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ATUALIDADES

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A LEGITIMIDADE DA RESISTÊNCIA PALESTINA: UMA PERSPECTIVA ISLÂMICA

(*) Por Dr.Azzam Tamimi

(Este documento foi apresentado na 7ª Conferência Anual do Centro de Análise Política da Palestina, Washington DC, em setembro de 1998)

O objetivo deste documento é apresentar a justificativa islâmica para a legitimidade da luta de libertação da Palestina. O documento apresentará o ponto de vista do Hamas (Movimento de Resistência Islâmico).Seu fundador e líder, sheikh Ahmad Yassin recentemente expressou a posição oficial do Hamas. De acordo com ele, o movimento luta contra Israel porque é o estado agressor, usurpador e opressor que levanta o rifle contra nossos filhos   e filhas dia e noite. No momento não existe a perspectiva de iniciar ou aceitar um diálogo com Israel por causa do flagrante desequilíbrio de poder entre palestinos e israelenses. Diz o sheikh Yassin:

"Não pode haver diálogo entre uma parte que é forte e opressora e outra que é fraca e oprimida. Só pode haver diálogo depois que a opressão for suprimida. Continuaremos a nos comunicar com Israel usando as mesmas armas que têm sido usadas contra nós - o rifle. Ensinaremos a Israel quem é verdadeiramente a parte forte que detém o direito e a terra. Continuaremos a nos comunicar usando o mesmo método até que toda a terra da Palestina, e não só uma parte dela, seja libertada." (Sheikh Yassin foi libertado da prisão israelense em setembro de 1997, após 9 anos de detenção. Sua libertação foi parte de um acordo concluído entre Jordânia e Israel, depois que uma tentativa de assassinato do líder do Hamas, Khalid Misha'al, pelo Mossad fracassou). Justificando sua resistência armada contra Israel, o Hamas se considera uma extensão de uma antiga tradição que remonta à luta iniciada no começo do século XX contra o colonialismo britânico e sionista. Várias considerações ajudarão a compreender a natureza do Hamas e sua justificativa racional.

1.Todas as formas de resistência adotadas pelo movimento provêm das mesmas justificativas que o movimento de resistência palestina baseou sua luta por mais de um quarto de século. Pelo menos, os primeiros dez artigos da Constituição Nacional Palestina mostram inteira compatibilidade com o discurso do Hamas, conforme elaborado em sua Constituição e em outras declarações.

Além do mais, as mesmas justificativas para a resistência foram reconhecidas  ou endossadas, antes do surgimento do Hamas, em dezembro de 1987, por inúmeras instituições internacionais, como a Liga Árabe, a Organização da Conferência Islâmica, o Movimento dos Não Alinhados e a ONU. O reconhecimento de que a ocupação israelense da Faixa de Gaza e da Cisjordânia em 1967 é ilegal pode ser lida claramente nas resoluções 242 e 338, do Conselho de Segurança da ONU.

2. O Islam é a estrutura ideológica de referência. É nos valores do Islam que o movimento busca inspiração e seus esforços de mobilização, e na compensação da enorme diferença de recursos materiais entre o povo palestino e seus adeptos, por um lado, e Israel e seus adeptos por outro. Ao assim fazer, o Hamas não cria uma posição sem precedentes. Na verdade, a maior parte dos movimentos de resistência palestinos de uma forma ou de outra  reportam-se ao Islam, na sua doutrina e história, para inspirar seus guerreiros ao sacrifício, observar um elevado grau de paciência e determinação e esperança ou na vitória ou no martírio. Não admira considerar o fato de que as justificativas para a resistência sempre emanaram de uma situação palestina comum. Os palestinos são árabes cuja cultura, seja muçulmana ou cristã, foi bastante influenciada pelos valores islâmicos e pela terminologia islâmica. Todos sentem que Israel, cuja política expansionista através do engano ou da violência jamais mudou desde sua criação em 1948, cometeu uma grande injustiça com os palestinos. Ao buscar a justificativa da resistência armada no Islam, o movimento declara em seus estatutos:

O dia que os inimigos usurparam a terra muçulmana, o Jihad tornou-se compulsório (fard-u-'ayn) para cada muçulmano. Enfrentar os judeus, que usurparam a Palestina, a bandeira da Jihad precisa ser hasteada. A história moderna da Palestina é rica em slogans islâmicos. Afora um curto período de extrema secularização, entre 1967 e 1987, a luta nacional palestina tem sido de um modo geral islâmica, na identidade e nos slogans. O discurso de pessoas como o sheikh Ezziddin Al-Qassam e Al-Hajj Amin Al-Husseini era islâmico em sua essência. Tal discurso não estava restrito só aos muçulmanos. Os cristãos que lutaram sob a bandeira do Comitê Supremo Árabe, ou Abdel-Qader al-Husseini' al-Jihad Al-Muqaddas, costumavam usar a mesma língua e eram inspirados pela mesma motivação. Embora certos círculos, principalmente no ocidente e na mídia árabe secular, se empenhem em pintar o Hamas como se fosse uma aberração, trata-se do exato oposto.

3.O acordo de Oslo entre a OLP e Israel representa uma aberração, ou desvio, de que até agora tem sido uma posição palestina unificada vis-a-vis com a ocupação israelense da Palestina. O acordo permitiu a alguns palestinos   oporem-se, pela primeira vez, à resistência armada porque, de acordo com eles, o processo de paz traria um fim à ocupação e levaria ao estabelecimento de um estado palestino independente. Deve-se prestar a atenção aqui  para o fato de que o Hamas exerceu a luta armada bem antes da Conferência de Madri e do Acordo de Oslo. Portanto, seria errado sugerir que a continuação dessa resistência tinha por objetivo minar ou atropelar o processo de paz. No entanto, a era pós-Oslo tem sido uma época de extremo sofrimento para o movimento. As circunstâncias mudaram internamente,  e externamente internacionalmente fazer a resistência armada ficou muito caro e muito difícil de ser praticada. Não é só Israel que agora está mobilizado contra o Hamas, mas lamentavelmente a Autoridade Palestina também, cuja principal tarefa, conforme estabelecido no Acordo de Oslo é proteger Israel, controlando a população palestina sob sua administração. Apesar disso, o Hamas tem exercido um elevado grau de automoderação para evitar que seja arrastado numa luta palestinos contra palestinos. O movimento entende que tal perspectiva beneficia apenas aos israelenses. Nada do que a Autoridade Palestina possa fazer, inclusive prisão e perseguição de ativistas do Hamas, deve ser respondida com atos de violência contra a AP, e sim contra Israel. Tal posição do Hamas ganhou o respeito de palestinos, árabes e muçulmanos e fortaleceu sua legitimidade.

4. Os defensores de Oslo afirmaram,  meses após sua assinatura, que o acordo poria um fim à ocupação e que, portanto, os palestinos não precisavam mais da luta armada contra os israelenses. Mas, cinco anos depois de Oslo, o que vemos? Os territórios ainda estão ocupados, como jamais estiveram antes, a Cisjordânia e a Faixa de Gaza foram recortadas, mutiladas e se transformaram em ilhotas isoladas de concentrações humanas, ou cantões, administradas pela AP em nome dos israelenses; os assentamentos judeus existentes estão sendo expandidos e agora outros estão sendo levantados e desarabizados; grandes áreas de terra foram confiscadas para permitir a construção de caminhos de uso exclusivo de motoristas judeus; milhares de palestinos continuam presos nas prisões israelenses; formas de punição coletiva continuam a ser adotadas, inclusive a demolição de casas e o fechamento de áreas inteiras, e a situação econômica é muito pior do que antes. Em outras palavras, o processo de paz não melhorou as condições dos palestinos nos territórios ocupados e não parece que possa melhorar no futuro. A alegação de que a luta armada não era mais necessária foi, portanto, refutada com base em fatos reais, o que dá legitimidade aos argumentos do Hamas (que não é diferente do argumento adotado antes de Oslo pelo movimento nacionalista como um todo e que continua a ser usado pelas facções palestinas que se opõem a Oslo) de que a luta armada é o único meio verdadeiro de libertação. Deve-se notar aqui que ninguém dentro dos acampamentos palestinos diz que era ilegal, inclusive aqueles que assinaram Oslo. Esta posição se fortaleceu mais tarde pelo reconhecimento por parte da comunidade internacional, inclusive Estados Unidos - apesar de seu apoio incondicional a Israel - de que a ocupação israelense dos territórios é ilegítima. Ironicamente, Oslo, no longo prazo, serve mais ao Hamas do que à Autoridade Palestina.

5. O Hamas tem constantemente se esforçado para manter boas relações com todos os setores da sociedade palestina e mostrar-se a eles, sejam muçulmanos ou cristãos, religiosos ou secularistas, como um movimento de libertação nacional que compartilha com eles a aspiração de ver a Palestina liberta da ocupação estrangeira e governada por seu próprio povo. Aqueles que tentam ver o Hamas de uma forma mais compreensiva e optam por considerar todas as suas dimensões encontram uma vasta área de conhecimento, onde a cooperação, o diálogo construtivo e a mútua compreensão imperam.

Por outro lado, o Hamas é um importante "estimulador" da determinação do povo frente a ocupação israelense, aliviando o doloroso sofrimento dos palestinos. Além disso, ele contribui efetivamente para fiscalizar a corrupção e as injustiças da AP.

6. Os êxitos do Hamas entre os palestinos só são igualados com os sucessos obtidos na região e internacionalmente. Esta realização só foi  possível pelo fato de que a organização aderiu à posição árabe e islâmica em relação ao processo de paz patrocinado por  Israel e Estados Unidos. A recente viagem do fundador e líder do Hamas, sheikh Ahmad Yassin, a vários países árabes e islâmicos, é uma indicação clara desse êxito. A viagem pode até ser considerada como uma importante mensagem a quem possa se interessar. A mensagem é a de que árabes e muçulmanos, seus governos e povos, recebendo e festejando o sheikh Yassin, proporcionam ao seu movimento uma espécie de guarda-chuva da legitimidade, endossando sua resistência armada contra a ocupação israelense e expressando a oposição aos assentamentos impostos, que  suprimem os direitos de árabes e muçulmanos na Palestina. Esta posição encontra forte apoio entre um número cada vez mais crescente de países não árabes e não muçulmanos do hemisfério sul. Muitas dessas nações agora consideram o Hamas um movimento de libertação nacional contra o colonialismo.

7. Apesar da irresistível imagem de militância que ocupa o imaginário de muitas pessoas no ocidente, o Hamas não é só uma facção militar. Trata-se de uma organização política, cultural e social que tem um braço militar especializado na luta armada contra os israelenses. Além deste braço militar clandestino, todas as outras seções no Hamas funcionam com plataformas públicas. O braço armado tem sua própria liderança e mecanismos de recrutamento. O departamento político, e suas instituições referentes aos serviços social,médico ou educacional, não têm interferência direta na forma pela qual o aparato militar, conhecido como Brigadas Azziddin Al-Qassan, funciona ou na forma como seleciona seus alvos. Alguns podem até sugerir que a relação entre o departamento político e o setor militar é análogo à relação entre o Sinn Fein e o IRA. As atividades sociais e educacionais do Hamas nos territórios ocupados tornaram-se tão enraizadas na comunidade palestina que nem os israelenses nem seus parceiros na Autoridade Palestina foram capazes de livrar-se delas. A verdade é que o Hamas, ao contrário da avaliação israelense, age como uma infraestrutra para numerosas instituições culturais, educacionais e sociais em Gaza e na Cisjordânia, e presta serviços inestimáveis e insubstituíveis para o público. Em outras palavras, é o Hamas que dá vida a essas instituições e não o contrário. Os israelenses frequentemente têm dito a Autoridade Palestina para acabar com elas. A Autoridade Palestina tentou, mas não conseguiu. Um enfraquecimento dessas instituições equivale a uma declaração de guerra não contra o Hamas mas contra a comunidade como um todo. Isto é tão simples porque o papel desempenhado por elas é indispensável. Nem Israel,nem a Autoridade Palestina foram capazes de apresentar uma alternativa.

8. Um aspecto característico da luta armada do Hamas é a sua disciplina. Diferentemente da experiência da maior parte das outras facções palestinas, a luta armada do Hamas emana da Palestina e está limitada ao seu território, e que o Hamas considera ser o legítimo campo de batalha. Limitando sua luta armada à resistência à ocupação, o movimento conseguiu evitar as tentativas israelenses de arrastá-lo para uma batalha fora da Palestina. A tentativa de assassinato de Kahlid Misha'al, o chefe político do Hamas, foi uma clara intenção de envolver o movimento numa guerra de desgaste fora da Palestina - uma batalha que o Hamas tem constantemente tentado evitar. Ao aderir a esta posição ficou mais difícil para os israelenses e seus aliados, principalmente os Estados Unidos, convencerem a opinião pública mundial que o Hamas é um grupo terrorista. Por todos os critérios, o Hamas é um movimento de libertação nacional, cujo esforço militar é dirigido unica e exclusivamente aos ocupantes estrangeiros da terra de seu povo, dentro da terra ocupada.

9.Mais recentemente, o braço militar do Hamas (Brigadas Ezziddin Al-Qassam) planejou e realizou várias convocações de 'amaliyyat Istish-hadiyah' (operações de martírio). Normalmente, elas são descritas na mídia ocidental como operações suicidas. Essas operações, que atingem civis, são consideradas uma aberração da posição fundamental do Hamas de apenas atingir alvos militares. Oficiais do Hamas insistem que tais operações representam uma exceção, decorrente da insistência israelense de atirar em civis palestinos e da recusa de Israel em concordar com um pacto que proíba a morte de civis de ambos os lados - um entendimento comparável àquele alcançado por Israel e o Hizbollah no sul do Líbano. A primeira operação istish-hadi veio em resposta ao massacre de muçulmanos que se encontravam ajoelhados rezando na Al-Masjid al-Ibrahimi, na madrugada do 15° dia do jejum do mês sagrado do Ramadan (25.02.94). O sheikh Yassin, que ofereceu uma trégua aos israelenses, explicou que seu movimento não aprova a morte de civis mas que, às vezes, é a única opção que o movimento tem se for para responder ao assassinato de civis palestinos. Apesar do oferecimento de limitar a morte de civis se os israelenses prometessem fazer o mesmo, Israel insiste em ignorar o oferecimento. O Hamas acusa os israelenses de terem sido responsáveis pela retomada de seus ataques a civis israelenses. Evidentemente, durante os sete meses que antecederam o assassinato pelos israelenses de Yahya Ayyash, comandante das Brigadas do Hammas, conhecido como "o engenheiro", o movimento respeitou um cessar-fogo unilateral. O que Israel testemunhou após o assassinato de Ayyash significou o arrependimento de Shimon Peres pelo resto de sua vida. O assassinato, que era para ter trazido a vitória para os israelenses e a humilhação para os palestinos, custou a Peres sua carreira política e mudou o curso da história, ao trazer Netanyahu ao poder. Com suas próprias mãos, Peres destruiu seu sonho de um "novo Oriente Médio", onde Israel se tornasse uma entidade aceita. O funeral de Ayyash e de outros líderes do Hamas mostrou claramente que o povo palestino como um todo se identifica com a luta do Hamas. A fúria exibida por milhares de manifestantes sempre que Israel consegue eliminar um líder militar é o testemunho de que a resistência armada é uma expressão verdadeira do desejo dos palestinos, cujos enfrentamentos diários com a ocupação, a humilhação e a opressão reforça a convicção de que somente a linguagem da força compensa.

10. Logo após sua libertação da prisão, o líder sheikh Ahmad Yassin ofereceu aos israelenses uma trégua. Ele declarou que o Hamas queria ir até assinar um acordo de cessar-fogo com Israel, nas seguintes condições:

a) A trégua dura por um dado período de tempo e não implica no reconhecimento do estado de Israel;
b) Israel concorda com a retirada de todas as suas tropas do territórios ocupados em 1967;
c) Israel concorda em demolir todos os assentamentos erigidos em solo palestino desde 1967;
d) Israel concorda em libertar todos os prisioneiros palestinos que se encontram em seus centros de detenção;
e) O Hamas concorda em parar todas as operações militares contra alvos israelenses pela duração do período acordado.

Até aqui, Israel tem rejeitado este oferecimento. O sheikh Yassin acredita, no entanto, que mais cedo ou mais tarde mudarão suas mentes e finalmente aceitarão um cessar-fogo temporário. A longo prazo, ele está otimista e acredita que o mundo já está testemunhando o início do fim do projeto sionista. Ele prevê que em menos de 30 anos Israel terá passado.


* Dr. Tamimi é o diretor do grupo com base em Londres Liberty for the Muslim World.



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