resistência será enfrentada com represálias. Assim tem sido o padrão em guerras de ocupação semelhantes, desde o massacre nazista em Lídice, na Tchecoeslováquia à Batalha da Argélia e a "Operação Fênix", no Vietnã. Quando Bush declarou que "o mundo civilizado não se intimidará", ele estava se referindo às prisões e mortes em massa que virão.

Enfatizar muitos dos argumentos para uma ocupação continuada e cada vez mais intensificada do Iraque embute o conceito de que algo de bom ainda pode sair de uma guerra ilegal de agressão, realizada sob falsos pretextos e pelo que só pode ser descrito como motivos criminosos - o confisco dos recursos petrolíferos do Iraque. Trata-se de um erro crasso do tipo que levou à morte de cerca de 60.000 americanos e milhões de vietnamitas, há 30 anos atrás.

Nenhuma quantidade de soldados americanos ou confissões das boas intenções de Washington poderão deter a resistência à ocupação estrangeira. O povo iraquiano e o resto do mundo árabe têm uma longa história de oposição ao governo colonial que não será apagada com a retórica vazia sobre "democracia" e "libertação".

Quantas pessoas mais terão que morrer - iraquianos e americanos igualmente - antes que este empreendimento criminoso finalmente tenha um fim?

O povo americano precisa pedir o fim desta guerra suja estilo colonial. Não pode aceitar que seus jovens sejam colocados em perigo desnecessária e precipitadamente por mais um único dia. O povo americano precisa repudiar a repressão assassina que está sendo realizada pelo governo Bush em seu nome. É preciso exigir a retirada imediata e incondicional de todo o efetivo americano do Iraque.

A exigência também deve ser no sentido de uma investigação pública e total da forma como a guerra foi impingida ao povo americano. O Congresso e os democratas abriram mão de suas responsabilidades, não conseguiram desafiar ou mesmo questionar as falsas alegações apresentadas pelo governo Bush nos meses que antecederam a guerra. Mas os responsáveis precisam prestar contas. Os funcionários implicados no mais grave crime conforme definido na lei internacional - conspirar para realizar uma guerra de agressão - precisam ser punidos. Este é um requisito para impedir novas guerras de agressão no futuro.

WSWS



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