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ATUALIDADES

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PARA ACABAR COM A GUERRA NA PALESTINA

Por Emir Sader

Ente tantas palavras e análises, às vezes o essencial do conflito na Palestina termina ofuscado: a reivindicação justa e legítima de um Estado palestino - assim como foi reconhecido, há mais de meio século, o Estado de Israel. Trata-se de uma guerra de defesa dos palestinos, com armamento elementar - que na maior parte dos casos se reduz a pedras -, dos parcos territórios em que sobrevivem. E contra a invasão de um exército considerado um dos mais bem equipados do mundo.

Tanto assim que a maioria esmagadora, se não a totalidade, das mortes - mais de 400 do lado palestino, contra menos de 10% desse total do lado israelense - aconteceu em território palestino: uns se defendendo da invasão; outros atacando. Os israelenses negam aos palestinos os direitos elementares que já conquistaram. E usando as armas das quais foram vítimas: a discriminação, a violência militar, a propaganda e o bloqueio ao retorno de refugiados - 4 milhões de refugiados palestinos.

De vítimas passaram a algozes.

As negociações precariamente vigentes têm todas as condições para não desembocarem numa paz justa e duradoura. Os acordos de Oslo, ao pegar Arafat e os dirigentes palestinos em situação de debilidade - por causa do apoio que haviam dado a Saddam Hussein, na Guerra do Golfo - levaram-nos a aceitar um cronograma que não desembocava no reconhecimento do Estado palestino.Menos ainda em outros pontos essenciais, como o estatuto de Jerusalém, a libertação de prisioneiros palestinos, o reconhecimento preciso das fronteiras do novo Estado e o direito inquestionável - como o foi para os judeus, em relação a Israel - de retorno de todos os refugiados palestinos.

Além do não-cumprimento do cronograma, os acordos foram obstaculizados por dois outros fatores: o assentamento de dezenas de milhares de colonos israelenses em territórios do novo Estado - impedindo a continuidade física e a soberania territorial - e a injustificável - em termos de direito internacional - mediação dos EUA. Essa mediação se impôs pela força, por causa da hegemonia norte-americana no mundo, chocando-se, no entanto, com os mínimos critérios de imparcialidade e objetividade. Não fosse por outro motivo, seria pelo peso do lobby judeu dentro dos EUA e de seus estreitos vínculos com o poder e com a grande imprensa.

Esses vícios levaram, como previra Edward Said, o mais importante intelectual palestino, o processo de paz a um beco sem saída, com bombas-relógio que terminaram por explodir - sendo os palestinos as principais vítimas. Israel também paga um preço caro: seu isolamento no plano internacional, contando apenas com o voto e o veto dos EUA na ONU, e a imagem de verdugo e agressor impiedoso. Os israelenses não conseguirão, física e conscientemente, viver em paz enquanto oprimirem um povo que tem tantos direitos quantos os seus.

Aqui mesmo no Brasil, opera de forma sistemática e odiosa um lobby sionista, que pressiona cotidianamente todos os órgãos formadores de opinião, buscando silenciar a voz dos que divergem de seus pontos de vista (eu mesmo fui vítima, entre tantos outros).

Um povo oprimido e discriminado secularmente precisa retomar suas generosas tradições pacíficas e internacionalistas, aquelas que fizeram com que granjeasse a simpatia e o apoio da comunidade internacional, e, num gesto de grandeza, reconhecer a necessidade da fundação de um Estado palestino com os mesmos direitos do Estado de Israel: continuidade territorial, soberania política, direito de acesso aos seus refugiados e organização administrativa e militar. E exigir da ONU que exerça o papel de mediadora, o que, por sua vez, significa agir de acordo com a vontade da grande maioria das nações.

Só pode haver uma paz duradoura e justa na Palestina. A paz com dois povos, com dois Estados soberanos, com relações diplomáticas e com reconhecimento mútuo, como convêm a povos civilizados e democráticos.

 

Publicado na Folha de São Paulo, do dia 4/01/01. Emir Sader é professor de sociologia da USP e UERJ

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