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ATUALIDADES

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BUSH PROCURA AJUDA DA ONU, ENQUANTO SE AGRAVA A CRISE IRAQUIANA

Por Patrick Martin

O administrador americano no Iraque, Paul Bremer, encontrou-se com o secretário-geral da ONU, Kofi Annan, na segunda feira, em Nova York. Foi uma tentativa de obter a ajuda daquela organização no sentido de impedir que a crise política no país ocupado fuja do controle. Annan está considerando a possibilidade de enviar uma missão da ONU ao Iraque para negociar com o principal representante xiita, o aiatolá Ali al-Sistani, que não aceitou reunir-se com representantes da autoridade americana.

O líder religioso xiita rejeitou o plano aprovado por Bremer, em novembro passado, de transferir a soberania formal no dia 30 de junho para um governo iraquiano indicado pelos Estados Unidos. O novo governo seria escolhido por uma comissão de "notáveis" reunidos em cada uma das 18 províncias iraquianas. O regime de ocupação americano e seus leais representantes no Conselho Iraquiano de Governo (CIG) selecionariam os membros da comissão e, dessa forma, teriam o controle do resultado final.

O principal objetivo deste procedimento - que impede a grande maioria da população iraquiana de se manifestar - é instalar um governo em Bagdá que convidará o exército dos Estados Unidos a permanecer no Iraque por um período indeterminado. Longe de apressar o fim da ocupação, conforme sugerido por Bremer em seus comentários à impressa durante o fim-de-semana, o governo Bush prepara-se para solidificar sua posição no Iraque.

Pela legislação internacional, o atual Conselho Iraquiano de Governo indicado pelos Estados Unidos não tem autoridade para aprovar uma permanência de longo prazo do exército americano em solo iraquiano, nem de privatizar as indústrias estatais do Iraque ou celebrar contratos de longo prazo para a colocação do petróleo do país. O controle das reservas petrolíferas do Iraque, a segunda maior do mundo, foi o principal objetivo da invasão americana.

O aiatolá Sistani exigiu uma eleição geral como base para um novo governo. Seus seguidores organizaram uma grande demonstração, segunda-feira, em Bagdá, com mais de 100.000 pessoas marchando atrás de cartazes de Sistani, entoando "sim, sim às eleições! Não, não à ocupação!". Quatro dias antes, um protesto semelhante aconteceu em Basra, com mais de 30.000 participantes.

Um representante do aiatolá Hashim al-Awad dirigiu-se à multidão em Bagdá, dizendo: "Os filhos do povo iraquiano exigem um sistema político baseado em eleições diretas e uma constituição que promova a justiça e a igualdade para todos." Com uma ameaça implícita de ação direta contra o regime de ocupação, ele acrescentou "somente isto permitirá que o povo se manifeste."

Na sexta-feira, Sistani encontrou-se com líderes locais de todo o sul xiita, na cidade de Najaf, enquanto os religiosos xiitas de todo o país faziam sermões pregando a resistência. Em Kerbala, outro importante centro religioso do xiísmo, o shaykh Abel Mahdi al-Karbalai, um auxiliar de Sistani, disse: "Vamos assistir a protestos e greves e desobediência civil e, talvez, confrontos com as forças de ocupação."

Enquanto o governo Bush afirmava que o principal objetivo da invasão e conquista do Iraque tinha sido a substituição de Saddam Hussein por um governo democrático, o atual conflito político faz surgir o temor de que os iraquianos possam democraticamente escolher um governo que não seja do agrado de Washington. Considerando que os xiitas representam 60% ou mais da população iraquiana, os partidos sob influência do clero xiita poderiam perfeitamente assumir o controle de um governo eleito.

Antecipar-se a este resultado e manter, ao mesmo tempo, suas pretensões democráticas, a administração Bush recorreu a subterfúgios, alegando que uma eleição é impraticável porque não existe uma lista de votantes ou um censo confiável, muito embora suas preocupações fossem com as tecnicalidades do processo eleitoral e não com um provável resultado.

A ONU está sendo instada a validar essas objeções a uma eleição direta e levar o caso diretamente a Sistani, que manteve conversações com funcionários daquela Organização mas que não aceita encontrar-se pessoalmente com Bremer ou com qualquer outro representante do regime de ocupação.

Na hipótese de Sistani permanecer irredutível, a ONU poderia desempenhar o papel de patrocinador de um compromisso e abrir o caminho para uma retirada de Bush e Bremer, que insistiram que não haverá mudança na data de 30 de junho (escolhida principalmente a partir da campanha de reeleição de Bush).

Indagado pelos repórteres em Nova York sobre a possibilidade de os Estados Unidos desistirem de sua oposição a uma eleição direta, Bremer disse que a questão é legítima e "onde a ONU, com sua experiência em eleições, pode oferecer uma perspectiva." Annan foi igualmente conciliador, indicando que estava inclinado a enviar uma equipe ao Iraque e acrescentando que "a estabilidade do Iraque é dever de todos."

Funcionários americanos, que falaram à imprensa sob a condição de não serem identificados, foram mais sinceros sobre a gravidade da crise política. Um deles contou ao Washington Post "estamos entre uma pedra e um local difícil ... Queremos que a ONU esteja lá, mas a situação está evoluindo tão rapidamente que não podemos simplesmente mudar as coisas até que a ONU chegue."

O Post, um dos mais fervorosos defensores do ataque de Bush ao Iraque, publicou um editorial, na segunda-feira, sob o título "Em Busca do Resgate", onde declarou que a estratégia da administração para o Iraque estava "à beira do caos". O editorial admitiu, sem disfarce, que a Casa Branca estava se opondo às eleições porque "o procedimento da comissão indireta favorecido pela administração e pelo Conselho de Governo aumentaria as chances de preservar sua influência."

"Todas as opções no Iraque contêm riscos consideráveis", preveniu o Post. "Mas, parece-nos que o maior deles estaria ligado a uma decisão dos Estados Unidos de influir na escolha de um governo ignorando a oposição do clero xiita."

Na percepção de Washington, a questão política no Iraque vai muito além do perigo de um regime fundamentalista xiita em Bagdá, com possíveis ligações com o Irã. Existem várias fissuras políticas: xiitas vs sunitas, árabes vs curdos, seculares vs fundamentalistas. Observando esses conflitos, um dos mais veementes apologistas da guerra, o colunista do New York Times Thomas Friedman, escreveu, melancolicamente,na semana passada: "o nosso mais sério inimigo no Iraque não são os insurgentes iraquianos e sim o povo iraquiano."

Em janeiro, Massoud Barzani, líder do Partido Democrático do Curdistão, um dos dois principais grupos nacionalistas curdos e membro do Conselho de Governo Iraquiano, disse que os curdos exigiram uma região autônoma, inclusivo o controle da rica região petrolífera em torno da cidade de Kirkuk, cuja população está violentamente dividida entre curdos, árabes e turcomanos. O PDC e a União Patriótica do Curdistão se opõem a exigência de Sistani de eleições imediatas, procurando obter uma região semi-independente no norte antes da eleição de um novo governo, que, provavelmente, seria dominado pelo sul, de população árabe.

No mesmo dia, um conhecido religioso sunita, shaykh Mohammed Bashar Faidi, o porta-voz do Conselho de Cleros e Sábios, disse que seu grupo poderia editar um decreto religioso, uma fatwa, declarando um governo dominado por xiítas ilegítimo e sancionando qualquer resistência a ele.

Também na semana passada, foi revelado que o Conselho de Governo Iraquiano, em uma tentativa de acalmar o clero xiita, baixou um decreto exigindo o uso da lei islâmica, a shariah, para questões internas, tais como casamento, divórcio e custódia de filhos.Esta medida piorou dramaticamente a condição das mulheres no Iraque que, desde a queda da monarquia, em 1958, usufruíam das mais avançadas regalias legais,inclusive o direito de voto, exercício de cargo público e igualdade nas questões matrimoniais e de propriedades.Esta decreto ainda terá que ser aprovado por Bremer, a autoridade máxima do regime.

Enquanto isso, o caráter instável da ocupação americana foi salientado no domingo de manhã, quando um caminhão bomba explodiu na entrada do complexo do quartel general dos Estados Unidos, na região central de Bagdá, matando pelo menos 20 pessoas. Aparentemente, um suicida detonou meia tonelada de explosivos quando o caminhão parou no posto de fiscalização que leva à "Zona Verde". A maior parte dos mortos era de iraquianos indo para o trabalho no complexo murado.

No sábado, o número de mortos dos Estados Unidos no Iraque chegou a 500, com a morte de três soldados americanos e dois guardas civis iraquianos em Taji, ao norte de Bagdá. As 500 mortes incluem 346 soldados mortos pelos rebeldes iraquianos e 154 que morreram de causas "não hostis", terminologia militar usada para definir mortes por acidentes, suicídios ou incidentes de "fogo amigo".

Publicado em 20/01/2004, no WSWS

 



 

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