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ATUALIDADES

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TORTURA, DEPOIS DE SADDAM

 

Por  NICHOLAS D. KRISTOF

Um curdo de meia idade me levou a um lado solitário da montanha, para mostrar a delegacia de polícia isolada, em cujos porões ele foi surrado, submetido a choques elétricos e humilhado sexualmente. Ficamos afastados alguns metros, enquanto ele narrava sua história. Então, a polícia nos viu  -  e um tanque veio em nossa direção.

Eu fugi. Mas os curdos na Turquia não podem fugir e muitos aqui acham que a guerra será o novo desencadear da selvageria que marcou os anos 80 e 90, no "Curdistão Turco" (frase que, se eu fosse turco, me levaria à prisão).

O mundo voltou as costas para os curdos mais vezes do que posso contar e há sinais de que estamos planejando traí-los mais uma vez. Os Estados Unidos estavam tão desesperados para subornar a Turquia e trazê-la para a nossa coalizão, que estavam querendo permitir que milhares de soldados turcos entrassem em áreas curdas do Iraque. E parece que nós estamos prontos a concordar com isto. Os turcos, tendo quebrado a resistência curda dentro de suas fronteiras, planejam expandir seus esforços e "desarmar" os curdos iraquianos para impedir o controle dos campos de petróleo.

Como podemos permitir isto? Além da imoralidade absoluta de presidir o que, com efeito, é uma invasão turca do pacífico Curdistão iraquiano, esta incursão corre o risco de ser uma guerra entre curdos e turcos que envolverá toda a Turquia também.

"O governo turco foi muito pior para os curdos do que Saddam", disse amargamente um curdo bem educado. Seu comentário me deixou atordoado, porque a Turquia nunca usou gás ou realizou execuções em massa como Saddam. Porém, vários curdos disseram a mesma coisa. Eles descreveram as técnicas do exército turco, como estuprar as mulheres na frente dos maridos ou reunir os aldeões para verem os homens serem amarrados e arrastados para a morte atrás dos tanques, além de a Turquia ter sido menos tolerante com a língua e cultura curdas do que Saddam, conforme eles comentaram.

O presidente Bush está motivado a invadir o Iraque em parte, penso, por um profundo sentimento de horror à repressão de Saddam. Mas se nossas alegações de estarmos agindo em nome do povo do Iraque são para ter credibilidade e legitimidade moral, é preciso tentar parar o massacre dos curdos não só por nossos inimigos em Bagdá como também por nossos amigos de Ancara. E  certamente não devemos concordar com atitudes como uma invasão turca do norte do Iraque, que poderia detonar uma nova espiral de choques e repressão na Turquia.

Como poderia um país amigo e caloroso como a Turquia, que fez progressos verdadeiros no campo dos direitos humanos, e que merece um lugar na União Européia, ser tão cruel com os seus curdos? O horror da Turquia em relação a um Curdistão próspero deriva de sua "síndrome de Sèvres", nome da cidade francesa onde os poderes ocidentais tentaram desmembrar a Turquia depois da I Guerra Mundial. Desde então, a Turquia viu a acomodação como uma ladeira escorregadia rumo á desintegração nacional. Nos anos recentes, houve avanços na direção de uma reconciliação mas, agora, a perspectiva da guerra no Iraque fez renascer antigas suspeitas e ódios.

Enquanto o presidente Bush estava ansioso para anotar as atrocidades iraquianas contra os curdos, o ocidente nunca se sentiu tão ultrajado pelas atrocidades turcas semelhantes. Mas de 30.000 pessoas morreram durante dos anos de combate entre o governo turco e as guerrilhas do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão); ambos os lados foram brutais, matando civis e comprometidos com a tortura e o terrorismo.

Pelo menos 500.000 curdos foram forçados pela Turquia a deixar suas cidades sob a mira das armas. Relatórios excelentes redigidos pelos Direitos Humanos dizem que alguns refugiados que tentaram retornar recentemente foram mortos pelos facínoras armados pelo governo turco.

O sudeste da Turquia ainda se sente como um estado policial. Eu viajei a uma cidade remota para entrevistar um curdo que tinha apanhado da polícia na frente de seus vizinhos, encharcado com gasolina e em seguida puseram fogo (ele sobreviveu). A família do homem ficou tão aterrorizada ao ver um repórter estrangeiro e arriscar-se a um outro pesadelo policial que me mandaram embora. Somente um curdo não teve medo de se identificar: Abdurrahim Guler, de 37 anos, que suportou repetidas sessões de tortura e ameaças de morte. Numa delas, diz ele, o comandante gritou "tragam-me o bastão", usado para estuprar homens.

Guler conta que gritou "você pode usar seu bastão. Não falarei mesmo que você use um minarete."

Agora, alguma coisa ainda mais sombria está se lançando sobre os bravos curdos: tanques turcos, como um daqueles que me mandou correr, onda deles. Fico enojado ante a idéia de que nós estamos à beira de trair os curdos, mais uma vez.

O autor é colunista do Herald Tribune e em 2001 foi indicado colunista do The New York Times, para onde escreve duas vezes por semana.


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