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ATUALIDADES

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"NUNCA MAIS" SIGNIFICA NUNCA PARA TODA A HUMANIDADE (*)

Hoje, o que Israel faz, com o apoio e dinheiro dos Estados Unidos, nos lembra a espécie de crueldade hesitante que acompanha os massacres e genocídios perpetrados com o propósito, ou de eliminar comunidades inteiras, ou de trazê-las completamente de joelhos. Isto não é novo na história, mas, neste caso, por certo que é interessante, na medida em que seus autores são as mesmas pessoas que juraram, após a conhecida e desumana morte nos campos nazistas, que "NUNCA MAIS" o racismo seria praticado contra eles. O que realmente significa "NUNCA MAIS"?

A história é comparação e confronto. Não existe documentação história precisa, ou integridade intelectual, sem a comparação e o confronto. Como podemos esperar que ocorra qualquer mudança se não aprendermos com as lições da história? Como esperar sermos seres humanos racionais inteiramente sãos, com emoções saudáveis e um forte sentido de valores éticos, se não tivermos memória? Como podemos contar nossas estórias para nossos filhos e netos, criar novos mitos e divisar um futuro se nossos opressores nos negam o privilégio da memória, negando-nos, assim, a esperança?

O que Israel está fazendo aos palestinos, pedindo-lhes que aceitem o Acordo de Oslo incondicionalmente, sem o Direito de Retorno, sem admitir que cometeu crimes contra a população, sem reconhecer oficialmente que extirpou todo um povo e violou seus direitos civis, legais e humanos, é o seguinte: pedir aos palestinos que tenham amnésia e que se esqueçam de quem são e de onde vieram. Quando Israel continua a oprimir e a prender de diversas formas, como está acontecendo aos palestinos estrangulados na Cisjordânia, e isolando-os em pequenos enclaves através de bloqueios, trata-se de um movimento que objetiva tirar dos palestinos sua vontade de resistir e sua motivação para viver, sonhar e criar.

Em uma fria entrevista para Amira Hass, que escreve para o Haaretz (20/11/00), um soldado, atirador de elite da Força de Defesa Israelense, admite que, na definição da FDI, crianças são aquelas abaixo de 12 anos. Todo palestino acima dessa idade não é uma criança e a ordem é atirar: "12 anos ou mais, temos a permissão para atirar, isto é o que eles nos dizem."  Segundo ele disse à jornalista, todo atirador de elite tem uma pessoa junto a ele, cuja função é mirar. É lógico que, uma vez que dois colaboram nessa função nefasta, com toda probabilidade acertarão o alvo, ou seja, a cabeça ou o peito de um adolescente palestino.

A crueldade com a qual os Estados Unidos continuam alimentando este processo de aniquilação dos palestinos é assombrosa. Os incríveis irritantes presidentes americanos, na verdade,  pedem que as vítimas indefesas parem com a violência, ao invés de pedirem aos opressores, que vêm recebendo gratuitamente armas dos Estados Unidos. É realmente chocante.

A agência de notícias France Press documenta: em 2 de março de 2001, testemunhas disseram que uma metralhadora em posições do exército no assentamento judeu de Psagot, atirou e matou um menino de 9 anos, Ubey Darraj. Arjan el-Fassed, um cientista político palestino-alemão, e ativista dos direitos humanos na Coalizão Palestina pelo Direito de Retorno (Al-Awda), documenta que Sara, uma menina de 8 meses de idade, foi morta depois que um colono judeu crivou de balas o carro de seu pai. Também, Mo'ayyad Ossama al-Jowareesh, de 14 anos, cometeu o erro de ir para sua escola passando por baixo da torre de um soldado da FDI: o soldado da guarita o baleou mortalmente.

Quanto mais os palestinos experimentam a brutalidade israelense, menos flexíveis serão e mais sua memória será despertada e iluminada pelo fogo. Esses incidentes e centenas, milhares de outros, nunca serão esquecidos. A história nos ensina que a verdade tem um caminho de voltar para perseguir os autores da injustiça. Não é isto que está acontecendo com os criminosos nazistas após 50 anos? Bastante estranho, este é o mesmo tempo que os palestinos vêm aguentando nas mãos dos israelenses, seja pela ocupação, massacres, prisões, mais ocupação, mais prisões, e mais mortes e fome.

As palavras NUNCA MAIS são para toda a humanidade; quando elas foram proferidas pelos sobreviventes do Holocausto, não pressagiavam o ódio a um outro povo, os palestinos. Os políticos de Israel, os sionistas do mundo, os judeus israelenses e americanos, envergonham o legado dos sobreviventes do Holocausto e o rebaixam. Isto é um ataque à história judaica, em nada parecido com o que tenha acontecido antes. Hoje, não se trata de um mundo estrangeiro hostil que está perseguindo os judeus, e sim os políticos americanos e israelenses e líderes militares que estão transformando a sociedade israelense em uma sociedade de assassinos de crianças. Quando esta insanidade irá parar?

Quando os judeus, que lideraram movimentos contra as guerras, movimentos para libertar outros povos da tirania de opressores, quando despertarão? Quando os judeus instruídos e esclarecidos, que simbolizavam os livres pensadores e intelectuais oprimidos em diferentes sociedades e que se arriscaram tanto, a fim de serem ouvidos, quando eles falarão? Quando se rebelarão? Quando processarão seus líderes, que deveriam estar sendo julgados pelo Tribunal de Haia de hoje?

Sharon, Kissinger - que é o idealizador moderno da destituição palestina -, e outros, precisam ser julgados por todos os crimes que cometeram contra a humanidade. Milosevic não é pior do que eles. Quando eu vivia em Beirute, depois do massacre de Sabra e Shatilla, tive o privilégio - ainda que muito doloroso - de abrigar em minha casa uma das mulheres que sobreviveram aos massacres, quando ela chegou em estado de choque à noite. Seu nome era Salwa al-Samra. A família de Salwa foi brutalmente assassinada na frente dela. Sua mãe não estava lá, dormia na casa de sua tia, mas seu irmão de 12 anos, que estava tentando trazer água para seu pai, morreu queimado juntamente com o pai, depois de achar que ele tinha sido poupado. Sua irmã de 15 anos foi esfaqueada no pescoço na sua frente, como um cordeiro e ela começou a gritar "Matem-me também, matem-me também", o assassino disse "não, queremos mantê-la viva, porque assim você vai e diz  ao mundo o que aconteceu a vocês". Salwa ainda é viva e ainda mora em Beirute, tem uma filha e um filho; ela foi traída quando a OLP saiu do Líbano e foi deixada para trás, juntamente com muitas outras mulheres, crianças e idosos, à mercê desses assassinos enviados por Sharon. Este é o homem que governa Israel atualmente.

Por favor, não me digam que não posso comparar e confrontar; Israel não pode estar acima de tudo, porque judeus europeus viveram o Holocausto e nem o Holocausto pode ser usado como uma cortina moral que espalha os crimes indesculpáveis cometidos hoje contra os palestinos. É o exato contrário o que a resistência das verdadeiras vítimas do Holocausto nazista nos ensina.

O que o mundo está esperando? O que os Estados Unidos pretendem fazer? O que está acontecendo com o bom senso e a boa vontade? Vamos ficar olhando, enquanto mais e mais palestinos morrem diariamente e enquanto ouvimos insultos gratuitos dos líderes americanos e israelenses? Quando os homens de consciência despertarão, se é que despertarão?


(*) Samia Costandi é uma universitária e escritora free-lance, que mora em Montreal, Canadá. O presente artigo teve a sua publicação negada pelo jornal canadense, The Montreal Gazette, sob a alegação de que o artigo equipara os nazistas aos israelenses, sendo, portanto, inaceitável.

 

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