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ATUALIDADES

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MENTIRAS, ÓDIO E A LINGUAGEM DA FORÇA

Por Robert Fisk

Esta é uma história de mentiras, preconceitos, ódio e morte. É sobre a nossa incapacidade - após mais de meio século - de compreender a injustiça no Oriente Médio. É sobre uma parte do mundo onde parece bastante natural - depois de assistir repetidas vezes na televisão ao funeral do menino de 11 anos, Sami Abu Jezar, que morreu dois dias depois de ter sido baleado na cabeça por soldados israelenses - para uma multidão chutar dois agentes israelenses à paisana até a morte. É sobre uma nação que exige "pureza de armas" mas que atira mísseis sobre quarteirões de civis e aí declara que isto é "o restabelecimento da ordem". É sobre o povo que está tão enfurecido com a morte de quase uma centena de palestinos, que tenta explodir um navio de guerra americano.

É muito simples. Quando entrei na loja de fotografia ontem à noite, os meninos que lá estavam me cumprimentaram com sorrisos extasiados."Você soube do navio americano que foi atacado?" um deles me perguntou. "Há americanos mortos". Tudo o que pude ver na sala foram sorrisos. Num canto, na tela da televisão, um avião Apache israelense estava atirando um míssil no quartel-general em Gaza.

Há sete anos atrás, a CNN exibiu o primeiro-ministro israelense apertando a mão de Yasser Arafat, ao vivo, nos jardins da Casa Branca. Agora, ao vivo de Gaza, vemos um piloto cumprindo uma ordem do primeiro-ministro israelense para matar Arafat, bombardeando seu quartel-general.

Como de costume, na noite passada as transmissões das notícias pela televisão - a mais subserviente e deformante das máquinas de informação - desviavam nossa atenção da verdade. Eles não perguntavam por que os palestinos teriam linchado dois israelenses secretos. Ao invés disso, perguntavam por que a polícia palestina não os tinha protegido. Não perguntavam por que um manifestante suicida, num barco de borracha teria investido contra o USS Cole. Em lugar disso, perguntavam quem ele era, para quem trabalhava e entrevistaram funcionários do Pentágono que denunciaram o ato de "terrorismo". Sempre o "quem" ou o "que", nunca o "por quê?"

É bem possível que Osama bin Laden, uma das figuras mais odiadas pelos americanos atualmente,tenha sido a inspiração - através de sermões, em lugar de uma instrução direta - para o ataque ao USS Cole. A família de bin Laden é originária do Iêmen. E foi o Iêmen quem exigiu o direito, no início desta semana, de mandar armas diretamente para os palestinos dos territórios ocupados - provocado, ao que parece, pela morte de um outro menino de 12 anos,em Gaza, depois de ter sido baleado pelos israelenses. No entanto, muitos dos ataques contra as forças de ocupação israelenses no Líbano eram desferidos por rapazes sem qualquer ligação com a elite política árabe, mas enfurecidos com a injustiça praticada. Talvez o mesmo tenha ocorrido no Iêmen

Quando Arafat assinou o Acordo de Oslo, há sete anos atrás, somente uns poucos se perguntaram quanto tempo levaria para essa "paz" desmoronar. Achei que terminaria em violência porque os palestinos estavam sendo forçados por americanos e israelenses a assinarem uma paz que não lhes daria um estado e nem acabaria com os assentamentos judeus em território árabe, ou a capital na Jerusalém oriental.

Escrevi que tinham transformado Arafat, de "super-terrorista" em um "superestadista", mas que poderia facilmente voltar a ser um "super-terrorista". E isto aconteceu. Ontem, o porta-voz Avi Pasner, dividiu uma entrevista comigo na BBC e chamou Arafat de "terrorista".

Ora, nada disso foi surpresa - ninguém salva nossa permanente incapacidade para compreender o que acontece quando toda uma sociedade é submetida à pressão até o ponto de explosão. Um funcionário do Pentágono estava dizendo ontem à noite que o governo dos EUA estava tentando descobrir se o ataque ao USS Cole estava "relacionado" com a "violência" no Oriente Médio. De novo? Relacionado? Violência? Quem duvida que a tentativa de afundar o Cole e toda a sua tripulação de 360 americanos foi dirigida a uma nação que tornou-se responsável pelos índices de mortes de civis palestinos provocadas por Israel? Os Estados Unidos - apesar de todo o palavrório de Madeleine Albright sobre os "agentes honestos" - são um aliado de Israel.

Desde que Arafat tentou deixar a residência do embaixador americano em Paris, há duas semanas atrás, os palestinos colocaram essa responsabilidade sobre os ombros da América .Se os Estados Unidos quiserem continuar defendendo um aliado que atira em palestinos nas ruas dos territórios ocupados, então serão chamados a prestar contas. E pagarão por isso.

É óbvio que isto não justifica a morte cruel dos agentes israelenses ou a destruição do Túmulo de José, em Nablus, ou, até o assassinato de colonos judeus. Mas a crueldade dos palestinos pode ser explicada pela crueldade dos israelenses. A mortalidade entre os palestinos está quase igual à de Qana, em 1996, quando atiradores israelenses abateram 106 civis libaneses. Chamamos a isso de massacre. Os israelenses disseram que tinha sido um erro. A verdade é que representa quase 5% da mortandade nos campos de refugiados de Sabra e Chatila, quando a milícia israelense matou mais de 2.000 civis palestinos. Dissemos que tinha sido um massacre. Israel disse que tinha sido um erro. Da mesma forma que disseram que as mortes de um menino de 12 anos e de outro de 7 anos tinham sido um erro.

E ontem - sem qualquer referência para orientá-los - os jornalistas estavam engolindo a incrível alegação israelense de que eles atiraram "somente em alvos militares", que a população civil de Gaza tinha sido avisada para deixar as áreas que seriam bombardeadas. Parece até que não me recordo do que os israelenses disseram em 1982, de que no Líbano eles "atiraram apenas em alvos militares" - e deixaram mais de 17.000 civis mortos em dois meses. Não me lembro de que os israelenses tenham ordenado à população de Mansouri que "evacuasse" o vilarejo, antes de ser bombardeado e em seguida terem atacado os carros na estrada, além   de terem atirado um míssil na traseira de uma ambulância, matando 4 crianças e 3 mulheres - o míssil feito, é claro, pela Boeing, uma companhia americana.

E não foi a CIA quem supostamente treinou os policiais palestinos e que agora estava sendo ridicularizada pelo Sr.Pasner, sendo chamada de "terrorista"? E não foram os Estados Unidos o agente do desastrado Acordo de Oslo? Portanto, é para ficar surpreso com o fato de os palestinos - na verdade os árabes - estarem acusando os Estados Unidos pela tragédia exposta na Terra Santa?

E é menos surpreendente que os israelenses agora estejam contra o homem com quem eles acharam que concluiriam uma paz que transformasse a Palestina num Bantustão. O homem que se supunha "controlar" os palestinos, que se supunha poder prender os opositores ao "processo de paz" - fossem eles pacíficos ou violentos - não está fazendo o que lhe disseram para fazer. Ele saiu de Camp David porque era uma capitulação. Assim, o presidente Clinton o acusou pelo fracasso da conferência - na televisão israelense, em todos os lugares - e ordenou que Arafat não declare um estado. Ou qualquer coisa.

E agora, quando dois candidatos à presidência dos Estados Unidos - Bush e Gore - tentam se exceder em seu amor e lealdade a Israel, será que a América entende o que está acontecendo?

Penso que se trata da mesma velha história. Os israelenses só querem a paz. Os palestinos turbulentos, insubordinados e assassinos - completamente culpados pelas 95 mortes de seu povo - só entendem a violência.

Isto foi o que o porta-voz militar israelense disse a noite passada. "A força", disse ele, "é a única língua que eles entendem". O que está muito perto de uma declaração de guerra, conforme podemos perceber.

Publicado no jornal inglês Independent, de 13/10/00

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