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ATUALIDADES

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O QUE TODO PALESTINO PRECISA SABER

Por Ahmed Amr

Existem algumas coisas que ninguém ousa revelar aos palestinos. Talvez seja melhor que certas verdades não sejam ditas. Assim, muitos palestinos continuam acreditando que "se o mundo soubesse ...". Bom, detesto ter de enviar esta mensagem para um povo que admiro há muito tempo por sua resistência e coragem. O mundo sabe tudo sobre vocês. Sabe que  estão sendo tratados como animais enjaulados. Viu a fotografia de Mohammad El Durah e de uma centena de outros como ele. Sem essa de convencer Powell, ele já conhece a situação de vocês. Aliás, até o porteiro do Departamento de Estado sabe da condição de vocês. Milhares de americanos testemunharam suas crianças sendo mortas pelos atiradores israelenses, mas estão mais preocupados com a queda do índice Nasdaq. Infelizmente, lidar com o resto do mundo é algo que eles delegam para gente como Powell e Albright.

O que cada palestino tem que perceber é que a política do governo americano é a de atormentar e humilhar os árabes, em geral, e os palestinos, em particular. Fazem isso por causa do preço do petróleo, do financiamento de campanha e para lamber as botas do influente e poderoso lobby judeu. Quaisquer que sejam as razões, nada tem a ver com ignorância ou desconhecimento. Na verdade, as informações que eles dispõem nos arquivos do Departamento de Estado assombraria até ao árabe mais bem informado. Peritos, com curso de doutorado nos mais diversos assuntos sobre o Oriente Médio, perambulam por entre as paredes da CIA e de uma série de outras agências do governo federal. Possuem brigadas inteiras de especialistas em "terroristas" para estudar a mente "árabe". Se você tiver a oportunidade de passear por seus arquivos públicos, perceberá que a elite política de Washington sabe cada ato criminoso que já foi cometido contra os árabes por Israel, e pelas mãos de seus próprios líderes. Em seus arquivos secretos, o governo dos Estados Unidos documentou cuidadosamente, cada injustiça praticada contra os palestinos. São arquivos e mais arquivos com os registros dos males praticados, por menores que sejam, contra o desgraçado povo do Oriente Médio.

Nosso governo, por exemplo, conhece muito bem os crimes de guerra de Ariel Sharon. Apesar de toda essa conversa de ineficiência burocrática, este é um governo que documentou cada detalhe de Sharon e Qibya e Sabra e Shatila. Eles sabem que Sharon se equipara, para pior, com Waldheim, Haider e Pinochet. Mas, pouco importa, porque a elite americana nunca prezou a vida dos palestinos. A mídia, principalmente o New York Times, vende a imagem de Sharon como a de um herói de guerra e condena quem quer que denuncie a violência israelense contra os palestinos. Também ninguém deve se surpreender com a postura indiferente de Colin Powell, um maquiavélico que já foi recompensando adiantadamente com milhões de dólares provenientes da indústria da mídia americana. Nos últimos sete anos, ele percebeu o valor do negro complacente desprezando americanos de influência. De modo incomum, ele estabeleceu relações com os homens que se especializaram em satanizar tudo que seja árabe e palestino. Powell acumulou uma fortuna de milhões de dólares baseada no número de árabes mortos.

Colin Powell é aquele que, no início da administração Clinton, foi contra a intervenção americana nos Balcãs. A maior parte das mortes na Bósnia, Croácia, Ruanda, Kosovo e Chechênia é o resultado de sua indiferença a qualquer coisa que pudesse interromper a caminhada de sua carreira pessoal. Para se ter uma idéia da falta de caráter deste homem, é preciso saber que,filho de jamaicano  e americano, nunca aceitou suas origens africanas. Sempre se apresenta como o filho de imigrantes ambiciosos, para se diferenciar dos descendentes de escravos negros da América. Colin e Bush, e "Papai Bush", sabem tudo sobre os palestinos. Sabem o número exato de palestinos que levaram 5 décadas em exílio desgraçado e dos muitos que provaram o gosto amargo das ignomínias diárias em uma terra corrupta, que foi arrebatada por uma ocupação militar estrangeira, subsidiada por bilhões de dólares provenientes dos impostos americanos. Por isso, é  inacreditável que árabes e palestinos, inclusive milhões de árabes-americanos, continuem a negar a verdadeira intenção da América.

A intenção da América está sempre em leilão. Se você pensa que a América é um país livre, está redondamente enganado. É um lugar muito caro, onde nada é mais supervalorizado do que um político americano. Clinton e sua intolerante senadora demonstraram claramente o preço do acesso ao coração político desta nação. Políticas internas e externas do governo federal sempre podem ser feitas sob medida, para se alinhar aos interesses particulares dos grandes bolsos. No que se refere à política para o Oriente Médio, é complicado fazer lances contra o lobby judeu. Seus bolsos são grandes e podem atirar dardos do tamanho de uma CNN ou de um editorial no New York Times.   Este é um lobby étnico, que quer trazer sua contribuição para poluir e envenenar, mais adiante, o processo de eleição dos legisladores americanos, tudo por conta do apetite ambicioso de Israel pelo estado palestino.

Para a casta dos cretinos morais que aspiram ao cargo público nestes Estados Unidos da América, humilhar árabes e crucificar palestinos é um bilhete de ida para o paraíso político, o que me traz aos líderes dos árabes que, por sete anos, foram presas de israelenses e americanos em um jogo de confiança chamado Oslo. Em qualquer outro lugar do planeta, este monumental fracasso estratégico teria levado seus arquitetos a uma aposentadoria ou exílio permanentes.Pelo contrário, os líderes árabes aparentemente querem fazer um show de participação em uma nova rodada americana, para alcançar acordos "provisórios" com um famoso criminoso de guerra como Sharon. E enquanto os monarcas e ditadores absolutos  dos árabes estão em reuniões sociais com o clone de Madeleine Albright, os israelenses ocupam-se em encurralar   os palestinos em guetos cercados de arame farpado. Enquanto Powell vende uma política de confrontar árabes e Iraque, Arafat está tão ocupado, assegurando fundos que garantam sua autoridade "continuada" sobre os palestinos, que ele pretende aceder às ordens americanas de se curvar a Sharon, o açougueiro de Qibya e Sabra e Shatila.

O que todo palestino precisa saber é que o alinhamento atual de seus  líderes políticos é constitucionalmente incapaz de enfrentar as ambições territoriais de Israel e a corrupção política da América. Estes reis e emires, apesar de  toda sua riqueza, são os árabes mais fracos do planeta. Eles têm coluna vertebral de lesmas. Eu não deixaria meu cachorro aos cuidados deles. Mas, sem errar, Saddam é uma criatura cada vez mais sem caráter, cínico o bastante para matar o pai de seus netos, usar armas químicas contra os curdos e manipular a causa palestina para a sua sobrevivência política. A América, por conta de Israel, usou Saddam como desculpa para matar de fome um milhão de iraquianos e pulverizar o exército e a força econômica iraquianos. O cerco econômico contra o Iraque precisa ser levantado imediatamente, mas devemos isto aos iraquianos sofridos para desprezar Saddam. Eu não daria Saddam para meu cachorro comer. Ninguém está autorizado a catequizar os palestinos sobre os israelenses e seu governo. Veja o lixo da ideologia racista que os motiva a se reunirem em torno de assassinos como Sharon e Barak. Como já era esperado, os líderes judeus da América, inclusive os editores do New York Times, são cúmplices em cada crime israelense. Seria suicídio tomar seu tempo em nome de judeus 'liberais", mesmo que fosse para defender o menor dos direitos palestinos. Eles só são "liberais"  em questões que não afetem os direitos judeus, inclusive os direitos ancestrais dos judeus do Brooklyn ao estado paletino em Nablus e Jerusalém Oriental.

A América e Arafat venderam a vocês a promessa de Oslo. Esperem 7 anos e terão seu estado. Como os atiradores israelenses estavam matando suas crianças, foi-lhes pedido que aguardassem o resultado das eleições americanas. Depois, aguardassem os israelenses elegerem Sharon. Vocês esperavam que europeus e americanos reagissem a essa eleição. Mas, eles não o fizeram e nem o farão. Os crimes de guerra contra os palestinos não contam, principalmente se Arafat quiser dar o perdão a Sharon.

O que cada palestino precisa saber é que, antes de conquistar sua independência, é preciso, primeiro, perder Arafat. O que cada palestino precisa saber é que para ajudar a revolta palestina é preciso, primeiro, uma revolta  por conta própria.

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Ahmed Amr é um jornalista que mora em Seattle, Washington, e é editor do nileMedia.com.

Publicado em 13/03/2001.

 

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