A ISRAELIZAÇÃO DA POLÍTICA AMERICANA

Por Marwan Bishara (*)

Nas últimas semanas, observei meio desorientado, a forma como a América adotou a estratégica equivocada de Israel no Oriente Médio. Será que a América levará tanto tempo quanto Israel para perceber que o início de uma guerra nada mais é do que o seu fim e que a ocupação militar não traz, como conseqüência, paz ou segurança?

Duas fotografias publicadas no International Herald Tribune no mesmo dia falam por si sós. Uma mostrava um soldado israelense em Hebron, apontando seu rifle automático para civis com as mãos para o alto, e a outra, exibia um soldado americano fazendo exatamente a mesma coisa em Fallujah, no Iraque. Se ambas não tivessem legenda, seria impossível distinguir quem é quem nas fotos.

A América, assim como Israel, está cada vez mais caminhando para um atoleiro em razão de uma ocupação militar, pois os ataques ao seus soldados continuam quase que diariamente no Iraque. A situação agravou-se com o fim das instituições de estado, como exército, deixando milhões de iraquianos desempregados.

Poderosos, mas vulneráveis, a América e Israel parecem tirar o pior de cada um. Desde os ataques de 11 de setembro, Washington internalizou a visão claustrofóbica de Israel de um mundo cheio de ódio e terrorismo. Seu otimismo pós-guerra fria cedeu espaço para um pessimismo vingativo.

O Presidente George Bush está seguindo o caminho de Ariel Sharon na medida em que usa os acontecimentos dramáticos dos dois últimos anos para estimular um novo patriotismo teológico com o objetivo de fortalecer sua base governista e enfrentar aqueles - principalmente muçulmanos - que "nos odeiam pelo que somos".

Nem Israel, nem a América, se questionam por que os palestinos e muçulmanos do Oriente Médio estão realizando ataques suicidas, algo jamais visto anteriormente no Islam ou na Palestina nos últimos 14 séculos.  A ocupação militar israelense e a dominação militar americana  transformaram os campos de massacre em territórios férteis de ódio e conflito e levaram a um fervor religioso.

Em lugar de acabar com as fontes de tensão, Washington acrescentou uma outra ocupação à ocupação israelense. Como bombeiros piromaníacos, funcionários americanos estão implementado a filosofia de guerra de Sharon, botando mais lenha na fogueira.

"Israelizar" a guerra americana contra o terror significa globalizar a guerra de Sharon: invasões militares arbitrárias, operações veladas, intervenções armadas, retaliações desproporcionais, assassinatos extrajudiciais e outras medidas de há muito consideradas crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Essas medidas mostraram-se ineficazes. Israel ficou menos segura apesar do continuado uso da força para resolver suas questões políticas.

Hoje, a América se arrisca ao internalizar o modo como combate e aqueles que combate. Conforme coloca um dos mais importantes historiadores militares de Israel, Martin van Creveld, se você combater o fraco por muito tempo, você  se tornará um fraco. Infelizmente, em lugar de aprender com os erros estratégicos de Israel, Bush está aconselhando os palestinos a aprenderem a lição do Iraque.

Se  continuar a "israelizar" sua política externa, a América globalizará o tipo de conflito encontrado na Palestina, com graves conseqüências não só externamente, mas, também em casa.

A experiência de Israel mostra que o fervor nacional baseado no medo reduz o processo democrático, descrevendo a racionalização como justificativa e a tolerância como imoral. Atualmente, mais americanos apóiam a política de assassinatos do que há duas décadas atrás e um número cada vez maior defende a tortura.

Da mesma forma que existe uma alternativa diplomática para a fracassada política de Israel na Palestina - baseada na legalidade internacional e no desenvolvimento sustentado, em lugar do desequilíbrio de poder e exploração -  é preciso que se encontre uma alternativa para a política externa unilateral e de força da América.

Alcançar a segurança nacional em um mundo transnacional significa aceitar e respeitar a interdependência. Quando a segurança for entendida como um direito universal, a interdependência se tornará sinal de sabedoria e não de fraqueza.

Se a América necessita de uma outra tradição porque não olhar para a longa história de tolerância e sobrevivência judaica - ou para a sua própria tradição constitucional? É hora de sacudir o pó daqueles grandes documentos que jazem nas prateleiras da Casa Branca.

(*) O escritor, que ensina relações internacionais na American University de Paris, é autor do livro "Palestine/Israel: Peace or Apartheid?"
 

Publicado em 27/06/03 no The International Herald Tribune
 


1