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ATUALIDADES

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PENSAMENTO MÁGICO E ILUSÃO

Por Edward Said(*)

Um pouco antes de o sul do Líbano ser libertado e as tropas israelitas evacuarem a região ocupada por 22 anos, tive uma discussão a respeito do acontecimento com um amigo que trabalha para a Autoridade Palestina. Quando disse a ele que, como palestinos tínhamos muito que aprender com a resistência libanesa, me defrontei com uma avalanche de repúdio e negativas. "Palestina e Líbano são completamente diferentes", disse-me ele, "e fazer comparações é incorrer em grave erro". Quando respondi que realmente concordava que as duas situações eram diferentes e que a nossa era, na verdade, bem mais difícil, eu, não obstante, continuei sustentando que a disciplina do Hizbollah, sua disposição para o sacrifício e sua extraordinária e inesgotável dedicação aos objetivos traçados eram metas aplicadas a todas as situações e não apenas ao sul do Líbano. A resposta foi ainda mais intransigente. Ele me disse que não tínhamos outra alternativa que não a de fazer o que tínhamos feito em Oslo, e quando disse que, em parte podia entender aquilo, mas não achava que o despotismo e a corrupção, traço infeliz da Autoridade, fossem as únicas alternativas após a assinatura de um acordo tão desvantajoso com Israel. Não, definitivamente eu sabia, você está com uma visão estreita: estamos passando por um período de transição e esses reveses fazem parte do jogo, disse meu amigo. Como não conseguisse me convencer, ele então me lembrou que eu não tinha experiência em política de verdade, que acadêmicos e intelectuais não são políticos.

Foi precisamente este argumento que foi repetido em 18 de junho, na coluna de Jim Hoagland do Washington Post, que, quando perguntando a Abu Alaa a respeito da minha crítica em relação ao comportamento da Autoridade somente conseguiu dar a seguinte resposta (uma resposta fraca, devo confessar): "Não são os intelectuais que estão negociando a paz." É a mesma coisa que dizer que só uma galinha pode dizer se o ovo é bom ou se está podre. Além disso,   o perito em acordos de paz, Abu Alaa, ao que me consta, não procede de qualquer instituição ou trabalho anterior (ele costumava dirigir as fábricas da OLP em Beirut, todas fracassadas ou falidas). Nesta linha de raciocínio, podemos supor que ele nasceu para fazer as negociações de paz, assim como Luís XIV nasceu para governar a França.

Chamaria a isto de primeiro tipo de pensamento mágico, um tipo de raciocínio que confunde a diferença entre verdade e ficção, de modo a transformar um desastre deliberadamente construído em uma coisa necessária ou, pelo menos, aceitável. Os membros da Autoridade seguem seu líder ao dar crédito à retirada de Israel do sul do Líbano e ao desejo de paz do Sr. Barak, não à derrota militar, e pelo mesmo testemunho, concluem que o governo perverso e antidemocrático são estágios necessários da história ao invés de escolhas efetivas feitas por eles, no sentido de serem antidemocráticos e perversos. Penso que a questão principal é: a quem eles pensam que estão enganando com esse tipo de raciocínio? Ninguém em seu juízo perfeito deixaria de perceber a fragilidade dos argumentos. Portanto, podemos concluir que eles são suas vítimas.

Um segundo tipo de pensamento mágico é comum entre aqueles cujas posições de poder que ocupam lhes permitem o isolamento dos fatos, para impor sobre esses fatos uma leitura que é completamente estranha ao que qualquer pessoa de bom senso veria ali. Há 7 anos venho ouvindo todo político americano, desde o Pres. Bill Clinton, entoando loas ao processo de paz, exaltando o novo mundo que estaria surgindo, extasiando-se com a promessa de paz e a idade da prosperidade que estaria chegando. Os palestinos fizeram um barulho corajoso, denunciando que seriam como Singapura, uma ilha de prosperidade num mar de pobreza. Os israelitas construíram sua retórica da igualdade como castelos de areia.  Eles esperavam ser recepcionados por todo o mundo árabe, vendendo seus produtos do Golfo até o Marrocos, fazendo negócios com qualquer um, etc. Talvez eu também devesse acrescentar que todas essas efusões vieram de governantes, presidentes, funcionários de estado, alguns jornalistas, em outras palavras, todas aquelas pessoas cuja posição de poder deu-lhes uma condição VIP, homens e mulheres que não tinham que estar numa fila às 4 da manhã na fronteira de Gaza, ou aqueles cujos passaportes ou cartões de identidade no Líbano, por exemplo, os indica com estrangeiros sem direitos, ou aqueles cujas casas acabaram de ser demolidas. Livres desta espécie de incômodo, essas pessoas privilegiadas podem entregar-se, então, a pensamentos mágicos que lhes fazem tão bem ao coração.

Não se trata apenas de uma questão de dizer coisas que não tenham uma conexão verdadeira com a realidade comum, mas também de impor uma lógica sobre o passado que simplesmente o extermine por completo. Ouvi pela primeira vez esta espécie de pensamento mágico quando o jovem rei da Jordânia, Abdullah, fez sua primeira visita aos Estados Unidos no ano passado. Na medida em que reconhecia todas as dificuldades políticas e econômicas da Jordânia, o rei então mudou a sua lógica imediatamente após saudar a recente eleição de Barak em Israel. Uma vez que o processo de paz está de novo em curso, ele disse, podemos alcançar uma espécie de estabilidade que nos trará prosperidade e fará da Jordânia um lugar muito atraente para maiores investimentos estrangeiros. Este é   um argumento que os políticos americanos gostam de usar: uma vez que temos "paz", todos seremos felizes e continuaremos a prosperar, investir livremente e ganhar dinheiro, viver felizes  para sempre. Chamo a isso de mágica porque nega o peso do passado em qualquer papel no futuro, como se todos os anos de impedimentos, sofrimentos, privações e distorções impostos a milhões de cidadãos árabes que perderam suas famílias, lares, meios de subsistência, que viveram sob a ocupação militar, que foram forçados a suportar estados de emergência nos países árabes, com pouca democracia ou igualdade econômica e social; como se isso tudo, com o sua carga de raiva, tristeza, frustração, humilhação e absoluto cansaço humano, pudesse desaparecer repentinamente no momento em que o acordo de paz seja assinado nos gramados do Sr.Clinton.

Portanto, esta é a essência do pensamento mágico, aliviar o que é na verdade pesado e que mantém uma pressão formidável sobre cada um no oriente Médio. Não se trata de uma questão de memória vingativa, mas sim atualidade viva. Especialistas judeus e americanos em Oriente Médio repetem como um mantra, que os jovens se esqueceram de 1948 e estão mais interessados na Internet local do que em recuperar ou retornar às suas cidades de origem. Como pode ser isso? Os refugiados palestinos no Líbano e na Síria e em qualquer outro lugar permanecem estrangeiros sem pátria e, se estão ou não cuidando de visitar a Internet, são forçados, pela condição intoleravelmente precária em que vivem, a se lembrarem de 1948 e de seu inalienável direito de regresso.

Quanto aos palestinos que vivem na própria Palestina, claro que eles querem levar uma vida normal, levar as crianças para a escola, ter um bom tratamento médico, viajar e usufruir de todos os benefícios da seguridade. O fato de que nenhuma dessas coisas é realmente possível, os força a perguntar por que a sua situação é diferente da dos israelitas, a quem eles vêem todos os dias em plena liberdade e prosperidade cada vez maior. Os palestinos teriam que ser uma pedra para não ter qualquer tipo de ressentimento ou raiva quando precisaram abandonar seu território ancestral para os judeus russos, como Anatol Scharansky, que não só nasceu e foi criado na Rússia, mas agora está desafiando Barak a não abandonar Abu Dis, uma cidade árabe da qual, como um judeu russo, ele sente que pode dispor como quiser.

Essas grotescas, para não dizer bizarras, desigualdades e distorções sugerem alguma coisa muito mais grave, mas mutilante e dolorosa para o espírito do que possa vir a ser retificado por um tratado de paz imperfeito entre um poder nuclear, como Israel, e um povo destituído, pobremente liderado, como os palestinos. Somente um milagre de pensamento - uma espécie de artimanha - pode rapidamente dar o rumo certo das coisas, trazer de volta a tranquilidade e paz de espírito, restituir nos árabes um estado de esperança redentora.

Infelizmente, no mundo real não se permite tal mágica e somente um milagre ocasional. Nesse meio tempo, aqueles que sofrem precisam continuar sofrendo - as mães cujos filhos e filhas estão nas prisões, os pais que não podem cruzar Israel para trabalhar, os professores que permanecem em greve e milhares mais como eles - enquanto aqueles que fantasiam sobre os rápidos benefícios da paz, planejam mais seminários, fazem mais palestras, embarcam em novos projetos.  Mas, existe qualquer esperança na magia e a realidade pode ser harmonizada? Ah! não.

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(*) Edward Said é um filósofo e escritor palestino, residente nos Estados Unidos, professor de literatura da Universidade de Colúmbia, e uma das vozes que mais questionam o processo de paz no Oriente Médio. Não poupa críticas a Yasser Arafat, presidente da Autoridade Palestina, que descreve como um fantoche, e ao premiê israelense, Ehud Barak, a quem define como um político medíocre. Segundo ele, o acordo que está em vias de ser firmado só beneficia Israel, uma vez que não prevê o direito de retorno aos palestinos, a devolução total dos territórios ocupados e o Estado palestino não terá Jerusalém como sua capital.

http://www.ahram.org.eg/weekly/2000/488/op2.htm

 

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