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ATUALIDADES

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HIPOCRISIA DE WASHINGTON SOBRE OS 'CRIMES DE GUERRA' IRAQUIANOS

Por Bill Vann

A administração Bush e o Pentágono se aproveitaram do tratamento dispensado pelo Iraque aos soldados americanos capturados, numa tentativa de neutralizar o esfriamento do apoio a uma guerra que não conseguiu corresponder às promessas de Washington de uma campanha rápida de "libertação".

Falando na Base Aérea de Macdill, na Flórida, na quarta-feira, Bush acusou os iraquianos por "crimes de guerra", mesmo quando chovia sobre Bagdá bombas e   mísseis americanos, matando 36 civis e ferindo outros 215, apenas naquele dia.

Bush pareceu tranquilo com o elevado número de civis mortos ou com as baixas sofridas pelos jovens soldados americanos. Metade de seu discurso ocupou-se de uma espécie de euforia política e piadinhas normalmente reservadas para os angariadores de fundos da campanha. O resto consistiu de uma advertência ao povo americano de que a guerra está indicando que será longa e de denúncias da resistência iraquiana.

"Nos primeiros estágios desta guerra, o mundo está tendo uma visão mais clara do regime iraquiano e do mal em seu coração", disse ele. "Nas fileiras daquele regime estão homens cuja visão de coragem é brutalizar prisioneiros desarmados. Eles iniciam ataques e se colocam entre os civis. Eles usam civis como escudos humanos. Eles fingem que se rendem e, em seguida, atiram naqueles que demonstram misericórdia com eles.

Tais observações foram a repetição de declarações semelhantes, proferidas pelo secretário de estado, Donald Rumsfeld, em uma coletiva de imprensa no Pentágono, um dia antes: "O regime cometeu atos de traição nos campos de batalha, fazendo com seus soldados usassem roupas civis e enviando seus homens com bandeiras brancas, simulando rendição, com o objetivo de levar as forças de coalizão a emboscadas; usando veículos da Cruz Vermelha para levar instruções militares. Tais atos são violações sérias das leis de guerra."

A porta-voz do Pentágono acusou os combatentes iraquianos de "perfídia ou traição". Ela acrescentou, "alguns comparam essas ações com terrorismo."

Que os Estados Unidos comecem uma campanha de relações públicas que se centre em denúncias de violações iraquianas "das leis de guerra" é verdadeiramente fantástico, até para os mais perversos padrões da máquina mentirosa de Washington. A principal lei relativa à guerra é que nenhuma nação tem o direito de iniciar uma guerra contra outra  sem que tenha sido provocada. Foi uma lei que surgiu entre as duas guerras mundiais, foi codificada nos julgamentos de Nuremberg de conhecidos nazistas e consagrada na Carta da ONU.

É esta lei que a administração Bush violou, sem conseguir sequer a "folha de parreira" de uma resolução da ONU autorizando o uso da força, antes de enviar um exército invasor ao Iraque e bombardear suas cidades com mísseis, armas teleguiadas e chuva de bombas

Em Nuremberg, a primeira acusação no julgamento contra os líderes sobreviventes do Terceiro Reich foi conspiração para iniciar uma guerra agressiva. Os promotores concluíram que todos os outros crimes monstruosos praticados pelo regime nazista decorreram deste primeiro crime fundamental.

Assim também no Iraque. Quaisquer que sejam os atos de brutalidade contra o povo iraquiano e qualquer que seja a retaliação infligida aos soldados americanos - decorrem da guerra ilegal de pilhagem da administração Bush. Os soldados americanos não sofreriam emboscadas, não seriam mortos ou capturados se não tivessem sido mandados para invadir um país que não praticou qualquer ataque aos Estados Unidos. A responsabilidade penal recai sobre Washington, que conspirou para iniciar esta guerra e usou a técnica da Grande Mentira para justificá-la.

As alegações de que o Iraque representava uma séria ameaça por causa de suas supostas "armas de destruição de massa" foram amparadas por documentos que funcionários americanos sabiam ser forjados. As afirmações de que o regime iraquiano de alguma forma estava ligado àqueles que praticaram os ataques terroristas de 11 de setembro foram repetidas à exaustão, mesmo depois de ter sido mostrado que era mentira.

Talvez a mentira mais obscena de todas foi dita aos soldados americanos que estavam certos de que estavam sendo enviados para "libertar" o Iraque e que seriam bem recebidos pela população com festas e flores.

Pelo contrário, até quando os comandantes americanos e ingleses tentaram cercar os centros populacionais, as forças invasoras foram enfrentadas por uma oposição armada incansável composta  não só de soldados e milicianos iraquianos, mas também de civis armados. Iraquianos pobremente armados enfrentaram colunas de blindados, apoiadas por helicópteros e aviões de combate e sofreram pesadas perdas. Os repórteres que acompanham as unidades americanas e britânicas relatam que os acostamentos das estradas ficaram cobertos de corpos de iraquianos. Alguns reconhecem que há um ódio disseminado contra os invasores.

Os soldados americanos se queixam que não conseguem distinguir amigos de inimigos e, em muitos casos, respondem atirando em qualquer coisa de que mova em áreas onde encontram resistência. Como resultado, os hospitais iraquianos estão superlotados com feridos, a maior parte mulheres, crianças e idosos.

Os invasores também sofreram perdas, embora em número bem menor. O medo de que o número maior de mortos e feridos americanos e ingleses faça com que o público americano fique contra esta aventura militar explica a raiva expressa por Bush e o Pentágono com as táticas iraquianas e, em particular, com o filme dos prisioneiros de guerra americanos.

Conforme muitos salientaram, Washington sentir-se ofendido com as violações das Convenções de Genebra é o máximo da hipocrisia. As forças americanas permitiram que os soldados iraquianos que se renderam fossem filmados, obrigados a se ajoelharem, foram revistados e confinados atrás de arames farpados.

No Afeganistão, os Estados Unidos desprezaram as Convenções de Genebra. Estão mantendo as forças talebã incomunicáveis,  brutalizando e humilhando ao ponto de as tentativas de suicídio terem alcançado proporções epidêmicas no campo de prisioneiros de Guantánamo. Dois prisioneiros morreram devido a tortura. Também existem evidências de que as forças americanas participaram do massacre dos 3.000 adeptos dos talebãs, que se renderam aos soldados apoiados pelos Estados Unidos após a batalha de Mazar-i-Sharif, sem falar do bombardeio americano da fortaleza- prisão que resultou no massacre dos 800 soldados talebãs capturados.

As Convenções de Genebra também proíbem o ataque deliberado a instalações civis, uma prescrição que o Pentágono reconhece violar com seus mísseis direcionados contra a televisão iraquiana.

Não há dúvida de que os iraquianos prefeririam iniciar o tipo de guerra "civilizada" que está sendo realizada pelos Estados Unidos, mas eles não têm mísseis e aviões de guerra que possibilitem matar grandes quantidades de pessoas a milhas de distância. Por isso, eles tentaram responder à campanha "choque e pavor" dos Estados Unidos e demonstrar ao mundo que o exército americano não é o todo poderoso, exibindo filmes dos corpos dos soldados americanos e dos feridos sendo interrogados pelos captores iraquianos.

"Uma violação do direito internacional", protestam os Estados Unidos, ameaçando com julgamentos por crimes de guerra para os responsáveis. No entanto, tal procedimento não acontecerá no recém formado Tribunal Internacional Penal. Washington se recusou a reconhecer a instituição com receio de que pudesse se encontrar no banco dos réus.

O fato de que os Estados Unidos invadiram ilegalmente o Iraque com uma força militar esmagadora não é a questão, explicam especialistas legais em administração. "Numa guerra, não importa quem está certo ou errado, inclusive quem a começou", disse Ruth Wedgwood, uma professora de Direito Internacional, da Universidade John Hopkins. "Mesmo que você ache a guerra ilegal, as normas da guerra ainda assim se aplicam." Muitas vezes citadas por sua experiência no campo do direito sobre o por que da guerra de agressão dos Estados Unidos ser permissível, ela é membro do "Comitê para Libertar o Iraque" e do Conselho de Política de Defesa do Pentágono. Suas declarações apenas confirmam que os defensores das atrocidades americanas, preparados para oferecer qualquer sofisma ou mentira, podem ser rapidamente encontrados nos círculos acadêmicos.

A alegação de que invasores e invadidos, opressor e oprimidos, devem todos se sujeitar ao mesmo código  legal e moral abstrato só merece desprezo.

A acusação de iraquianos armados usando estratagemas- inclusive falsas rendições - para emboscar soldados americanos repetem denúncias americanas das guerrilhas da Frente de Libertação Nacional durante a Guerra do Vietnã. Naquela guerra, funcionários americanos também afirmavam que eles estavam atingindo alvos militares cuidadosamente escolhidos, enquanto trabalhavam para conquistar os "corações e mentes" das pessoas. O resultado final foi um milhão de vietnamitas mortos, a morte de 55.000 soldados americanos e a derrota dos Estados Unidos.

A mesma espécie de acusação foram levantadas pelos franceses contra os rebeldes da FLN, na Argélia, e pela Inglaterra contra os súditos revoltosos da Índia, África e Iraque, há 80 anos atrás, quando os ingleses tentavam colonizar a região.

Possuindo esmagadora superioridade de armas - no Iraque dos anos 20, o exército inglês usou aviões de guerra equipados com bombas de gás mostarda - o invasor, as nações opressoras sempre denunciaram o oprimido por não conseguir respeitar as normas de guerra "civilizada".

O que eles denunciaram como "selvagem" e "crime de guerra" é a utilização, por seus opositores, da única vantagem que possuem - que é seu país e seu povo, e que eles estão mais dispostos a morrer para defendê-los do que o invasor para conquistá-los. A experiência tem mostrado que esta vantagem tem peso maior na balança da história do que a superior tecnologia militar.

Mesmo que as forças de invasão americanas e britânicas consigam ocupar Bagdá, Basra e todos os grandes centros deste país de 23 milhões de habitantes - e, no momento, em hipótese alguma isto é certo - ainda assim elas enfrentarão uma ocupação prolongada e choques que levarão a vida de soldados nos próximos anos. Mais cedo do que tarde, a combinação da resistência iraquiana com o ódio dos trabalhadores da América e de todo o mundo a respeito desta guerra ilegal obrigará a um final vergonhoso para a tentativa de reviver o colonialismo no Oriente Médio.

WSWS

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