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ATUALIDADES

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UMA VISITA A SHATILA

Ali Abunimah

Por mais que eu possa falar sobre Shatila, ainda assim não consigo verbalizar o que vi e senti no dia em que visitei aquele lugar. Desde 1982, o nome "Shatila" ocupa minha consciência, como palestino que sou, quando, juntamente com "Sabra", passou a significar um mal indescritível, o lugar onde mais de dois mil palestinos foram massacrados por milícias libanesas de direita, enquanto o exército israelense, de suas posições de fora do campo, observava e dava cobertura para a terrível chacina. Durante alguns dias, o mundo cambaleou de horror com o que tinha sido feito aos palestinos em Sabra e Shatila. Depois, todos esqueceram. Israel escapou de qualquer responsabilidade ou punição e alguns oficiais e funcionários israelenses, considerados responsáveis pela comissão de inquérito criada para apurar o caso, servem hoje no governo de Ehud Barak, enquanto Ariel Sharon, o criminoso de guerra principal, é o líder da oposição oficial de Israel e será o primeiro-ministro.

Penso que os palestinos do mundo inteiro jamais se esquecerão de Sabra e Shatila, mas nossas vidas continuam. Para muitos de nós, os campos permaneceram como símbolos e não locais, e cada um que morreu será lembrado. Sabra foi desobstruída, feita a limpeza e, das duas, apenas Shatila permanece. Podemos imaginar o que significa dizer que "a vida continua" no lugar onde aconteceu o massacre?

Um pequeno grupo nosso foi a Shatila em certa manhã de junho passado. Acompanhado de M., uma jovem mulher libanesa, que faz trabalho de voluntariado no campo, deixamos Beirute em táxi, em direção ao sul, onde está situado Shatila. Chegamos a um movimentado mercado apinhado de gente. Dos dois lados da rua vimos prédios decrépitos e pilhas de lixo (que as autoridades libanesas não recolhem) em cima de montes de ruínas. O chão é úmido, com um cheiro parecido com dejetos e água podre. Por toda parte a rua é cheia de gente comprando e vendendo vegetais e mercadorias feitas em casa. Uma loja vende conjuntos de televisão reciclados, a maior parte deles parecendo aparelhos dos anos 70.

Um pequeno muro por trás de uma barraca de tomates separa o mercado apinhado de um local vazio. Vazio, exceto pelas pilhas de lixo podre e um pequena choça de metal canelado. Este local, disseram-nos, é a sepultura coletiva onde as vítimas dos massacres de 1982 foram enterradas. Não há placas ou memorial, apenas pilhas de lixo. Caminhando mais adiante na rua principal, o mesmo cenário: lixo e frágeis blocos de prédios esfumaçados. Normalmente, tenho facilidade para encontrar as palavras  quando quero descrever alguma coisa que eu tenha visto. Neste caso, não consegui. Mesmo que pudesse encontrar os adjetivos corretos para descrever o ambiente físico, o cheiro, o sentimento de estar entrando em outro mundo, são as emoções do choque interior que impedem a descrição. Como é que se permite que pessoas vivam numa situação como esta?

Shatila é um dos treze campos de refugiados palestinos no Líbano. De acordo com a ONU, existem, no Líbano, 375.218 refugiados palestinos registrados, dos quais 209.225 vivem em campos de refugiados. Shatila tem um total de dezesseis mil residentes, mas, diferente dos campos palestinos maiores no sul do Líbano, ele contém uma mistura de gente. De acordo com os moradores com quem falamos, apenas seis mil dos residentes são palestinos, principalmente vindos no norte da Palestina - Galiléia,  Safad,  Haifa e cercanias. O restante são trabalhadores imigrantes sírios, libaneses pobres e deslocados internamente, e   outros de diversas procedências. .Os  residentes palestinos de Shatila acreditam que o Líbano permitiu deliberadamente que não palestinos alugassem casas no campo para diluir a população palestina e diminuir a sensação de comunidade. Ao mesmo tempo, os palestinos no campo cada vez mais temem a atividade política, porque sentem que estão sendo observados por todos os lados.

Em certo ponto, saímos da rua do mercado e entramos em uma estreita viela que nos levou a uma entrada com uma placa "Beit Atfal al-Sumoud".  Trata-se de uma pequena ONG que trabalha no campo oferecendo cuidados e serviços a várias crianças que perderam os pais nos massacres de 1982, e na posterior "Guerra dos Campos", quando, em meados dos anos 80, o grupo xiíta Amal, apoiado pelos sírios, cercou vários campos palestinos. O lugar era típico das pequenas ONGs que vi em campos de refugiados: pequeno porém limpo e arrumado, com quadros e posters para enfeitar as paredes simples. Encontramos  pessoas que trabalham no centro e que foram testemunhas, elas próprias, de perdas e sofrimentos inimagináveis.

Foi aqui que Samar, Muhammad Azouka e Mahmoud, três jovens que vivem no campo, vieram nos encontrar. Os pais de Samar foram mortos e ela, atualmente perto dos 15 anos de idade, vive com seus avós. Mahmoud e Muhammad perderam o pai. Os rapazes estão com 14 anos mas parecem estar com 8 anos, devido à desnutrição. Mas, se seus corpos são atrofiados pelas agruras no campo, o espírito e força exterior que os três demonstraram eram enormes. A vida para eles é uma luta diária mas que não se pense que são pessoas que se sentam, caladas, em um canto. As crianças que encontramos tinham uma profunda confiança e uma cordialidade efusiva que me consolou e fortaleceu naquele dia, de uma forma que desejei ter podido fazer o mesmo por eles.

Embora as condições das crianças que vivem no campo, e as experiências que viveram, sejam indescritivelmente difíceis, elas não nos inspiram pena e nem é essa a emoção que provocam. Pena é algo que se sente por alguém mais fraco, ou subjugado, e não por alguém que tem lutado e se superado mais do que nós.  Naquele dia, estávamos lá  para ouvir e aprender e talvez para imaginar, por um milionésimo de segundo, o que seria de nós se o destino tivesse decretado que fôssemos nós a nascer no campo e as crianças os estrangeiros com câmeras e blocos de papel para virem ao nosso encontro.

Sentamos todos juntos na biblioteca criada pelas próprias crianças. Olhamos as fotos que tirei do campo de refugiados Dheisheh, na Palestina ocupada, tiradas no dia em que as crianças de Shatila, separadas por uma cerca de arame farpado, encontraram-se com um grupo de Dheisheh (até aquela época não havia correio direto entre a Palestina e o Líbano, os viajantes era um dos poucos meios para a remessa de cartas e fotos).

"Olhe", disse Mahmoud, apontando para a sua foto, esticando-se na cerca, "sou eu, com um pé na Palestina e outro no Líbano."

"Como você se sentiu?", perguntamos.

"Com se uma parte de mim fosse livre a a outra estivesse na prisão."

Samar contou como o encontro com as crianças de Dheisheh mudou suas vidas e opiniões: "Sempre achamos que qualquer um que fosse sortudo o bastante para viver na Palestina estaria vivendo no topo do mundo. No entanto, vimos que muitos palestinos vivem em campos de refugiados iguais aos nossos." As crianças trocaram pequenas lembranças e salgadinhos através do arame farpado. Samar disse "até guardamos os invólucros porque queríamos ter na memória tudo o que aconteceu naquele dia." As crianças foram à cerca em Dhaira duas vezes, desde que o exército israelense foi derrotado no sul do Líbano. "A coisa mais dura", disse Samar,"foi quando as crianças partiram pela última vez e elas não sabiam se tornariam a se ver de novo, em meio a temores de que as autoridades israelenses e libanesas bloqueassem o acesso à região de fronteira. Os dois grupos de crianças mantêm contato através de e-mail e uma delas, que estava em Dheisheh, nos deu um pacote de cartas para serem entregues às crianças de lá.

Samar leu um poema intitulado "Palestina como imaginada pelas crianças de Shatila", que foi escrito  coletivamente. Para a população jovem de Shatila, a Palestina, um lugar que só vislumbraram através de uma cerca de fronteira, representa a esperança de que escaparão das privações que, de forma deliberada, são impostas a elas. É a esperança de que o campo de refugiados não é uma sentença de vida sem liberdade condicional para crianças cujo único crime é o de terem nascido palestinas. E, quando entre desejos de "pais que não morrem", "boas escolas" e a oportunidade de escolherem uma carreira livre de limitações, elas imaginam "um mar de chocolate", na Palestina, você é lembrado de que essas são crianças que ainda têm sonhos de criança, mesmo que o mundo adulto tenha se esforçado ao máximo para acabar com elas.

The Journal of Palestine Studies publicou recentemente alguma coisa sobre o trabalho das crianças (ver "Through Children's Eyes: Children's Rights in Shatila Camp". Vol. XXIX, No. 1, Outono 1999, Issue 113 - Mencionei, abaixo, alguns trechos que foram apresentados em uma exibição no American Community School, em Beirute, em 30/06/2000).

Depois do nosso encontro na biblioteca, as crianças nos levaram para uma volta no campo. Cuidadosamente, elas explicaram como é a vida em vielas tão estreitas que, algumas vezes, a pessoa tem que passar por elas de lado. Muhammad me perguntou "Como é Dheisheh? Suas vielas são estreitas como as nossas? Existe espaço para brincar?" Em Shatila não há parques - os espaços entre as casas são como labirintos e qualquer terra livre já está ocupada pelo lixo podre.

Shatila é um lugar onde a vida e a morte coexistem. Samar nos mostrou a mesquita onde os mortos foram enterrados durante os longos meses em que o campo foi cercado e corpo algum podia ser levado para o cemitério. Seu pai e sua irmã estão enterrados aqui. Olhamos através de uma janela filas e mais filas de túmulos decorados com flores secas.

Muhammad apontou para um bloco cinza - quatro, cinco e seis pavimentos de altura- abarrotado do máximo possível de gente e o impossível emaranhado de fios que fornecem uma precária energia para as casas dos refugiados.

Alcançamos a extremidade do campo. Diante de nós, apresentou-se uma área de escombros e lixo, o tamanho de vários blocos da altura de um homem. Ainda de pé, estão dois ou três prédios de apartamentos, remanescentes dos arredores achatados pelos bombardeios israelenses na invasão de 1982. Os prédios pareciam para todo o mundo como se tivessem sido bombardeados no dia anterior. As quinas dos pavimentos tinham tombado uns sobre os outros como um acordeão e não havia janelas. Porém, chegando mais perto, vimos que os prédios estavam completamente habitados: roupas penduradas entre os enormes espaços do que antes eram paredes. Podia-se ver os utensílios domésticos nos interiores, uma mesa, cadeiras ou camas, como se as paredes tivessem sido retiradas. Muhammad explicou que a área outrora tinha sido parte do acampamento mas que as autoridades libaneses tinham proibido a reconstrução dos imóveis. As pessoas que atualmente vivem nesses prédios são, em sua grande maioria, sírios. Elevando-se por trás do campo, pudemos ver grandes extensões e os enormes postes de luz do iluminado recém-construído estádio Cite Sportive de Beirute. Muhammad apontou para o estádio e depois para as ruínas. "Esta área é parte do projeto. Eles planejam construir uma autoestrada que passará por aqui."

Quando caminhávamos por uma outra rua principal, conseguimos vislumbrar no escuro, prédios de apartamentos sujos e lúgubres sem eletricidade, que raramente recebem a luz natural. É nesses prédios que, em cada cômodo,  vivem talvez de 10 a 15 palestinos, que sobreviveram ao massacre do antigo campo de refugiados de Tel al-Zaatar, em 1976. Esses prédios não são reconhecidos oficialmente pela ONU como parte do campo de refugiado e, por isso, seus moradores - todos desesperadamente pobres - não recebem qualquer assistência daquela Organização. Não muito distante dali, em condições semelhantes, vivem os deslocados sobreviventes de Sabra.

A partir dali, tomamos um táxi de volta para Beirute, e de volta para um mundo em que a realidade de Shatila raramente se intromete.

A próxima vez que vimos Samar, Muhammad e Mahmoud foi alguns dias mais tarde, na American Community School, em Beirute. Também estivemos com outras crianças de Shatila, todas de um grupo com o qual nos reuníamos regularmente em Beit Atfal al-Sumoud, e com M. Explodindo de orgulho e alegria, as crianças mostravam aos visitantes uma exposição de fotografias e textos criados por elas, chamada de "O Direto de Sonhar". Este foi o primeiro evento desta natureza fora do campo. A felicidade de todo o grupo e o sentimento de poder ficou amplamente personificado em Farah, a jovem apresentada no recente documentário de Mai Masri, "As Crianças de Shatila". Farah recebeu a todos os convidados, explicando como as crianças trabalharam duro e como era importante mostrar para o mundo como é a vida delas e terminou seu discurso com um enérgico: "Nós amamos vocês e esperamos que vocês nos amem também!"

Foi um verdadeiro privilégio estar naquela exposição naquele dia. Mais uma vez, senti que eu era um estudante e aqueles jovens os professores. Quantas vezes não fui levado pela mão para que pudesse ver uma fotografia e ouvir sua estória? Contarei uma: Osama, de 16 anos, me mostrou uma foto que ele tirou do mercado da rua que visitáramos em Shatila, alguns dias antes. Parecia perfeitamente comum, até que Osama passou a explicar o seu significado. Veja os colonos na rua. Todos eram palestinos mas agora quase todos os empregos foram ocupados pelos sírios". Os sírios usufruem de várias vantagens sobre os palestinos, o que lhes permite se apossarem de empregos nos poucos setores  (todos mal qualificados e mal pagos) nos quais os palestinos têm permissão para trabalhar. Como mascates, os sírios atravessam as fronteiras com a Síria e trazem mercadorias baratas, uma coisa que os palestinos que podem viajar somente com grande dificuldade poderiam fazer. Os sírios, como trabalhadores e construtores, recebem 5.000 liras libanesas (US$3,) por dia por um trabalho que um palestino não pode fazer por menos de 20.000 (US$12.)

Por que os palestinos não podem "competir"? Os homens sírios quando chegam ao Líbano, vêm sozinhos e não precisam pagar casa ou sustentar a família. Eles podem viver em grupos em pensões. Por causa do baixo custo de vida na Síria, e o câmbio da libra síria, eles podem enviar algum dinheiro para suas famílias, ao passo que os palestinos têm que usar seu dinheiro em um Líbano muito mais caro. Osama explicou que um jovem como ele, proibido de pensar em ser médico ou engenheiro, pode, pelo menos, esperar tornar-se carpinteiro ou trabalhar em outras atividades que exijam habilidade. Hoje, ele receia que sequer possa esperar por isso. Osama e todas as crianças tinham passado nos exames um dia antes da exposição, acrescentando um sentimento de celebração. Mas, para Osama, a alegria anda lado a lado com o temor de que todos os caminhos econômicos se fechem para os palestinos. O sucesso na escola estava preparando Osama para uma carreira como coletor de lixo. A redução das expectativs das crianças, a baixa qualidade da escola no campo (onde as crianças recebem aulas em salas com mais de 50 alunos e são rotineiramente insultadas e às vezes surradas), combinado com as pressões econômicas, estão diminuindo a habilidade e vontade de algumas crianças de frequentarem a escola.

Além das fotos, alguns textos de autoria das crianças, também foram apresentados na exposição e falavam mais eloquentemente sobre a realidade de sua vida do que qualquer estória de jornal ou relato escrito por alguém de fora.

Em uma peça chamada "Quero Brincar, e não Trabalhar", Muhammad Daud (com Mona Zaaroura) escreveu sobre sua experiência como trabalhador infantil:

"... Quando trabalho em Shatila, não me sinto miserável e nem amaldiçoo minha vida porque todas as crianças daqui trabalham e o trabalho infantil não é algo estranho. Porém, foi diferente quando trabalhei no verão na construção de um prédio na cidade de Shmays, perto de Shahim, e vi a forma como as crianças de lá brincavam e corriam enquanto eu carregava baldes de cimento e zinco, que dificultavam minha respiração. Então, comecei a me perguntar por que eu não estava brincando e correndo nos campos como as outras criança?" Por que vou da escola direto para o trabalho? Por que tenho que trabalhar para viver? Sei porque: porque sou de um campo, porque sou um refugiado palestino."

Enquanto a pressão econômica empurra os meninos da escola para o trabalho, o efeito sobre as meninas é que muitas vezes são forçadas a casamentos muito cedo. Rana Kassen (com Rana al-Hassan e Suzanne Abd el Hadi), ao escrever sobre sua própria experiência em uma peça chamada "Sou uma menina mais estou comprometida", definiu a perspectiva do casamento como "pesadelo", do qual ela escapou por um triz porque tinha apenas treze anos:

"...Um dia fiz uma viagem a Beyt Atfal Assoumoud   e um homem que não conhecia pôs os olhos em mim. Então, ele se informou sobre mim, apresentou-se em minha casa e pediu minha mão em casamento. Minha mãe concordou sem pedir minha opinião. Por causa da morte de meu pai e de nossas tristes condições de vida, a opinião de minha mãe era tudo o que importava. Ela insistiu que eu me comprometesse e eu aceitei. O período de noivado foi um dos mais cruéis de minha vida. Algumas vezes eles me chamavam quando eu estava brincando com minhas amigas porque o homem tinha chegado para nos visitar e eu deveria estar pronta para recebê-lo. Eu tinha muito medo dele e o odiava. Por causa deste medo muitas vezes fiquei doente. Cada vez que o via, eu tinha febre e começava a chorar. Eu o imaginava como um monstro que assusta crianças. Como eu estava sempre doente consegui me livrar do pesadelo ..."

Wissam al-Ahmad (com Mirvat Issa) escreveu como seu irmão morreu de asma por não dispor de tratamento e medicamentos adequados, fato bastante comum nos campos:

"... Meu irmão morreu como a maior parte dos refugiados no campos, de uma doença menor, que ele adquiriu por causa das condições de vida do campo: poluição devido à contaminação da água corrente com esgoto, ou a umidade, ou o mau cheiro do lixo, ou a pobreza e má nutrição. Devemos morrer simplesmente porque somos palestinos sem terra e porque somos um povo deslocado sem uma nacionalidade?..."

Embora elas expressem claramente suas esperanças e sonhos, as crianças de Shatila raramente escapam do sentimento de que o mundo é fechado para elas. Em "Não tenho direito de sonhar?", escrito por todo o grupo, elas falam em uníssono:

"Mas tenho medo de que meus sonhos atinjam os muros do campo,
ou que  se percam entre as vielas tortuosas,
ou que sejam poluídos pelo lixo.

Tenho medo quando sonho de que meus sonhos atinjam minha realidade,
meu ser como refugiado palestino privado de meus direitos.

E, então, me pergunto, não tenho realmente direito de sonhar?
E pergunto ao mundo, não tenho direito de sonhar?"

O tratamento dos palestinos é uma grande vergonha para o Líbano e um tabu, é preciso que se chegue a um acordo neste momento em que a libertação de sua região sul inspirou todo o Oriente Médio. Os palestinos do Líbano têm um pouco menos direitos do que qualquer outro país no mundo, inclusive a Palestina ocupada. Eles foram proibidos de tudo, exceto de executarem as mais servis atividades. A liberdade para viajar é limitada   e, na maior parte dos campos maiores, a construção de casas, até as reformas, é rigorosamente proibida pelas autoridades libanesas, que praticamente não prestam qualquer serviço a eles. As famílias refugiadas mal conseguem sobreviver, muitas vezes com as magras rações fornecidas pela ONU.A assistência médica é rudimentar e, segundo as crianças explicaram, é comum o doente morrer nas portas dos hospitais libaneses onde têm recusado o tramento para doenças que as clínicas da ONU não estão equipadas para o correto manejo.

Um pequena minoria de cristãos palestinos receberam cidadania libanesa nos anos 40 e 50, uma concessão de governos liderados por cristãos, ansiosos por obterem vantagens deles no sentido de elevar o número de sectários. Da mesma forma, aqueles cristãos palestinos foram facilmente integrados para beneficiar o equilíbrio político de tempos antigos. Os palestinos de hoje, a vasta maioria deles muçulmanos sunitas, são rejeitados porque não há lugar para eles na complexa política sectária do Líbano.

A coisa mais surpreendente para mim sobre o Líbano foi o sentimento geral de antipatia em relação aos palestinos. Não era universal, mas disseminado e inegável e, algumas vezes, me fez sentir desconfortável ou inseguro sobre como me identificar se me perguntassem de onde eu era. No extremo, ouvi de um conhecido libanês (um muçulmano) que o velho sionista viu que os palestinos em sua maioria, tinham vendido suas terras para os judeus e deixado seu país voluntariamente. Ouvi isto apenas de uma pessoa, mas ouvir isto é absolutamente chocante. Duas mulheres cristãs palestinas, abastadas e perfeitamente integradas, reconheceram que a vida nos campos deve ser bem dura mas negaram que os palestinos não tivessem permissão para trabalhar ou receber passaportes. Elas também asseguraram que somente uma minoria de palestinos no Líbano viviam nos campos. De volta a Amã, conversei com amigos que nasceram ou viveram no Líbano, que disseram ser bastante comum os palestinos "integrados" esconderem sua identidade. Uma mulher que nasceu no Líbano e que, depois de uma longa ausência voltou para lá há três anos atrás, me disse "Não anuncio que sou palestina. Tenho que garantir meu trabalho. Quando conheço alguém bastante bem o conto, mas, algumas vezes, meu sotaque revela minha origem."

Alguns libaneses com quem conversei sugerem que as aterradoras condições impostas aos palestinos são, em grande parte, para seu próprio bem quanto para o bem do Líbano e, em grande parte, culpa dos palestinos porque eles não são responsabilidade do Líbano. Comumente, os argumentos apresentados de que a concessão de direitos civis aos palestinos diminuiria  a urgência política do retorno deles para casa e até o desejo  de voltar, são um claro absurdo. A concessão de direitos aos palestinos da Jordânia (cidadania, passaportes, direito de voto e direito de trabalho, etc.) não diminuiu a ligação deles - principalmente os dos campos de refugiados - com os seus direitos na Palestina e nem a emigração e a dispersão pela Europa e Estados Unidos. O Líbano argumenta que tem o direito de não conceder cidadania aos refugiados palestinos e que, na verdade, não foi exigido do país que o fizesse. No entanto, em hipótese alguma um expediente político justifica negar direitos sociais e civis básicos a centenas de milhares de pessoas. .

Parece que os palestinos tornaram-se bodes expiatórios para os problemas do Líbano,inclusive para sua guerra civil. Não é incomum ouvir afirmações de que os palestinos "começaram a guerra". Ninguém estranharia se você sugerisse que os palestinos vieram para o Líbano apenas para incomodar os libaneses e não porque foram forçados a sair de seu país por um ocupante colonial que, ainda por cima, se recusa a deixá-los voltar para casa. Embora não possa dizer que tenha tido acesso a alguma fundamentação científica, ficou claro que o espírito de reconciliação e perdão que muitos libaneses prepararam-se para demonstrar a outros libaneses pelo seu desempenho - não obstante terrível - na guerra civil, foi negado aos palestinos. Ainda que seja possível encontrar libaneses instruídos e progressistas que se opõem ao tratamento que o país dispensa aos palestinos, no entanto a rejeição aos palestinos parece ser a tônica.

Compreendo que muitos libaneses se sintam ressentidos pelo fato de que, até certo ponto, a OLP tenha se tornado um "estado dentro de um estado" e que seus militantes não se submetiam a qualquer controle por parte do estado libanês. Não há dúvida de que a OLP podia e devia ter-se conduzido de forma diferente enquanto esteve no Líbano e que Iasser Arafat não conseguiu aprender as lições de sua experiência na Jordânia, no final dos anos 60, e cometeu todos os mesmos erros que culminaram no conflito desastroso com o governo jordaniano, em 1970. No entanto, independente do que a OLP tenha feito quando esteve no Líbano, são as crianças de Shatila e de outros acampamentos, e não Arafat, que estão pagando, hoje, o preço por eventos ocorridos antes de terem nascido. E, quando a OLP estava no Líbano, pelo menos, havia uma forte rede da Organização que prestava serviços sociais e médicos, que agora não mais existem.

A marginalização política que os palestinos vivem no Líbano combinada-se com a marginalização social crescente. Além de serem proibidos de exercer a maioria das profissões, as crianças dos campos nos disseram que seus moradores se sentem como párias. Os campos são vistos pelas pessoas de fora como antros de criminosos e ladrões que ali se escondem das autoridades libanesas, uma vez que grande parte dos campos ainda são controlados por vestígios de facções palestinas armadas e são áreas interditadas pelo exército e polícia libaneses. Consequentemente, todos os moradores dos campos são vistos como criminosos potenciais. As crianças dizem que raramente recebem visitas e o que mais as incomoda é que os palestinos que vivem fora dos campos, mesmo aqueles que moram no Líbano, esqueceram-se de que elas existem. Portanto, isolamento, desesperança e hostilidade mútua entre as pessoas de dentro e de fora dos campos só fazem aumentar.

Teria ido embora do Líbano com um profundo sentimento de alienação e desapontamento com a situação dos palestinos se não fosse por M., a jovem libanesa que faz um trabalho voluntário com as crianças de Shatila, passando algumas horas com elas todos os dias, arranjando viagens para fora do campo, ajudando trinta delas a se preparem para serem bem sucedidas nos exames e estimulando-as a acreditar e trabalhar sempre por um futuro melhor do que a infância que tiveram. Seu compromisso pessoal com as crianças e os adolescentes, apesar da falta de apoio, e o visível compromisso das crianças com ela, servem de poderoso exemplo da capacidade das pessoas para vencer as divisões impostas a elas.

Esta relação entre M. e as crianças de Shatila é uma coisa que me dá esperança de que a divisão entre palestinos e libaneses no Líbano pode ser vencida, embora fique claro que isto não acontecerá sem ativos esforços no caminho da reconciliação (atualmente quase não existentes) e a concessão de direitos básicos    aos palestinos. A outra coisa é que não há nada em minha experiência pessoal, na comunidade árabe americana, principalmente entre ativistas e a geração mais jovem, que reflita uma divisão como esta fora do Líbano. Pelo contrário, algumas das pessoas que conheço, que têm sido mais ativas no apoio aos direitos palestinos nos anos   recentes nos Estados Unidos (principalmente o direito de retorno), trabalhando juntamente com ativistas palestinos, são libaneses e libaneses-americanos. Antes de ir para o Líbano, acho que não me ocorreria pensar nisto ou considerar isto como normal, porque foi, na verdade, a solidariedade palestina com o Líbano em sua luta contra a ocupação israelense. Não sei se a diferença em minha experiência nos Estados Unidos é um efeito geracional ou porque, como comunidades no exílio, nós salientamos o que temos em comum. Qualquer que seja o motivo, depois da visita ao Líbano, estou mais vivamente consciente da importância de se construir e sustentar esta espécie de solidariedade.

Penso que não é possível ir a Shatila, encontrar as crianças de lá e não voltar profundamente impactado e, ousaria dizer, modificado. A mensagem das crianças foi clara: elas se sentem desesperadamente isoladas e querem manter contato com pessoas de fora, principalmente palestinos. Creio que todo palestino que tenha meios e disponibilidade para viajar, deva ir a um campo de refugiados. Isto inclui palestinos do Líbano, Jordânia e até Palestina, muitos dos quais  vivem próximos da entrada dos campos, mas que nunca se aventuraram a entrar. Não há desculpa para isto. Se houver razões para a reprovação do Líbano pelo seu tratamento aos palestinos, os palestinos da diáspora devem também se censurar por termos permitido que os refugiados do Líbano mergulhassem no abismo.

No entanto, para aqueles que forem, penso que há alguns deveres que devem ser levados a sério. O primeiro é ouvir as estórias de vida e experiência daquelas pessoas; o segundo é comprometer-se. Se você não estiver preparado para comprometer-se, não vá. Este compromisso pode ser tão modesto quanto emocionar-se com os jovens do campo e ser um amigo que ouvirá - e-mails e cartas são uma forma fácil quando não pudermos estar lá. Também ir e passar algumas semanas ou meses para ensinar ou, melhor ainda, colocar algumas crianças nas escolas e faculdades ou contribuir para a assistência saúde. Cada um - palestino ou não - conhece bem suas possibilidades. Além de encontrar um caminho para estabelecer uma ligação direta com as pessoas do campo, cada um pode e deve apoiar a campanha do direito de retorno.

Eu achava que a implementação total do direito de retorno e restituição fosse a única base para que a justiça na Palestina fosse mais forte. Então, encontrei as crianças de Shatila.

***

Para escrever para as crianças de Shatila, enviar e-mails para shatilakids@hotmail.com que serão repassados para o campo.

Para saber mais sobre o direito de retorno, visitar http://al-awda.org

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Ali Abunimah
ali@abunimah.org
http://www.abunimah.org



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